Exclusivo "Biden durante a campanha manifestou uma retórica antagónica face à China"

Entrevista a Luís Tomé, especialista na geopolítica da Ásia-Pacífico e diretor do departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. O académico admite certa continuidade da política americana com a China, mas abordagem de Biden será diferente da de Trump.

Contenção da China será a mais óbvia linha de continuidade da política externa americana com Joe Biden presidente?
Sim e não. A perceção da China como rival estratégico e até principal ameaça tornou-se relativamente consensual nos EUA, quer entre a população quer entre democratas e republicanos, e o próprio Joe Biden durante a campanha para as presidenciais manifestou uma retórica bastante antagónica face à China e ao presidente Xi Jinping. Além disso, Biden deverá recolocar a promoção da democracia e dos direitos humanos entre as prioridades da política externa americana, o que pode aumentar certas fricções com Pequim para lá das questões comerciais, tecnológicas, de Taiwan ou do mar da China do Sul. Estes fatores permitem antever uma certa continuidade na contenção da China. Contudo, penso que a Administração Biden tentará seguir uma abordagem distinta de Trump: por um lado, dando mais margem para cooperação e articulação com a China onde é possível numa agenda muito ampla, do combate às alterações climáticas à gestão dos dossiês nucleares do Irão e da Coreia do Norte ou de certas crises e conflitos, no fundo, conjugando competição e cooperação com Pequim; por outro, lidando com a China em articulação com parceiros e aliados, designadamente do "arco das democracias".

Barack Obama, Donald Trump, agora Biden. Como tem evoluído a abordagem dos Estados Unidos a uma China cada vez mais poderosa?
Apesar das muitas diferenças, creio que todas as administrações americanas desde o fim da Guerra Fria têm tido em relação à China, fundamentalmente, uma política que mistura contenção e competição com cooperação e envolvimento. Porém, a China foi aumentando o seu "poder nacional abrangente", o que levou a Administração Obama a tentar criar com parceiros e aliados dos EUA mecanismos de contrapeso à China e para levar Pequim a assumir e respeitar mais premissas crucias de reciprocidades nas relações económicas e comerciais, por exemplo, através da Parceria Trans-Pacífico ou das negociações TTIP com a UE, ao mesmo tempo que tentou articular com parceiros reformas da Organização Mundial do Comércio e dos mecanismos de arbitragem para disputas comerciais. Por seu lado, a Administração Trump acentuou a dimensão competitiva e mesmo confrontacional face à China, designadamente nas áreas do comércio e da tecnologia, mas de forma isolada, não só não articulando com parceiros e aliados como também atacando estes numa postura nacional-populista, protecionista, egoísta e isolacionista. Daí, por exemplo, ao mesmo tempo que lançava a guerra comercial com a China, a Administração Trump ter imposto e ter ameaçado impor novas tarifas a importações provenientes desde o Japão à União Europeia, retirado os EUA do TPP e do TTIP, e até ameaçar abandonar a OMC, tal como retirou os EUA do Acordo de Paris sobre combate às alterações climáticas, do Acordo nuclear com o Irão ou da Organização Mundial da Saúde, deixando vários dos seus aliados do mesmo lado da China. Biden confrontar-se-á com um menor poder relativo dos EUA (em particular "poder de atração") e uma China mais poderosa e também mais assertiva, e creio que tenderá a seguir uma abordagem mais próxima da da Administração Obama (de que foi vice-presidente), sobretudo, no que respeita ao envolvimento e à articulação com parceiros e aliados para lidar com a China.

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