"Não vir à mesquita para as orações foi um aspeto que incomodou imenso as pessoas"

O encerramento das mesquitas e a transmissão das orações por via digital encontrou alguma resistência por parte dos fiéis muçulmanos. David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, afirma que têm recebido mais pedidos de ajuda desde o início da pandemia e que a missão dos religiosos é dar às pessoas uma espécie de calmante espiritual.

Qual é a mensagem da comunidade islâmica para este ano?
A mensagem que a comunidade islâmica de Portugal quer dar a todos em 2021 é que é um ano muito diferente dos outros anos. E esta situação é global. E nós estamos a enfrentar uma fase muito complicada em todos os aspetos, em todos mesmo. Economicamente, socialmente, religiosamente, espiritualmente... E como encarar essa situação toda? Como crentes que somos, com paciência e muitas orações para que a situação volte à normalidade. E para a situação voltar à normalidade estamos a passar por uma fase, podemos considerá-la como um teste... refletir sobre o que nós temos vindo a fazer, nós seres humanos, todos nós, o que é que nós demos aos outros, o que é que os outros esperavam de nós. Infelizmente, não fomos justos para com os nossos próximos e, provavelmente, depois de isto passar, teremos de refletir novamente sobre qual é mesmo o objetivo de eu estar aqui neste mundo temporário. Esta é a mensagem que nós constantemente transmitimos às pessoas: muita reflexão, prudência e paciência, acima de tudo.

Como têm chegado às pessoas nestes tempos de confinamento?
Há aqui duas coisas que são muito importantes: a prática da religião, a mesquita está ligada a isso, e a nossa saúde, a saúde de todos nós, que é muito importante. Sobre as recomendações para o distanciamento social, nós fomos uns dos primeiros a implementar essa prática nas mesquitas, mais concretamente na Mesquita Central de Lisboa. Muitas das práticas que nós concretizámos foi muito antes de haver qualquer recomendação por parte da DGS, porque a DGS preocupa-se com todos em geral, não especificamente com os religiosos. E nós, em algumas situações, antecipámo-nos, porque a saúde, para além de ser importante, é algo sagrado. Não foi fácil porque, por exemplo, na oração que nós fazemos em congregação, juntamos ombro com ombro. Uma das primeiras coisas a decidir foi que não seria possível haver essa junção. Já foi violento. Não vir à mesquita para as orações foi outro aspeto que também incomodou imenso as pessoas. À sexta-feira, o dia sagrado para os muçulmanos - como é o sábado para os judeus e o domingo para os cristãos -, não haver a oração nas mesquitas foi muito mais violento espiritualmente. No início tivemos algumas críticas por parte dos muçulmanos, mas fomos firmes. Como chegar até às pessoas? Decidimos fazer todos os dias, usando as redes sociais, uma conversa, uma palestra, uma oração, uma prece. O que nós não transmitimos através das redes sociais são as orações diárias, as cinco orações diárias que fazemos, não é possível fazê-lo virtualmente, a pessoa pode fazê-lo em casa e a validade é a mesma. Quando perdemos alguém, informamos as pessoas que aquele ritual que tínhamos de lavar a pessoa que nos deixou, vestir, enterrar sem o caixão, hoje não é possível fazermos isso. E vamos explicando às pessoas que mesmo a presença no cemitério é muito limitada. Então o que fazer? Orar por aquela pessoa que nos deixou, orar pelas pessoas que estão doentes. As mesquitas estiveram fechadas, o acesso às mesquitas muito limitado, a Mesquita Central de Lisboa manteve a parte do secretariado a funcionar, mas a presença nas orações, a ablução na mesquita, está tudo muito limitado [a Mesquita Central de Lisboa reabriu a 15 de março].

Que desafios a pandemia vos colocou enquanto confissão religiosa?
O maior desafio que esta pandemia está a colocar a cada um de nós é refletirmos sobre tudo o que podemos perder de um momento para o outro. Mesmo que a pessoa seja muito rica, não pode viajar, e esta limitação é para todos. No entanto, ainda há pessoas que não conseguiram obter essa mensagem de reflexão, de olhar para si, o que é que eu tenho feito pelo outro, o que é que eu partilhei para com o outro. E criar uma ligação mais profunda com o Criador. Há pessoas que me dizem "esta pandemia fez-me voltar a praticar ainda mais a minha crença, fez-me voltar a ter acesso à leitura do Alcorão, que eu não fazia com muita regularidade, hoje já faço e sinto-me bem". A questão que se coloca aqui é que é um grande desafio para toda a humanidade, para valorizarmos aquilo que temos. E de um momento para o outro podemos perder, materialmente, tudo ou quase tudo. E também podemos perder pessoas que são muito importantes para nós.

Como é que se consegue manter fiéis nestes tempos de pandemia?
De um lado temos pessoas que começaram a interessar-se ainda mais por conhecer o islão, e muitas vezes acompanhando as nossas conversas há situações em que a própria pessoa faz uma pesquisa, está em casa sem fazer nada, praticamente, e então vai à procura. A oração que nós fazemos, as cinco orações, é um diálogo com o Criador. E há pessoas que provavelmente tinham dificuldade de pôr em prática as suas orações, porque estavam ocupadas nos seus trabalhos, ou porque não tinham tempo suficiente para as fazer, e hoje já fazem com mais regularidade, dentro das suas casas. Do outro lado, haverá pessoas que se estão a afastar, provavelmente pode acontecer. Porque uma coisa é ser crente, outra coisa é conhecer a sua crença. Ser crente é fácil, conhecer a sua crença envolve alguma dedicação, algum estudo, conhecer a sua crença é muito, muito importante. Ao conhecer a nossa crença, saboreamos melhor aquilo que praticamos. Temos pessoas que manifestam isso. Agora, ninguém irá manifestar que está a afastar-se da crença, a afastar-se da prática, por razões pessoais, provavelmente. Por isso é que nós, os religiosos, os muçulmanos religiosos, estamos preocupados em transmitir às pessoas não só a parte da espiritualidade, mas também o conhecimento, para não haver aquela quebra que houve fisicamente. Fisicamente as pessoas não vão à mesquita e tentamos que a pessoa não se sinta sozinha, para que haja aquela continuidade. Outras confissões também o fazem, com certeza, para manter essa ligação com os seus fiéis.

Como se transmite esperança em tempos como este?
O crente, seja ele de que religião for, mas estou a falar do islão, o crente muçulmano sempre tem esperança. Mas há momentos em que a pessoa fica mais frágil. E nessa fragilidade é que tentamos dar algum ânimo espiritual para que a pessoa não quebre ou não perca esperança. Não tem sido fácil. Por isso é que tentamos chegar à nossa congregação vendo qual é a plataforma digital que a maioria utiliza e, desta forma, transmitir a mensagem a todos. A humanidade tinha todas as oportunidades de estar com o seu próximo, mas não esteve. Quantos familiares nossos estiveram abandonados? Propositadamente. Os filhos não visitavam os pais e simplesmente colocávamos os nossos pais nos lares, estamos a falar na sociedade em geral, e provavelmente visitávamos uma vez por ano ou uma vez por mês. Hoje, mesmo querendo, não os podem visitar. Quando nós tínhamos as oportunidades todas, não as valorizávamos. Por isso é que eu disse que esta pandemia faz-nos refletir, valorizar aquilo que temos. Há quem diga que mesmo podendo ir aos lugares de culto, não ia. Hoje, mesmo querendo, se calhar não pode. Agora, do outro lado, é importante as pessoas terem noção de que nós fechámos as mesquitas, fechámos as igrejas, fechámos as sinagogas, por razões de saúde. E nos transportes públicos, como é que é? Em alguns supermercados, como é que é? Quer dizer, o vírus só está nos locais de culto? O vírus só está nos locais onde as pessoas praticam a sua crença? Porque é muito difícil gerir isso. A responsabilidade tem de partir de cada um de nós. É muito fácil falar, mas temos de tentar ser assim. O papel dos religiosos neste momento não é voltar a repetir aquilo que a DGS tem falado, aquilo já basta. A nossa missão é mais tranquilizar as pessoas, dar um calmante espiritual.

O número de pedidos de ajuda tem aumentado desde março? E que pedidos de ajuda têm recebido?
Muito mais, muito mais. Especialmente das pessoas que estavam a trabalhar... Antes, nós tínhamos um número certo de pessoas que sabíamos que eram dependentes, com alguma idade, com alguma doença crónica, então sabíamos que tínhamos de subsidiar essas pessoas. Hoje já não. Hoje há jovens que perderam o emprego, com dificuldades em pagar as rendas, água e luz, ou porque recebem o apoio da Segurança Social e o apoio está atrasado. Está a ser difícil. Nós tentamos ajudar as pessoas, é impossível ajudar todas, damos prioridade às pessoas idosas, àquelas pessoas que são doentes, distribuímos alimentos na medida do possível, compramos medicamentos e damos às pessoas, tentamos nunca dar em dinheiro à pessoa. Se tem uma renda, pagamos a renda, por exemplo; se tem uma fatura, pagamos a fatura diretamente. Mas não conseguimos infelizmente atender a tudo. A mesquita fechou, os crentes não vieram, não houve donativos. E temos de tentar dividir o bolo com todas as pessoas.

Como será a relação com os fiéis num mundo pós-covid? As coisas vão voltar a ser o que eram?
Pós-covid ainda, infelizmente, é muito discutível. Eu acho que a relação entre as pessoas poderá melhorar muito mais, isto é, iremos valorizar mais o ser humano, mas a nossa convivência, este distanciamento físico, irá manter-se ainda durante algum tempo, por causa do medo. Mesmo com muita esperança, o medo é algo que, infelizmente, mói, destrói e cria barreiras. E nós não temos a certeza absoluta sobre o efeito das vacinas - esta agora das vacinas é outra coisa que se está a passar no nosso país, infelizmente - para nos sentirmos mais aliviados. Mas tenho esperança. Se Deus quiser, as coisas irão voltar, melhorar, e iremos valorizar ainda mais o que nós temos e partilhamos com aqueles que não têm. Tenho esperança, oro e peço a Deus para que tudo isso possa passar o mais depressa possível para todos.

ana.meireles@vdigital.pt

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