Leituras luso-brasileiras

Inicio este editorial com uma citação de uma crónica que publicou também aqui no DN, há poucas semanas, o diplomata e escritor Luís Castro Mendes: "É admirável que a mais bela e a mais rica das instituições culturais portuguesas no Brasil tenha sido obra das nossas comunidades migrantes, que desde 1837, quinze anos apenas depois da independência, decidiram promover na então capital do Brasil um "gabinete de leitura", centro de empréstimo de livros e ao mesmo tempo lugar de encontro e de debates, a fim de promover a cultura portuguesa neste novo país independente que connosco partilhava e recriava a língua comum".

Hoje à tarde, hora brasileira, o Real Gabinete Português de Leitura, que visitei deslumbrado em 2017, será palco do lançamento no Rio de Janeiro do livro 1821: O Regresso do Rei, de Armando Seixas Ferreira, jornalista da RTP, que nessa obra fala de D. João VI, um monarca que creio ser mais valorizado no Brasil do que em Portugal. O título do livro remete para uma das datas decisivas do reinado (e aqui incluo os longos anos como príncipe-regente) daquele que foi o primeiro monarca na História a cruzar o Atlântico e nos dois sentidos (na realidade, na primeira vez, quem formalmente detinha a coroa era ainda D. Maria I, a rainha "louca").

Não faltam anedotas a menorizar a transferência da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro em finais de 1807/inícios de 1808, como a frase atribuída a D. Maria I que, num súbito acesso de lucidez, terá pedido para não se ir tão à pressa para os barcos no Tejo não fosse parecer que estavam a fugir. Fuga, pois, essa da família real, já que as tropas francesas estavam às portas de Lisboa, mas também retirada estratégica há muito ponderada por sucessivos estadistas portugueses em caso de crise grave na metrópole ou simplesmente por ser o Brasil, de há muito, a mais promissora parcela do Império.

Chegado em 1808 ao Rio de Janeiro, D. João VI só partiu em 1821 de volta a Lisboa, como relata o livro de Armando Seixas Ferreira. Nesse mesmo ano, morreu exilado em Santa Helena Napoleão, que nunca escondeu a frustração de ver os Braganças escaparem-lhe, ao contrário dos Borbóns, com Fernando VII sequestrado e o trono espanhol entregue por uns anos a um irmão do imperador francês. Sabe-se quão diferente foi o impacto na América Espanhola e na América Portuguesa de um rei ser feito refém enquanto o outro aproveitou o novo poder além-mar para invadir a Guiana e dar uma lição simbólica a Napoleão.

Sintetizando, os anos do Rio de Janeiro como capital do Império Português abriram caminho a que a independência brasileira fosse distinta das dos países vizinhos. Basta pensar que foi D. Pedro, filho de D. João VI, o autor do célebre Grito do Ipiranga, do qual no próximo 7 de setembro se celebrarão dois séculos. Em tempos, numa entrevista que fiz ao historiador brasileiro Paulo Knauss, que hoje apresentará o livro 1821: O regresso do Rei, este não hesitou em valorizar os 13 anos centralizadores de D. João VI no Rio de Janeiro, onde, aliás, foi coroado: "A unidade territorial que configura a unidade política do Brasil enquanto Estado nacional emerge do governo de D. João VI".

Passados dois séculos sobre estes acontecimentos decisivos na História tanto de Portugal como do Brasil - e aproveitando o simbolismo de eventos atuais como este hoje no Real Gabinete no Rio de Janeiro ou a recente Bienal do Livro de São Paulo que teve Portugal como convidado de honra - convém realçar o essencial: existe um gigante de língua portuguesa no mundo, que aliás devia ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, e Portugal conseguiu, findos os tempos imperiais e regressado aos seus limites europeus, ver a sua língua falada em vários continentes e por 27 vezes mais pessoas do que aquelas que vivem neste pequeno retângulo. E é esta língua comum, com sotaques diferentes é certo, que também a riqueza do Real Gabinete Português de Leitura personifica, pois há mais de um século foi aberto a todos, um presente extraordinário dos emigrantes portugueses que tanto conseguiram no Brasil ao seu país de adoção, tal como D. João VI, que verdadeiramente amou o Brasil, lá deixou a base do que é a Biblioteca Nacional.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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