"Ronaldo é um pouco infantil e narcisista. É isso que a sua personalidade projeta"

John Carlin, jornalista e autor do livro que inspirou o filme Invictus, de Clint Eastwood, já escreveu ou escreve em jornais como The Independent, The Times, Financial Times, El País, La Vanguardia. Nesta semana esteve em Lisboa, para falar de Nelson Mandela, que conheceu quando foi correspondente na África do Sul. O DN entrevistou-o sobre isso mas perguntou-lhe também o porquê dos seus duros e críticos artigos sobre Cristiano Ronaldo.

Filho de pai escocês e de mãe espanhola de Madrid, John Carlin, hoje com 62 anos, viveu e trabalhou em vários países fruto da sua profissão de jornalista. Além do Reino Unido, esteve na Argentina, entre os 3 e os 10 anos, viveu em Espanha, na Catalunha, durante 15 anos, trabalhou na África do Sul entre 1989 e 1995, depois nos EUA, tendo passado também pela Nicarágua.

Além de dois livros que escreveu sobre o herói da luta contra o apartheid e líder histórico do ANC, Invictus - Conquistando o Inimigo e O Sorriso de Mandela - Um Retrato Íntimo, Carlin tem publicadas obras sobre desportistas como o futebolista David Beckham e o tenista Rafael Nadal. E ainda sobre o julgamento do atleta Oscar Pistorius, que foi preso na África do Sul, pela morte da namorada.

Entrevistado pelo DN no contexto do centenário de Mandela, que se assinalou no dia 18, Carlin respondeu também a perguntas sobre Cristiano Ronaldo, a seleção portuguesa, o Mundial que agora terminou na Rússia e o futebol em geral.

Além de política, John Carlin também escreve muito sobre desporto, nomeadamente futebol. Já escreveu muitos artigos com duras críticas a Cristiano Ronaldo. Porque é que não gosta dele?
Ok... Cristiano Ronaldo é o melhor avançado que eu já vi. E é um marcador fantástico. Mas não estou sozinho e penso que a maioria das pessoas no mundo que não são portuguesas consideram que o seu comportamento é um pouco infantil e narcisista. É isso que a personalidade projeta. Acredito que Cristiano Ronaldo, enquanto pessoa, seja uma excelente pessoa. Conheço muita gente que o conhece e diz que ele é uma pessoa impecável.

A relação que tem com a Argentina [onde viveu vários anos] faz que, de alguma forma, prefira Lionel Messi a Cristiano Ronaldo?
Isso nem tem conversa. É óbvio que Messi é um jogador de futebol superior a Ronaldo.

E o que pensa da controvérsia entre Ronaldo e o Real Madrid e a sua ida para a Juventus?
Cristiano Ronaldo é líder do seu próprio destino. É um jogador fantástico. Se ele foi para a Juventus, respeito isso, porque é que isso haveria de ser um problema? Acho que ele sempre teve uma relação difícil com Florentino Pérez [presidente do Real Madrid]. Ronaldo está com 33 anos. Não tem muito mais tempo pela frente. Então porque não ter uma nova experiência? Se fosse ele, era o que eu faria. Porque seria um problema Ronaldo ir para a Juventus? Espero que corra tudo bem para ele e a sua família. Que dê muitas alegrias aos portugueses e à Juventus.

Olhando para este Mundial de Futebol, que agora terminou na Rússia, o que achou da prestação da seleção de Portugal. Não foi muito Ronaldo, Ronaldo?
A seleção portuguesa era uma boa equipa. Há outros bons jogadores na equipa portuguesa. Portugal ganhou o Europeu há dois anos. Esta equipa era tão boa como a dessa última vez. O que há é uma verdade gigante sobre o futebol, que quase toda a gente nega, que é como o elefante na loja de porcelana: o peso do fator sorte no resultado final. Todos os analistas, especialistas, constroem sempre uma narrativa que é baseada no resultado. A equipa portuguesa poderia, por exemplo, ter facilmente tido mais sorte e chegado à semifinal ou até à final. Não era uma equipa pior do que a Croácia. Nem do que a Inglaterra, que chegou à semifinal, incrível [risos]! São rasgos de sorte que acontecem. Acontecem a toda a hora. O futebol é, de longe, um tipo de desporto que gira muito à volta do fator sorte. De longe. É um desporto no qual depois dos jogos as pessoas ainda passam dias, semanas, a falar disso. Discutem se foi um resultado justo, merecido. Ninguém faz isso depois de o [Rafael] Nadal ter jogado com o [Novak] Djokvic. Simplesmente se constata que o jogo acabou. Porque no ténis há cerca de seis jogadas possíveis para marcar. No futebol há 20 mil formas de marcar. E depois há ainda o árbitro. Para referir só mais um fator...

Acha que a França é um vencedor justo do Mundial? Muita gente estava a torcer pela Croácia...
A França ganhou. Um dos golos foi autogolo. Em que outro desporto existe isto do autogolo. Algumas pessoas disseram que o livre direto foi um erro do árbitro. Isso leva-nos ao que eu disse antes: o árbitro toma uma decisão, essa decisão leva a uma sequência de acontecimentos. Houve ainda um penálti. Metade do mundo acha que foi penálti. Outra metade acha que não foi. Ridículo tinha sido se tivesse sido a Inglaterra a ganhar o Mundial. Isso sim. A equipa inglesa é uma porcaria. A França é uma boa equipa, com bons jogadores. O problema é que eles valem menos do que a soma das suas partes. Mas ganharam o Mundial. Eu sou da opinião de que quem quer ver bom futebol tem de ver é os jogos dos campeonatos nacionais. Isso sim. O Mundial é muito tribal...

Emocional e patriótico?
Sim. Em termos de qualidade de futebol, propriamente dito, não... O que quero dizer é: o Real Madrid é uma equipa muito melhor do que a [seleção da] França, o Barcelona é muito melhor equipa do que a Espanha, o Manchester City é muito melhor do que a Inglaterra, etc. Mas o futebol é bom...

Tem um papel...
Sim. Permite-nos voltar a uma certa infância. É algo que nos dá uma certa licença para dizer todo o tipo de disparates. É uma coisa boa que o futebol permite. Eu próprio não me levo muito a sério, por isso digo aquilo que me apetece sobre Ronaldo, Messi, etc. Quando escrevo sobre política, sobre coisas que podem realmente afetar as pessoas, tenho muito mais cuidado com o que digo.

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