Putin ignora espiões, Navalny e  Ucrânia mas traça "linhas vermelhas"

No seu discurso do estado da nação, num centro de exposições rodeado de segurança, o presidente russo elogiou as conquistas científicas do país na luta contra a covid.

Para Vladimir Putin, o comportamento de alguns países ocidentais em relação aos EUA é comparável ao do chacal Tabaqui a tentar agradar ao tigre Shere Khan, no Livro da Selva de Rudyard Kipling. E no seu discurso do estado da nação deixou o alerta: "Espero que ninguém tenha a ideia de ultrapassar a linha vermelha com a Rússia", antes de acrescentar: "Não queremos queimar as pontes, mas se alguém interpretar as nossas boas intenções como fraqueza, a reação será assimétrica, rápida e dura."

A tensão entre Moscovo e o Ocidente subiu de tom nos últimos dias, com foco sobretudo na Ucrânia, acusações de espionagem e expulsão de diplomatas, e críticas às condições de detenção do opositor Alexei Navalny, detido e em greve de fome desde 31 de março. O discurso de Putin coincidiu aliás com protestos em várias cidades russas em apoio a Navalny, depois de os médicos terem alertado para o facto de o estado de saúde do opositor se ter degradado tanto que a sua vida está em risco. Mas o presidente nunca mencionou o opositor.

A Rússia é já alvo de sanções ocidentais por causa do conflito na Ucrânia, da repressão à oposição e por acusações de ciberataques, espionagem e interferências eleitorais. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, explicou às agências de notícias russas que ao mencionar a "linha vermelha", Putin se referia aos interesses de Moscovo, à interferência na política interna e a qualquer declaração "ofensiva" para o país.

Apesar das palavras duras e dos alertas em tom de ameaça que deixou, Putin não fez durante a intervenção qualquer referência direta aos grandes diferendos que Moscovo mantém atualmente com os EUA e com a União Europeia. O presidente russo não disse, de forma explícita, uma única palavra sobre o destacamento de dezenas de milhares de tropas russas nas fronteiras da Ucrânia, sobre as acusações de espionagem e ingerência eleitoral nos EUA ou sobre o recente escândalo envolvendo alegados agentes da secreta russa na República Checa e a recíproca expulsão de diplomatas.

Com a polícia a fazer um cordão de segurança em torno do centro de exposição Manezh, no coração de Moscovo, Putin dirigiu-se às duas câmaras do parlamento. Num discurso focado na luta contra a covid-19, o único assunto internacional que Putin abordou de maneira explícita foi a "tentativa de golpe de Estado e de assassinato do presidente de Bielorrússia", revelada no fim de semana pelos serviços de segurança dos dois países.

Putin criticou o silêncio ocidental a respeito do caso, um dia antes de uma reunião na capital russa com o presidente bielorrusso Alexander Lukashenko, um governante muito criticado no Ocidente pela repressão contra um movimento de protesto em agosto de 2020.

Conquistas científicas

Para ajudar a resolver as crises económica e de saúde provocadas pela covid, Putin prometeu mais ajudas para as famílias e travar o aumento do preço dos alimentos, a poucos meses das legislativas de setembro. O poder de compra dos russos está em declínio há anos, consequência das sanções internacionais e também da pandemia.

Putin mantém uma grande popularidade, mas o seu partido nem tanto. Uma sondagem de março do instituto Levada dá ao Rússia Unida 21% das intenções de voto.

No âmbito da saúde, Putin elogiou as conquistas científicas do país, onde foram desenvolvidas três vacinas anticovid, que permitirão alcançar, nas palavras do presidente, "a imunidade coletiva no outono".

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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