Os dias da PIDE-DGS depois da revolução

O livro Morte à PIDE!, de António Araújo (cronista do DN), é apresentado nesta sexta-feira às 18:30 na FNAC do Chiado, em Lisboa. A obra, editada pela Tinta da China, é sobre a PIDE-DGS nos dias a seguir ao 25 de Abril. Terá apresentação de Ferreira Fernandes. Aqui fica a pré-publicação do primeiro capítulo.

Tornou-se um lugar-comum descrever o 25 de Abril de 1974 como uma revolução sui generis, sem derramamentos de sangue nem violências. O carácter pacífico dos acontecimentos revolucionários teve mesmo expressão simbólica nas flores postas por soldados e populares nos canos das espingardas que se mantiveram silenciosas durante todo o golpe militar. A imagem da «revolução dos cravos» correu mundo. Dois jornalistas espanhóis diriam que Portugal passou de «um lugar de escravos a uma pátria de cravos».

Tratou-se de uma «branda revolução», observará, dez anos mais tarde, Willy Brandt. O historiador Kenneth Maxwell afirmava ter sido «uma revolução asseada»; mas, cauteloso, não deixou também de avisar que «as flores murcham depressa». Nas páginas do suíço Le Courrier escrevia-se que «o golpe de Estado que ontem se viveu em Portugal não tem igual nos anais da História». A Time, por seu turno, falou num golpe «quase sem derramamento de sangue» e a Newsweek num «cavalheiresco golpe de Estado em Portugal», sublinhando que «mal se disparou um tiro». Pese a diferença da forma, o que diziam estas prestigiadas publicações norte-americanas pouco diferia do que escreveu, por essa altura, uma criança portuguesa de onze anos, Custódio Joaquim da Silva, numa redacção intitulada «Como eu vejo o 25 de Abril»:

O 25 de Abril tem cravos vermelhos nas espingardas.

Não ouvi tiros.

Toda a gente estava contente.

Eu não quero que se acabe o 25 de Abril.

Porém, como todos os lugares-comuns, a ideia de uma revolução sem sangue só parcialmente é verdadeira. Sem falar nas mortes ocorridas durante o chamado «PREC» («Processo Revolucionário em Curso»), o dia 25 de Abril é marcado pelo desaparecimento de cinco pessoas. Um dos mortos tinha dezassete anos de idade. Chamava-se Fernando Carvalho Giesteira, era natural de Montalegre, empregado de mesa da boîte Cova da Onça, e vivia na Pensão Flor, ao Areeiro. Outro era José James Harteley Barneto, de 38 anos, casado, pai de quatro filhos, natural de Vendas Novas, escriturário do Grémio Nacional dos Industriais de Confeitaria, morador na Avenida João Branco Núncio, n.º 7, 1.º andar, na Flamenga. Faleceram ainda João Guilherme Rego Arruda, de 20 anos, natural dos Açores, estudante do segundo ano de Filosofia, morador na Avenida Casal Ribeiro, n.º 21, 5.º andar, e Fernando Luís Barreiros dos Reis, de 23 anos, natural de Lisboa, casado, soldado da 1.ª Companhia Disciplinar, em Penamacor, que se encontrava de férias na capital e que seria o único militar a morrer durante a revolução. Na manhã seguinte, as televisões filmaram o sangue espalhado no chão e as marcas de balas nos automóveis e, dias mais tarde, exibiram imagens dos funerais das vítimas, a que compareceram muitos cidadãos anónimos.

Houve ainda um outro morto, esse menos falado: tratava-se de um elemento da DGS, o servente António Lage, de 32 anos, que não exercia funções policiais. Foi baleado às 21h25 quando saía da sede da corporação e, provavelmente aterrorizado pelos populares, tentou fugir a correr. O servente Lage, que se encontrava a ser revistado pelos militares e procurou escapar num momento de pânico, foi o único «pide» a morrer. Ocupava o escalão mais baixo na estrutura hierárquica da Direcção-Geral de Segurança. Diz-se que a multidão impediu que fosse evacuado do local pelos bombeiros, aos gritos de «Os pides morrem na rua!».

Os jovens manifestantes foram mortos cerca das 20h10 do dia 25 de Abril por balas disparadas a partir da sede da Direcção-Geral de Segurança (DGS), na Rua António Maria Cardoso, n.º 20, cantada em versos de Zeca Afonso: «Na Rua António Maria / da primaz instituição / vive a maior confraria / desta válida nação.» Aos microfones do Rádio Clube Português, Júlio Isidro noticia que se registaram «incidentes» na Rua António Maria Cardoso pelas 20h30, tendo sido feridas algumas pessoas. «Aguarda-se a todo o tempo a intervenção das Forças Armadas» - comentou Isidro, aproveitando para acrescentar que «estes incidentes vêm mais uma vez confirmar a necessidade da população civil cumprir o pedido formulado pelo Movimento das Forças Armadas».

Por ocasião do vigésimo aniversário do 25 de Abril, dois feridos na altura recordaram os incidentes em depoimentos prestados à estação de rádio TSF. O primeiro, Armando Lopes Afonso, tinha dezassete anos e foi ferido com duas balas nas costas. Na manhã de 25 de Abril de 1974, apresentara-se para trabalhar no estabelecimento Eduardo Martins, no Chiado, mas disseram-lhe que nesse dia não se trabalhava. Aproveitou esta inesperada folga revolucionária para acompanhar o movimento nas ruas e, a dado passo, deslocou-se à sede da PIDE/DGS:

Sempre a fazer barulho: «Vamos à PIDE, vamos à PIDE!». Pronto, eu ia com eles. Eles iam à PIDE nem sei fazer o quê. Não sabia o que é que eles iam fazer à PIDE, nem sabia o que era a PIDE. Vamos, vamos embora. Aquilo era a rua cheia de gente. Fomos todos. Bom, entrámos na Rua António Maria Cardoso todos a fazer barulho e a gritar slogans «Abaixo a PIDE» e mais isto e mais aquilo. Eu ia mais ou menos aí a meio da rua e a malta da frente, aqueles que iam na frente, quando chegaram lá, agarravam nos automóveis que a PIDE tinha lá, aqueles automóveis do Estado, pretos, e viravam-nos ao contrário.

Fizeram-lhes muita coisa. Com pedras a mandarem, partiram-lhes os vidros e estivemos nisto para aí uns dez minutos até que de repente eles chegaram à varanda e foi de rajada. Também um irmão meu ia próximo de mim na manifestação. Só que eles dispararam contra o pessoal que estava no meio da manifestação, no meio da rua - mais ou menos para meio, pronto - o que não deviam ter feito, mas quem estava a fazer mal não era os que estavam a meio, era os que estavam lá à frente, precisamente a acicatá-los, a puxá-los, a falar directamente com eles, a chamar-lhes «bandidos», isto e aquilo... e mais nomes que eu não digo, não é? Eu mandei-me para o chão e outras pessoas também entraram em pânico e fugiram cada uma para onde pôde, para o lado oposto da rua, para o pé do Teatro São Luiz, e eu no meio disto tudo fui atingido, fui atingido por duas balas, ao fundo das costas, do lado esquerdo e do lado direito também, aí pela altura dos rins.

Eloquente é ainda o testemunho de Armindo Oliveira, que na altura tinha dezasseis anos e também foi baleado:

Estamos na António Maria Cardoso e começo a ver o pessoal a apanhar pedras da calçada do passeio. A apanhar pedras e tal... e a mandar. Os que iam mais à frente iam a mandar pedras para um edifício que eu soube depois que era o edifício da PIDE. Eu quando entrei naquela coluna até nem percebi porque é que estavam a mandar pedras, para onde, não havia ali ninguém. Então, conforme fui entrando na coluna fui perguntando. «É pá, ali é onde está a PIDE. Eles estão lá. Estás a ver lá em cima na janela eles de G3?». E quando os da frente, a rapaziada que ia à frente, já estava muito perto da porta, começa-se a ouvir disparos. Portanto, a PIDE temeu aquela multidão e começou a disparar contra a multidão. Aquelas rajadas de metralhadora características: «Tá-tá-tá!».

O pessoal com pedras não valia nada. Ainda por cima desprotegidos ali no meio da rua. A rua estava repleta de multidão. Na fuga, as balas vinham atrás de nós e cada um tentou esconder-se onde podia, não é? Alguns fugiram para trás de carros, outros para dentro das escadas que havia assim ali algumas e eu, portanto, saí do meio da estrada e encostei-me ao passeio do lado direito de quem vem a sair para o lado do Chiado. Fui para o passeio. Mas o passeio às duas por três começou a ser pequeno. Entretanto, as pessoas foram-se atropelando e algumas caíram. Quando caíram... pronto, alguns estavam ali estendidos no chão e eu também não conseguia passar e a única maneira de me resguardar dos tiros foi mandar-me para o chão e encolher-me o máximo possível e quando eu estava deitado no chão é que fui atingido. Não vi sangue. Senti uma queimadura na perna, ao nível da bacia, junto à bacia. O que é que eu pensei? Já me atingiram! Pá, qual é a gravidade? Tentei aperceber-me da gravidade do ferimento. Pus a mão e vi que tinha sangue. Sangrava e não consegui ver mais nada porque era na nádega, não é?

Obviamente, a versão apresentada na mesma altura por Óscar Cardoso, antigo elemento da PIDE/DGS, é algo diversa:

O meu director-geral, o senhor major Silva Pais, deu-nos ordens para dispersar a população atirando tiros para o ar. (...) Eu não atirei tiros para ninguém. A PIDE não atirou deliberadamente tiros para ninguém e a ordem do senhor director-geral foi atirar para o ar (...). Nós não deixámos que aquelas pessoas entrassem dentro da PIDE por muitas razões. Uma delas era a seguinte: nós tínhamos dentro do edifício da PIDE/DGS uma estação de serviço, para abastecer as nossas viaturas, e tínhamos milhares de litros de gasolina (...). Os senhores já viram se essa gente entrasse lá dentro e queimasse o edifício eles seriam as primeiras vítimas de uma grande explosão. E, além do mais, os milhares de litros que nós tínhamos nos nossos reservatórios de gasolina eram suficientes para fazer ir pelo menos meio Chiado pelo ar, se não totalmente. E depois o incêndio que não seria! Façam a ideia de que se nós não tivéssemos tido o sangue-frio de afastar aquelas pessoas o que teria acontecido...

Corroborando o depoimento de Silva Pais à Comissão de Extinção da PIDE/DGS, em Maio de 1974, que também falara na ordem de disparar para o ar, Óscar Cardoso só não explica como é que os tiros da DGS, atirados para os céus de Lisboa, acabaram por matar dois civis que estavam na rua; não esconde, no entanto, que talvez «um ou outro agente, mais nervoso ou mais atemorizado com a situação, tenha atirado para baixo». O nervosismo desses agentes custaria a vida a quatro pessoas.

Às centenas, os populares iam acompanhando a queda do último bastião do regime, desrespeitando os repetidos apelos do Movimento das Forças Armadas (MFA) para que permanecessem nas suas casas. Provavelmente, só um cidadão cumpriu as determinações do MFA e recolheu ao lar. Chamava-se Jorge Fernando Branco de Sampaio. Ao invés, Maria Filomena Mónica dirigiu-se de imediato ao local dos acontecimentos, na companhia de Vasco Pulido Valente. No Chiado encontrou rapazes envergando calças à boca de sino, com casacos de grandes abas, que abraçavam meninas de cabelos ao vento; uns e outros gritavam «Viva a Liberdade».

Junto à «Paris em Lisboa», um soldado de arma em riste falava com um miúdo. Já perto de «O Último Figurino» uma idosa, muito idosa, contemplava com espanto e surpresa um tanque estacionado na esquina da Rua Garrett. Ao princípio da tarde, Maria Filomena Mónica foi até à sede da PIDE mas, «ao contrário do que se passaria algumas horas depois, quando os polícias alvejaram a multidão, reinava a paz dos sepulcros». Recolheu então ao Gabinete de Investigações Sociais, onde foi informada pelo colega César Oliveira que a insurreição «era de esquerda». Antes de jantar, insistiu em passar por casa para, em homenagem aos capitães, calçar um par de botas.

Também Juvenal Esteves, famoso professor da Faculdade de Medicina que morava nas imediações do Chiado, foi no dia 25 ver as vistas da revolução. No Largo das Duas Igrejas deparou, estupefacto, com um casal de noivos e seus acompanhantes, à porta da Igreja da Encarnação, que se faziam fotografar a poucos metros de um blindado do Exército, como se nada fosse. Já em casa, ouviria as rajadas de tiros na António Maria Cardoso e, tempos depois, presenciou as actividades venatórias: «A "caça aos pides" durou alguns dias. Um princípio de anoitecer ao regressar a casa deparei com uma imensa multidão no Largo de Camões. Olhava fixamente para o telhado da Igreja do Loreto, profusamente iluminado por projectores. Constava que um pide se refugiara nos telhados. Encontrei um jovem colega a quem interroguei acerca da sua presença no momento. "Venho mostrar às minhas filhas o que será possivelmente um espectáculo único nas suas vidas!" Reobservei o panorama humano. Reinava intensa expectativa. Despedi-me pouco depois. Informaram-me posteriormente que, ao fim de longas horas de observação e pesquisa, a que a multidão assistiu firme, o pide não aparecera!».

O escritor Luiz Pacheco andou por perto dos acontecimentos, vindo de Queluz ainda vestido de pijama, com um sobretudo por cima. No caminho, viu as lojas a fechar enquanto ocorriam tentativas de açambarcamento («uma data de tontos a abastecerem-se para o ano todo... oiço que um tal comprou mais de cem pães»). Rostos temerosos assomavam às cortinas das janelas e, nas Portas de Benfica, «fila de carros a safarem-se, comércio encerrado, mulheres com sacos de plástico cheios, tensão». Numa taberna da Praça do Chile, um freguês pediu oito maços de tabaco enquanto nos quiosques todos procuravam comprar os jornais do dia. A custo, Pacheco chegou ao epicentro das hostilidades, ouviu barulhos de balas: «Avanço para a linha de fogo, que não sei onde é. Metros andados, ouvem-se ao longe tiros e rajadas de metralhadora. Tipos que fogem.

Mas onde será o tiroteio? Como a coisa parou, continuo a andar.» Passou então pelo Bairro Alto, tentou entrar na redacção do República. No Terreiro do Paço teve de se abrigar nas arcadas devido à chuva que caía. Encontrou aí uma amiga, uma engenheira química de nome Maria João, acompanhada de um rapaz. Dirigiram-se então ao Camões, «mas o Chiado está cheio de gente, que quer assaltar a PIDE. Já não sei se ouvi tiros. Vi ainda as (uma?) ambulâncias, depois quase à porta da Brasileira um rapaz ou homem com a mão cheia de sangue (seco?), que tinha agarrado num rapaz ou rapariga. Começam a chegar fuzileiros, há mais correrias, a Maria João e o rapaz perderam-se de mim. Cheira-me que já chega». Pacheco apanhou um táxi para casa e assistiu ao resto dos acontecimentos pela televisão. «Foi bonito e foi rápido. Já posso morrer mais descansadinho», concluiu.

Na manhã de 25, os clientes da Brasileira do Chiado estranharam a ausência de agentes da PIDE, habitualmente presentes no local em vigilância de oposicionistas. Cerca das 13 horas, vários manifestantes fizeram uma primeira e espontânea investida sobre a sede da DGS entoando o hino nacional e aos gritos de «Assa-ssi-nos! Assa-ssi-nos!», mas foram recebidos a tiros, que na altura provocaram cinco feridos. Encontrando-se na clandestinidade, Zita Seabra determina ao sector estudantil da União dos Estudantes Comunistas que se encaminhem o mais rapidamente possível à António Maria Cardoso e a Caxias, para exigir a libertação dos presos e evitar que sobre estes fossem exercidas represálias. Também na clandestinidade, Raimundo Narciso exorta a companheira, por telefone: «Assaltem a PIDE! Assaltem a PIDE! A PIDE é absolutamente essencial». Uma jovem comunista acerca-se do capitão Luz, que se mostrava preocupado com a existência de agentes da PIDE nos telhados, e declarou, decidida: «Somos quase duzentos, estamos armados e dispostos a ajudar-vos... disponha de nós». Luz pediu auxílio no controlo das coberturas dos edifícios, o que de imediato foi feito.

Por seu turno, os civis Pedro Coelho e João Barroso Soares avisaram Salgueiro Maia que era fundamental avançar sobre a António Maria Cardoso. Os relatos radiofónicos feitos na altura permitiam ouvir, entre tiros e a vozearia dos populares, gritos como «Há gajos da PIDE nos telhados!». O repórter que se encontrava no local confessaria, em dado momento, que tudo aparentava «um ar de opereta» e um militar do MFA, estacionado com as suas tropas no Largo da Misericórdia, teria o seguinte desabafo: «a nossa posição é um tanto ou quanto ridícula». Nos microfones da rádio, ouvem-se tiros e alguns civis dizem «a malta foi lá à PIDE», mas os agentes sitiados começaram por lançar um cão feroz sobre os assaltantes e acabaram a disparar sobre os bravos da António Maria Cardoso.

O temor da PIDE/DGS não era de todo injustificado. Sintomaticamente, já depois da rendição de Marcello Caetano, Spínola não assomou à janela do Quartel do Carmo, como reclamava a multidão, pois havia o receio de ser alvejado por um atirador furtivo da Direcção-Geral de Segurança. Não correra, às nove horas da manhã desse dia, o boato de que o general tinha sido preso? E não correria também o boato, de que a imprensa fez eco, que no Chiado fora descoberta uma caixa armadilhada, ali deixada por agentes da DGS? Fora do domínio do boato e da ficção, um facto nem sempre referido: à saída do Quartel do Carmo, já depois da rendição de Caetano, o automóvel em que viajava Spínola foi apedrejado com violência e os estilhaços do vidro traseiro atingiram um dos passageiros, o tenente-coronel Dias de Lima, a crer no testemunho de outro dos passageiros dessa viatura, Carlos Alexandre de Morais, que atribuiu o incidente ao erro de alguns manifestantes, que julgaram que aí eram transportados, sob escolta, elementos da DGS.

Um popular, que se encontrava no Carmo no 25 de Abril, recorda assim o avanço sobre a sede da DGS: «Da parte da tarde, um tipo disse: "Como é, pessoal? Estamos aqui todos parados? Vamos lá abaixo à António Maria Cardoso, aqueles gajos estão lá dentro...", e lá fomos por ali abaixo. Vaiou-se os pides e lançaram-se umas pedras. Em determinada altura, eles começam a disparar, cai gente. Desci as escadinhas de São Francisco, que nem sabia quantos degraus eram». Se o número de degraus das escadinhas de São Francisco é irrelevante, o mesmo se não dirá do gesto de avançar sobre a sede da PIDE, que, a par da aglomeração frente à prisão de Caxias, já foi considerado como «a grande atitude política dos populares nesse dia 25 de Abril». Num livro publicado em 1976 disse-se que a precipitação dos populares sobre a sede da PIDE/DGS acabou por condicionar de forma irreversível as novas autoridades, impedindo-as de procederem a uma transição suave que, de uma forma mais ou menos velada, implicasse a manutenção da antiga polícia política:

A multidão, cercando a polícia política dentro dos seus edifícios e decidida a fazê-la passar um mau bocado, obrigara-a a sair da «neutralidade» na qual ela esperava mudar de patrão, e os fuzileiros navais a tomar partido contra a polícia. O enfraquecimento do novo Estado começava antes da sua fundação. Foram os trabalhadores e os soldados quem deste modo recusou desde o início as condições que Spínola e os generais de direita tinham posto para a sua adesão ao golpe dos capitães: a continuidade do Estado, ou seja da sua polícia (Da mesma forma, só deveriam ser libertados os prisioneiros políticos estalinistas e socialistas). Finalmente, os torcionários da PIDE tiveram que ser salvos do ódio das massas, pela prisão.

A interpretação segundo a qual foi o «povo» a impedir o sucesso de uma conspiração de Spínola e dos «generais de direita» tendente a proteger a DGS pode ter fundamento, mas importa ter presente que os populares só tiveram tempo - e espaço - para avançar porque o edifício-sede da polícia política nunca foi um objectivo primordial na estratégia do MFA. Os «capitães de Abril» entenderam que não era nuclear, nem prudente, a tomada da António Maria Cardoso, sem que Spínola ou Costa Gomes - ou os «generais de direita» - tenham tido a mínima interferência nessa opção. Otelo Saraiva de Carvalho, aliás, reconhecerá abertamente, poucos dias depois do 25 de Abril, que fora mais avisado não atacar de imediato a sede da DGS:

Eu parti do princípio de que, se tivesse sido um objectivo de atacar imediatamente, os elementos da D.G.S. teriam respondido. Tirei esta lição do caso das Caldas, pois nessa altura os elementos que estavam na primeira linha de barragem contra a coluna que vinha das Caldas eram da D.G.S. Tratava-se de rapazotes à paisana, armados de pistola e metralhadora, e que seriam os primeiros a disparar contra a coluna, quando ela aparecesse. Portanto isso deu a sensação de que, de todas as forças que se nos podiam opor, a D.G.S. talvez fosse a mais activa. E eu pensei que, se houvesse essa reacção por parte da D.G.S. - como realmente veio a verificar-se em relação à população -, esses elementos armados disparassem mesmo e houvesse ali troca de tiros e sangue.

Ora, a minha intenção principal era fazer uma revolução sem sangue. Pensei então que, deixando correr a situação, talvez ela se inclinasse decisivamente a nosso favor, e a D.G.S. acabasse por cair por si, até se entregar nas nossas mãos. Claro, havia o perigo, como de facto existiu a princípio, de elementos da D.G.S. fugirem, desaparecerem da circulação, o que impossibilitou a captura de todos. Mas, praticamente, os que estavam cá apresentaram-se todos, e só estão fora nove elementos, muitos dos quais, no 25 de Abril, se encontravam no estrangeiro, como é o caso de Barbieri Cardoso, que estava em Paris. E (...) depois eram os próprios elementos da D.G.S. que nos pediam a nós para ir lá buscá-los, com receio de que a população os linchasse.

Noutros depoimentos, Otelo Saraiva de Carvalho afirmou que a PIDE/DGS não era um alvo prioritário devido, em larga medida, ao facto de o MFA possuir poucas informações sobre ela. Num colóquio realizado por ocasião do 30.º aniversário do 25 de Abril confessou desconhecer sequer quais os meios de que a DGS dispunha: «eu não sabia o que era a Legião, não sabia o que era a PIDE, a PSP ou a Guarda Nacional Republicana... O que valiam em termos de efectivos, de meios, de capacidade de intervenção, as forças que se oporiam às forças do Movimento». Os escassos elementos que Otelo possuía foram-lhe facultados pelo major Rosa Garoupa. Através de Silva Graça, recebeu ainda um tosco croquis do interior do Forte de Caxias desenhado por Jorge Sampaio, que lhe o fizera chegar «cheio de pânico e recomendações», na fase de preparação do golpe que, muitos anos volvidos, será cantada em poema: «Em contagem descrescente os dias seguem, / A cada um funções se vão atribuindo; / Mapas, rascunhos em papéis se desenham, / Para que tudo resulte e os fins se cumprindo.»

Além disso, a eliminação das missões às sedes da Legião Portuguesa, na Penha de França, e da PIDE/DGS, no Chiado, foi ditada, como relata Otelo, por imposição de Jaime Neves, que as considerava perigosas e só se dispunha a participar no golpe se tais acções não fossem incluídas na lista de prioridades. A explicação dada por Otelo Saraiva de Carvalho no seu livro Alvorada em Abril é, pois, substancialmente diferente da que apresentou logo a seguir ao 25 de Abril. Pura e simplesmente, o MFA não tinha os meios necessários para, além de derrubar o Governo, atacar a António Maria Cardoso: «não dispunha de forças capazes de se fraccionarem para o cumprimento da missão de Caxias, pelo que assumi o risco de não lançar o ataque quer ao Forte quer à sede da DGS na Rua António Maria Cardoso (...), pensando que, com a prisão dos elementos responsáveis do Governo e do Presidente da República, à polícia política não restaria outro recurso senão a rendição total às forças do Movimento, não correndo os riscos desnecessários de uma eliminação física dos presos políticos. Ai deles se tal acontecesse!». Este erro de cálculo do estratega do 25 de Abril custaria a vida a quatro pessoas.

Também Salgueiro Maia, em entrevista à historiadora Maria Manuela Cruzeiro, gravada em Santarém em 1991, confessaria que a falta de operacionais foi a causa determinante do protelamento do ataque à sede da DGS: «Os PIDEs que estavam na António Maria Cardoso foram presos mais tarde, porque nós na noite anterior tínhamos pouca força e havia coisas mais importantes para fazer, só no dia 26 de manhã é que a Marinha vai ocupar (...) a António Maria Cardoso e é aí que eles são presos, porque até lá havia forças nas ruas mas não eram suficientes porque eles eram 200 e tal, mantendo apenas as forças indispensáveis para os manter quietinhos mas não tínhamos força para entrar lá dentro. Essa força só acontece com as forças do Regimento de Cavalaria de Santa Margarida e os marinheiros que vão ocupar a António Maria Cardoso». Salgueiro Maia - que nunca na vida tinha ido sequer ao Largo do Carmo nem àquela zona... - irá fazer uma manobra curiosíssima com os inspectores da PIDE/DGS que pretendiam contactar Spínola:

Então, porque a rádio já ia dar a notícia que o poder revolucionário ia reunir na Cova da Moura, começam a aparecer uns senhores com cartão a dizer que queriam falar com o General Spínola. Era a ele que se dirigiam, até por saberem que era ele o presidente da Junta, e os cartões diziam «fulano tal, inspector superior da PIDE», e quando me aparece um alferes com isto eu digo-lhe que se vai resolver o problema e disse-lhe «estás a ver aquela casa ali (que funcionava como casa da guarda), as excelências vão ali todas esperar a Sua Excelência, por isso deixa o caso comigo», assim conforme eles se iam apresentando dizia-se-lhes para aguardar por Sua Excelência, de maneira que quando se chegou ao fim da tarde, e eu não tinha ali uma unidade muito grande, fiz a proposta para a Pontinha a dizer para me arranjarem uns atiradores que era para eu sair dali. De maneira que quando chegou a ordem eu disse-lhes «o Sr. General não os pode receber agora, fazem o favor de vir aqui comigo nesta viatura e a gente vai levá-los ao Sr. General», em que eles só tiveram a noção do que lhes estava a acontecer quando mando abrir as portas da viatura e vêem que estão na António Maria Cardoso, mandando-os dirigirem-se para junto dos outros. Há uma fotografia do Gajeiro que retrata este acto, que foi levar os inspectores superiores todos a visitar a António Maria Cardoso.

Mas se Salgueiro Maia confessa não ter homens para ocupar a sede da DGS, outras forças existiam com capacidade para o fazer. Muitos anos depois do 25 de Abril, numa entrevista ao jornalista Luís Osório, Álvaro Cunhal veio enaltecer o papel que a pressão popular - porventura enquadrada pelo próprio PCP, facto que não reconhece, mas também não desmente - exerceu sobre os destinos da polícia política. Diz Cunhal que «logo nos primeiros dias da revolução, Spínola queria manter a PIDE que só acabou porque o povo rodeou-lhes as sedes e acabou com ela».

O jornalista observa «mas, dr. Cunhal, a tomada da sede da DGS foi uma coisa muitíssimo bem organizada», ao que Cunhal replica: «Foram movimentos com um grau de organização por vezes bastante elementar. Também se cercaram as prisões e sabe porquê? Porque Spínola e a sua Junta de Salvação Nacional queriam filtrar os presos, escolher os que ficavam e os que saíam. Ele dizia "saiam os que não têm processo, ficam os que têm", com a óbvia intenção de manter os comunistas presos. A libertação de muitos presos não foi concedida mas sim conquistada pela acção revolucionária das massas e de parte dos militares. No Governo os comunistas não tinham poder». Estas palavras indiciam que aquilo que Cunhal qualifica como «acção revolucionária das massas» - e onde se destacou o assalto às sedes da DGS e a libertação dos presos - pode ter sido apoiada de princípio pelo Partido Comunista, apesar de ser duvidoso que o PCP tivesse conhecimento antecipado da eclosão do 25 de Abril. Por explicar fica também o facto singelo, mas decisivo, de a primeira investida dos populares sobre o n.º 20 da Rua António Maria Cardoso ter começado muito antes de Spínola ter entrado em cena e de manifestar a intenção de manter a DGS em funções no Ultramar.

Já comparado à tomada popular da Bastilha em 14 de Julho de 1789, o cerco à sede da DGS foi o primeiro acto de «civilização» ou «apropriação partidária» de um movimento até aí exclusivamente militar, que mesmo a imprensa estrangeira dizia não ser «claramente uma revolução do povo», nas palavras do The Daily Telegraph, ou que nada tinha a ver com um «movimento popular», segundo o Journal de Genève. A ida dos populares à Rua António Maria Cardoso, feita à revelia do «plano de operações» do MFA, constituiu o primeiro episódio em que os militares perderam o controlo dos acontecimentos - uma perda de controlo que se prolonga de imediato nas acções espontâneas de «caça aos pides» nas ruas de Lisboa e que se repetirá por diversas vezes ao longo do processo revolucionário.

Enquanto os manifestantes se dirigiam à Rua António Maria Cardoso, um chefe de brigada da DGS que estava no Quartel do Carmo ligou para a sede da polícia política um pouco antes das 18 horas, e avisou: «Acabou-se, já não há nada a fazer. O nosso Presidente vai entregar-se ao general Spínola, que até já vem a caminho». Tendo recebido essa chamada telefónica, o inspector Pereira de Carvalho ordena que se inicie a destruição de alguns documentos mais sensíveis, nomeadamente o ficheiro de informadores, enquanto os funcionários aproveitam o fogo aceso para queimar cartas íntimas de amantes e admiradoras, ou fotografias comprometedoras. Um agente mais antigo lembra-se de ir buscar ao cofre um plano de emergência que previa a destruição pelo fogo de todo o edifício da corporação, hipótese que é descartada mas, ainda assim, objecto de discussão. Vencendo a letargia em que estava mergulhado desde aquela manhã fatídica, Silva Pais chama ao seu gabinete meia-dúzia de colaboradores, a quem expõe a sua conveniente visão das coisas: «Bom, eu acho que se o governo acabou, acabou também a nossa obediência ao Governo pelo que devemos pôr-nos às ordens do novo poder». Em face disso, Silva Pais terá contactado Spínola, que lhe disse para fecharem as portas e aguardarem as suas instruções pessoais, o que fez renascer uma réstia de esperança entre os homens da polícia política. Tal esperança, porém, rapidamente se esfumou com a chegada à Rua António Maria Cardoso, ao final da tarde de dia 25, de uma nova investida de centenas de populares, com gritos ameaçadores. Logo que começaram a arremessar pedras sobre o edifício, Silva Pais deu ordem para disparar.

A curiosidade e a exaltação dos populares, a maioria dos quais jovens mobilizados numa manifestação espontânea promovida pelo MRPP, acabaram por ser fatais para alguns. «A PIDE em cuecas. A PIDE ainda a matar. E a morrer na rua», lê-se na obra ficcional Bute daí, Zé!, de Filomena Marona Beja, evocação de um episódio também reconstituído, com algumas liberdades criativas, no romance Fogo que arde sem se ver, de Rui Noronha e Sousa, e no filme Capitães de Abril, de Maria de Medeiros. Na síntese eloquente de um jornalista espanhol, «a PIDE morreu matando». «A DGS estrebuchou até rebentar», dizia, em título, a revista Flama, acrescentando que os agentes da PIDE, «mais do que defender um regime, defenderam a pele, conscientes - por uma vez - da repulsa que provocavam, desde sempre, na população que violentaram».

«Se o sangue correu», afirmou O Século, «isso deveu-se apenas ao desespero extremo dos elementos da DGS, os últimos a manterem-se em posição de combate, já não em defesa do regime, mas para defesa das próprias vidas, que a população, conhecedora na sua própria carne, de longos vexames sofridos, não podia mais consentir». No mesmo registo, o Diário de Lisboa assinalava que «o assassínio por parte da DGS continuaria até ao último momento da vida da instituição». O jornal República escreveria, por seu turno, que «apenas a PIDE-DGS foi o problema», dizendo que «já de noite, agentes da sinistra instituição todo-poderosa e fiel vigilante da mais brutal e selvática das repressões sobre o povo português dispararam sobre manifestantes das janelas da sua sede, na Rua António Maria Cardoso. Aliás, milhares de populares reuniram-se nas imediações daquela rua, sendo bem patente o ódio acumulado contra aquela polícia política, disparando rajadas de metralhadora sobre a população, e depois saindo num "raid" para a rua, semearam cinco mortos e numerosos feridos nas imediações do Largo de Camões».

A indicação das idades dos feridos - entre os quais se incluíram um jornalista e um carteirista - permite inferir que a esmagadora maioria dos manifestantes eram jovens ou mesmo muito jovens, como Maria dos Anjos Martins, 21 anos; Rui Morais, 19 anos; Armando Augusto, 17 anos; Maria da Conceição Neto, 20 anos; António Maria da Cruz, 18 anos; Joaquim Cristo, 19 anos; Maria Manuela Flores, 23 anos; António Ribeiro, 20 anos; António Santos Lima, 17 anos; José Luís Gutierres, 19 anos; Jorge Salgueiro Costa 24 anos; Fernando Martins, 16 anos; Armindo de Oliveira, 16 anos; Camélia Pimenta, 23 anos; José Luís Fernandes, 19 anos; Rogério Paulo Osório, 18 anos; Luís de Oliveira, 20 anos; Manuel Pereira Alves, 24 anos; José Dinis Pereira, 26 anos; ou Agostinho Soares, 18 anos.

Equivocando-se no número de vítimas, mas bastante eloquente, Almeida Santos observaria, décadas mais tarde: «Três sitiados (sic) perderam a vida. Balas vindas de dentro os vitimaram. A PIDE fez questão de matar até ao fim. Pois nem assim o ressentimento acumulado degenerou em vingança e chacina. O 25 de Abril foi uma revolução pela paz. Talvez por isso também uma revolução em paz». Presente no local, ainda que se enganando quanto à data (pois fala na tarde de 26 de Abril), José Jorge Letria lamenta, à distância, que os fuzileiros não tenham retaliado aos disparos da DGS, o que, em seu entender, poderia ter evitado tantos mortos.

Contudo, não só isso parece ser muito improvável como sempre coloca a questão de saber se de uma intensa troca de tiros naquele lugar não teriam resultado, ao invés, muito mais vítimas. Como, explicava aos jornalistas um oficial da Marinha no dia 25 de Abril, atacar frontalmente a DGS seria «bastante aborrecido» (sic), tanto mais que nas traseiras da sua sede existia um hospital. Isto para não falar de outras dificuldades operacionais: a crer numa notícia de O Primeiro de Janeiro, o acesso automóvel à Rua António Maria Cardoso encontrava-se bloqueado, pasme-se, por dois carros eléctricos que ali estacionaram com os dizeres «Reservado».

Às 20h45, a reportagem do Rádio Clube Português:

- Locutor - são neste momento vinte horas e quarenta e cinco minutos e um carro de combate penetra na Rua António Maria Cardoso acompanhado de um jipe do Exército. É quase impossível conter a multidão, querem avançar, querem invadir a António Maria Cardoso a qualquer custo, de qualquer maneira.

- Vozes - morte à PIDE! Morte à PIDE!

- Locutor - o oficial de polícia vem fazer uma proclamação:

- Oficial de polícia - atenção, eu quero avisar: o general António de Spínola encarregou a Polícia de Segurança Pública de manter a ordem na cidade, com moderação e sem repressão, atenção, atenção!

- Locutor - começa o tiroteio, começa o tiroteio na Rua António Maria Cardoso [sons de tiros e gritos]. Reportagem do Rádio Clube Português, começa o tiroteio. São vinte e uma horas e vinte minutos [gritos]. Não há dúvida, vive-se um autêntico clima de guerra aqui no local onde nos encontramos. Começaram a disparar. Desculpe, boa noite, sou do Rádio Clube Português, o que é que aconteceu, assistiu? [gritos e choros femininos]

- Voz masculina - foi a PIDE que matou um soldado, acabou agora de matar um soldado!

- Oficial de polícia - saia daqui, saia daqui!

- Vozes - uma canhoada, uma canhoada lá para dentro!

- Locutor - são vinte e uma hora e vinte cinco minutos, a reportagem do Rádio Clube Português, assiste-se neste momento à prisão de mais dois agentes da DGS, vêm acompanhados por uma força militar, acabam de ser revistados e encaminham-se agora para o local onde nós nos encontramos.

- Voz masculina - isto é limpar-lhes o sebo, homem!

- Voz masculina - já usas gravata encarnada e tudo, hã, malandro? Piratão! Era a cabeça para o talho, a cabeça para o talho!

- Voz masculina - malandro!

- Locutor - a caminho do Governo Civil, a tropa manda-os encostar à parede, revista-os cuidadosamente, mãos encostadas na parede, pernas afastadas...

- Voz masculina - pides, traidores, gatunos! Gatunão, malandros!

- Voz masculina - o outro trazia pistola...

- Voz masculina - malandros, pá!

Algumas gravações divulgadas recentemente permitem uma reconstituição muito próxima dos factos, em pleno calor do momento, pelas 21h00. Primeiro, o que tudo sugere ser uma comunicação militar, captada ao acaso; depois, entrevistas a populares - uma voz masculina e, de seguida, o que aparenta ser uma voz feminina:

- Estou a vinte metros do Camões, há muito tiro que não consigo descobrir a origem, vou progredir lentamente mas não sei de onde vem o tiro. Parece que há telhados ocupados, ainda que não esteja a ver nenhum, mas disseram-me isso. Portanto, eu vou tentar progredir mais. Já consegui pôr calma nesta gente que começava a querer dar tiros a torto e a direito. Diga se entendido, escuto.

- Entendido.

- Entrevistador - foi ali de baixo, da PIDE...

- Voz masculina - sim, a malta foi lá. Primeiro, os gajos soltaram um cão. Depois a malta apanhou uns paus que havia no chão, umas tábuas das obras e virou-se ao cão, à cacetada. Depois os gajos começaram a disparar lá de cima daquilo e feriram uma série de malta e houve malta que os gajos apanharam e levaram lá para dentro. E há um moço que foi aí para cima, está todo cheio de sangue.

- Entrevistador - a PIDE terá apanhado pessoas? Na António Maria Cardoso?

- Voz masculina - apanhou, apanhou!

- Entrevistador - então e porque é que agora as forças estão viradas para aquele lado?

- Voz masculina - então foi um tiroteio enorme, vocês não ouviram aqui?

[Outras vozes, imperceptíveis]

- Voz masculina - é a terceira rua a contar com esta aqui...

- Entrevistador - mas não há forças militares lá à frente?

- Voz masculina - não, lá não há. E a malta ia por ali abaixo, até levava a bandeira nacional e os filhos da puta responderam a tiro e foderam o rapaz todo.

- Entrevistador ­- o que é que estavam a fazer em frente à PIDE, estavam a manifestar-se?

- Voz feminina ­- estávamos a manifestar só, e eles amandaram tiros lá de cima e depois amandaram tiros para dentro de nós, em frente mesmo de nós e já foram três moços para o hospital e tudo, se há direito, também... nós não fizemos mal nenhum...

- Entrevistador - eram só civis?

- Voz feminina - eram só civis, mesmo.

- Entrevistador - e largaram-vos um cão?

- Voz feminina - mandaram um cão, um cão mesmo.

- Entrevistador - e a seguir?

- Voz feminina - começaram a disparar tiros. A mim até me acertaram, ainda tenho aqui as calças rotas, ó!

- Entrevistador - exactamente, podemos verificar.

As equipas de socorro da Cruz Vermelha e dos bombeiros chegaram prontamente ao local, mas foram incapazes de salvar Fernando Giesteira e António Lage, que chegaram já mortos ao Hospital de São José. Disse-se ainda na altura que dos incidentes resultaram quarenta e cinco feridos graves, dois dos quais jornalistas. O posto de comando do MFA, num comunicado difundido pelas 21h30, referiu-se aos «incidentes na Rua António Maria Cardoso» e relembrou, uma vez mais, a necessidade de a população civil recolher a casa e manter a calma. «Só a muito custo as tropas conseguem conter os populares, que recordam angustiadamente os últimos quarenta anos de vida política repressiva do País», resumiu O Século, que afirmou que as hostilidades começaram por volta das 21h00.

Contudo, no «Relatório da Operação Fim de Regime» Salgueiro Maia aponta que foi logo pelas 15h00 do dia 25 - dez minutos antes de exigir a rendição dos sitiados no Quartel do Carmo - que se iniciaram os disparos a partir da sede da DGS, tendo na altura feito um morto e dois feridos, que foram transportados nas ambulâncias afectas ao MFA. Encontrando-se no Largo do Carmo, Salgueiro Maia, aliás, pouco se apercebeu das rajadas de metralhadora disparadas na Rua António Maria Cardoso, como recordaria numa histórica entrevista concedida à revista brasileira Fatos & Fotos.

Na madrugada do dia 26, a sede da DGS continuava cercada por elementos afectos ao Movimento das Forças Armadas (os regimentos de Cavalaria, n.ºs. 3 e 7, Infantaria, n.º 1, e Caçadores, n.º 5). Pelas 2h45 chegaram ainda à Rua António Maria Cardoso forças dos fuzileiros e da polícia militar. A força de fuzileiros, onde se destacavam os tenentes Melo Saião e Caldas e o aspirante Simão, era comandada pelo capitão-tenente Daniel Rodrigues e pelo comandante Conceição Silva. Três horas mais tarde, os fuzileiros detêm dois indivíduos no cruzamento da Rua Vítor Cordon com a Calçada do Ferragial; logo identificados como elementos da DGS, vêem ser apreendidas as pistolas que traziam e são conduzidos ao Governo Civil, onde já se encontravam outros agentes que, ao longo da noite, tinham sido capturados.

No Governo Civil, o comandante Costa Correia conferencia com os agentes da DGS detidos à guarda da Polícia de Segurança Pública; com ele encontra-se Campos Andrada, nomeado na véspera por João Almeida Bruno para controlar a situação na António Maria Cardoso. Campos Andrada conseguira já reunir e trazer consigo três Land Rover da polícia militar com numerosos soldados. Entretanto, o director da estação da CIA em Lisboa, John Morgan, mantém-se em contacto permanente com a sede da polícia política. Às seis da manhã de dia 26, uma força de viaturas militares estaciona no Largo das Duas Igrejas. Tratava-se de dois carros do Regimento de Cavalaria n.º 4, uma auto-metralhadora M-47 e um Panhard. Aglomerada no Largo Camões, a multidão aplaude vibrantemente. Atónitos, jornalistas estrangeiros que aí se encontravam vêem um soldado pedir a um civil que lhe segure a arma para poder comer o que os populares lhe oferecem, episódio que, pelo seu pitoresco, merecerá referência na obra ficcional Café 25 de Abril, de Álvaro Guerra. Os carros de assalto tomam posição nos dois extremos da Rua António Maria Cardoso, com os canhões apontados para o edifício da DGS. Detido no Governo Civil, um agente da polícia política comunica aos militares revoltosos que no interior daquele edifício se encontram barricados cerca de duzentos homens. Viviam-se momentos de impasse. Um oficial de serviço confidenciou ao Expresso:

Ainda não foi cortado o fornecimento de água e electricidade às suas instalações [da DGS], porque não queremos empregar métodos que se assemelhem aos deles. Esperamos que a demonstração de força que estamos a fazer com os blindados, fuzileiros e infantaria os dissuada de qualquer acção semelhante às de ontem. Evitaremos a todo o custo abrir fogo, pois o ataque possível seria com «bazookas» e granadas, mesmo assim haveria o risco de atingir alguma casa das imediações. Por outro lado, não queremos arriscar a vida destes homens desnecessariamente. O movimento controlou tudo, mais tarde ou mais cedo render-se-ão.

Por seu turno, o major Carlos José de Andrade dizia que os elementos da PIDE/DGS iriam ser «completamente responsabilizados pelos distúrbios que ontem provocaram. Quanto ao resto, não me compete responder, mas far-se-á certamente justiça». Ao terminar a ocupação da sede da PIDE/DGS também Campos Andrada observaria: «Estes homens, que estão aqui dentro, serão julgados pelos crimes que cometeram. Para isso, existe o tribunal». Foi precisamente nesse mesmo sentido que Salgueiro Maia se dirigiu, ainda no dia 25, pelas 18h05, aos estudantes que pretendiam linchar um suposto «pide» que tinham detectado por entre a multidão aglomerada no Largo do Carmo.

O «pide» fora reconhecido por estudantes da Faculdade de Direito como um dos «gorilas» que andavam pelos corredores daquela instituição universitária. Salgueiro Maia, falando já de uma janela do Quartel do Carmo, acalma os ânimos com recurso a um megafone: «É da mais elementar justiça que não se atente contra a liberdade de ninguém sem que primeiro seja julgado». Havia, pois, que entregar a justiça à justiça. Mas seria possível alguém perceber isso na tarde de 25 de Abril de 1974? Seria possível serenar os ânimos no Largo do Carmo quando, entre a multidão, uma voz gritava «Há gajos da PIDE nos telhados!»? Seria possível não avançar em tropel sobre a António Maria Cardoso quando Francisco de Sousa Tavares, do cimo de uma guarita, dizia para que o povo se dirigisse ao Terreiro do Paço, evacuando o Largo do Carmo, mas, ao mesmo tempo, advertia que «tudo correu bem com apenas assassinatos miseráveis cometidos pela PIDE»?

Cerca das 18 horas de dia 25, enquanto Salgueiro Maia acalma os jovens que tentavam linchar um «pide», José Manuel Sequeira, um cabo do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz, vê passar junto dele, ao Chiado, um táxi cheio de pessoas feridas, de onde salta um homem a pedir ajuda - a PIDE estava a matar pessoas na António Maria Cardoso. Com mais três camaradas, Sequeira passa a noite nas imediações da sede da DGS, onde depara com várias dezenas de feridos e resiste aos gritos que exigiam que disparasse sobre o edifício. Vê também várias pessoas a entrar e a sair do n.º 20, umas que se rendiam, outras que tentavam fugir. E fumo, muito fumo, dos papéis que lá dentro queimavam.

Entrevistado meses depois na cela n.º 40 de Caxias, que partilhava com um soldado-recruta preso após o 28 de Setembro (e com embalagens de corn-flakes...), Fernando Silva Pais dirá que a DGS não se rendeu às primeiras horas pois «a lealdade ao Governo não era - não deve ser - uma palavra vã. Deve ser um sentimento sério». Esclareceu ainda que a primeira força de fuzileiros não exibiu «qualquer ordem ou mandato» mas, após ter falado com Spínola, por volta das 20 horas de dia 25, se colocou prontamente ao serviço do novo poder: «não neguei render-me. Pelo contrário, afirmei que desde que o Governo já tinha caído eu não tinha mais que fazer do que estar às ordens do novo Governo (Junta de Salvação Nacional)». Acrescentou que «a DGS não estava disposta a lutar até ao fim nem esperava uma reversão dos acontecimentos», e reconheceu que era impossível a polícia política ter continuado em funções: «a convulsão seria grande de mais para se manter. Ultrapassou até as maiores previsões». Tinha razão.

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