Confinamento irá poupar mais de três mil mortes até março

A 20 de janeiro, as estimativas apontavam que Portugal atingisse as 20 mil mortes a 16 de março (e 27 mil nos piores cenários). Um mês depois, estima-se que não ultrapasse as 17 mil. O confinamento resultou, mas ainda é cedo para pensar em desconfinar.

Até 20 de dezembro morreram 6134 portugueses por covid-19. Um mês depois este número passou para 9465 e, agora, está em 15 821. Em dois meses, Portugal perdeu quase dez mil pessoas devido à pandemia (9884). As estimativas feitas pela equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, liderada pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes, e divulgadas pelo DN a meio de janeiro, apontavam para que no dia 16 de março, um ano após a primeira morte por covid, os óbitos tivessem atingido os 20 mil; o pior cenário indicava até a possibilidade de se chegar às 27 mil vítimas. Mas a verdade é que o confinamento decretado pelo governo a 18 de janeiro e ainda em vigor - com o encerramento das escolas e o teletrabalho, entre outras medidas - reduziu significativamente os números e a evolução da pandemia no país.

O professor Carlos Antunes, que integra a equipa da Faculdade de Ciências que desde o início da pandemia faz modelação da evolução da doença, argumenta ao DN que "os dados são extraordinários". "Não discuto se a infeção acontece dentro ou fora da escola, baseio-me nos números da minha equipa. E o que a evidência nos mostra é que, a 15 de janeiro, as faixas etárias dos 6 aos 12 e dos 13 aos 17 anos eram as que registavam maior subida em casos de infeção. Hoje, são as que registam maior descida", nota, sublinhando: "Não foram só dois milhões de estudantes que foram para casa, foram também os pais e muitos outros profissionais." E, ao fim de um mês de confinamento, "todas as estimativas mudaram".

Os dados indicam agora que, a 16 de março, em vez de 20 mil mortes o país não ultrapassará as 17 mil vítimas. Menos três mil do que as indicadas nas projeções de janeiro feitas com base na incidência da doença naquela altura. Aliás, ontem Portugal registou 67 óbitos (menos 38 do que na véspera), um número diário que não era tão baixo desde o início de dezembro e que as últimas previsões, feitas para daqui a uma e duas semanas, indicavam que só fosse alcançado mais para o final do mês de fevereiro ou início de março.

O país começa a notar a consequência da desaceleração no número de casos e bate até as últimas estimativas, que apontavam para que só nas próximas semanas se regressasse a números da época pré-Natal - em que, entre 18 e 20 de dezembro, os óbitos oscilaram entre os 71 e os 86 e o número de casos de infeção em pouco mais de três mil.

Mas há um mês, a 20 de janeiro, o país registava o terceiro pior dia de toda a pandemia, com 14 647 casos de covid e a curva de letalidade a subir a pique. Nesse dia, foram registados 219 óbitos, no dia seguinte 221 e a partir daí não mais parou de crescer até final de janeiro. Aliás, nos dez últimos dias desse mês morreram 2714 portugueses e no último dia do mês o total de mortos estava nos 14 482 - hoje está nos 15 821.

"Ontem foram registados mais 1940 casos de infeção: comparando com os de há um mês, precisamente, foram menos 12 707.

"A estimativa mais grave que tínhamos em relação aos óbitos era de 20 a 27 mil para meados de março, quando passasse um ano sobre a primeira morte, mas eram variações com base na incidência de casos da altura, que inverteram completamente nos últimas semanas de janeiro. Desde essa altura que já se nota uma desaceleração no número de casos e agora já não estamos a descer ao ritmo que estávamos na semana passada".

Ou seja, "estamos atualmente a reduzir a uma taxa média de menos 5% ao dia, o que significa que estamos a conseguir reduzir os casos para metade em 14 dias", explica ao DN. Ontem foram registados mais 1940 casos de infeção: comparando com os de há um mês, precisamente, foram menos 12 707. Por isso, Carlos Antunes considera que os resultados alcançados com este confinamento, mesmo que só a 75%, foram "extraordinários".

Se no mês de janeiro a realidade ultrapassava, dia a dia, as estimativas para pior, em fevereiro os números já indicam que as próximas projeções "estão muito aquém do que se tinha previsto para meados de março. "O número de casos diminuiu de uma forma tão rápida e tão acentuadamente que todas as projeções mudaram", confirma Carlos Antunes. "O que é importante é que os casos diminuíram e os óbitos também, levando a uma redução da projeção da letalidade a prazo. Vamos começar a ficar abaixo dos cem óbitos, o que é uma surpresa quase absoluta. Se continuássemos com uma incidência elevada de casos ou com uma redução muito lenta, como a que aconteceu em novembro, era expectável que o número de óbitos fosse superior ao que estamos a verificar."

Redução para metade dos casos em dez dias

Carlos Antunes sublinha que Portugal foi dos poucos países que conseguiram reduzir os casos de infeção para metade em dez dias, referindo que houve mesmo um período em que essa redução aconteceu em sete dias. Uma situação que só foi alcançada por países como a Irlanda e a Áustria. Neste momento, estamos na redução para metade aos 14 dias, já que desde a semana passada, altura em que se baixou da barreira dos dois mil casos diários, a redução é mais lenta. O professor da Faculdade de Ciências confirma também que o país conseguiu "controlar a curva da letalidade por covid-19", o que é muito positivo também.

"Dizer que não há contágio nas escolas é completamente absurdo quando se compara os números de casos que estavam a verificar-se diariamente nestas faixas etárias e os que se verificam agora".

Se tem que ver com o encerramento das escolas ou não, continua a afirmar que apenas se "baseia na evidência dos dados" e que esta mostrou neste último mês uma redução extraordinária por grupo etário, sobretudo nos mais jovens. "A diferença para os outros grupos é tão grande que acredito que tenha que ver com o encerramento das escolas. Não discuto se a infeção é dentro ou fora das escolas, não discuto se o ministro vem dizer que dos testes feitos nas escolas poucos deram positivo, o que sei baseia-se nos números", aponta, contrariando, ao mesmo tempo, o argumento usado pelo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, relativamente aos testes. "Os testes feitos pela escola podem ter resultado em poucos positivos, mas não são as escolas que fazem os testes às crianças e aos jovens, são os pais. Quando uma família está infetada, os mais novos vão com os pais fazer os testes, não o fazem em ambiente escolar", explica o professor.

Portanto, "dizer que não há contágio nas escolas é completamente absurdo quando se compara os números de casos que estavam a verificar-se diariamente nestas faixas etárias e os que se verificam agora. É evidente que houve uma quebra nas cadeias de transmissão com o fecho das escolas, e de forma drástica em todos os grupos etários, incluindo o dos de mais de 80 anos".

Confinamento já teve efeito

Agora, a olhar para a frente e para a fase em que se completará um ano de pandemia em Portugal - os primeiros casos surgiram a 2 de março -, Carlos Antunes diz que as estimativas que têm para o prazo de uma a duas semanas são robustas e revelam o que chama de "efeito de estagnação. Ou seja, o confinamento já surtiu o efeito que tinha de surtir. A partir de agora o efeito será muito mais lento", porque quando foi decretado "reduziu todos os contactos em 75%, mantendo 25% dos contactos, os quais continuam a existir, mantendo-se agora aqui os contágios".

No entanto, para Carlos Antunes, e como defendeu também Manuel Carmo Gomes há duas semanas no Infarmed, o desconfinamento não deve acontecer para já. Aliás, na opinião desta equipa, deve manter-se, pelo menos, até ao final de março. O governo parece estar de acordo, já que a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, e o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, vieram dizer nos últimos dias que "é cedo para se pensar no assunto".

Até porque a redução obtida nos casos de infeção e nos óbitos ainda não se repercutiu com a mesma dimensão nos internamentos, sobretudo nas unidades de cuidados intensivos (UCI).

Na semana passada, os internamentos totais baixaram dos seis mil, depois dos cinco mil e nesta semana já desceram para menos de quatro mil - ontem, havia 3584 pessoas internadas, das quais 669 em UCI. Para março, as estimativas apontam para que se atinja uma redução nos internamentos em UCI que os coloque abaixo dos 300. "O valor crítico que nos tem sido dado pelos intensivistas é de 280 internamentos, o que representa 85% da capacidade máxima dispensada, e o que as estimativas indicam é que vamos chegar a esse número na primeira quinzena de março."

No entanto, salvaguarda, é preciso que a incidência da doença não volte a aumentar. "Há uma certa fadiga do confinamento e as pessoas podem começar a relaxar as medidas, mas isso não pode acontecer, porque o confinamento controlou a progressão das novas variantes", explica Carlos Antunes.

Nos últimos dias, os casos de infeção estão entre os 1500 e os 2000, mas nas primeiras semanas de março poderão descer a barreira dos mil casos, até aos 700 ou 800. Mas "tudo dependerá de como se vai aliviar a pressão sobre a mola", volta a alertar o professor. "Desde janeiro que temos feito uma pressão imensa sobre a mola, mas quando retirarmos a mão da mola temos de ter algo que a substitua", diz, lembrando que a proposta da equipa que integra é a testagem em massa, que "permita atuar rapidamente para se quebrar as cadeias de transmissão".

As novas diretrizes da DGS, para se testar todos os contactos, de maior e menor risco, ainda não estão a ser aplicadas.

A ministra da Saúde e a DGS aceitaram esta solução. Há uma semana, os critérios de testagem mudaram, mas ainda não estão em prática. O objetivo é alargar os testes a todos os contactos, de maior ou menor risco, mas o que continua a observar-se é que o número de testes diários continua a diminuir.

"Ainda não estão a sentir-se as diretrizes da DGS, porque os contágios estão a diminuir e o número de testes também. E a nossa proposta vai no sentido de inverter esta situação para que, quando se der o desconfinamento, seja faseado e sempre com uma enorme monitorização da doença, através da testagem que permita atuar ao mínimo sinal de alteração da incidência."

Neste momento, a taxa de positividade da doença em relação ao número de testes realizados diariamente está nos 7,7%, menor do que a positividade de há uma semana, que atingia os 13%. Dois meses depois de a doença entrar na terceira vaga, o cenário acalma. Não se sabe até quando, porque ao mínimo descuido tudo pode mudar.

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