Como os clubes do Campeonato de Portugal tentam sobreviver sem receitas

O Mirandela disse aos brasileiros para voltarem a casa porque não tinha forma de os alimentar. O Loures pediu um empréstimo bancário e dá refeições aos jogadores através de uma associação. E o Fabril já avisou os atletas e treinadores para procurarem clube porque na próxima época só vai pagar cerca de 150 euros por mês.

O futebol português está parado. É como se fosse uma daquelas segundas-feiras após uma jornada ao fim de semana. No caso do Campeonato de Portugal, a situação é ainda mais grave, pois a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) já decretou a conclusão das provas, sem campeão ou descidas de divisão, devido à pandemia do covid-19. Estão nesta situação 72 clubes do terceiro escalão do futebol português, no qual há apenas 18% de jogadores profissionais. Neste escalão, os salários milionários não existem e a maioria são subsídios, em muitos casos abaixo do ordenado mínimo nacional, afinal a grande maioria são futebolistas amadores.

São estes clubes, de norte a sul do país, que alimentam a paixão pelo futebol em pequenas e grandes comunidades e, ao mesmo tempo, onde jogam alguns jovens à procura do sonho de, um dia, se tornarem estrelas.

Mirandela, Loures e Fabril do Barreiro são três exemplos diferentes relativamente à forma de abordar os problemas causados pela pandemia do covid-19. "Nunca há boas formas de lidar com o inesperado. Estamos a reagir, afinal ninguém estava preparado para isto", começa por dizer Faustino Mestre, presidente do Fabril (a antiga CUF), que se orgulha de estar "há mais de 40 anos no futebol".

Com as receitas a caírem a pique, tornando-se praticamente inexistentes, mantêm-se os ordenados para pagar e outros compromissos para honrar. Estes clubes enfrentam, por isso, um desafio único que deverá mudar a face do futebol não profissional nos próximos anos, apesar dos esforços da Federação Portuguesa de Futebol em criar um fundo para ajudar os emblemas em maiores dificuldades, sendo que cada um deles poderá dispor do valor máximo de 35 250 euros.

Quem tem salários mais altos não recebe

"Como o campeonato não terminou, o Mirandela perdeu as suas receitas, pois há empresas que não vão pagar o que resta dos contratos de publicidade. Além disso, há ainda uma natural quebra relativa ao pagamento das quotas por parte dos associados", asFsumiu ao DN Carlos Correia, presidente do clube transmontano, que ocupava o 11.º lugar da Série A, explicando que na sua região "o comércio está a ser bastante afetado e, como tal, não pode ajudar os clubes enquanto patrocinador". Ainda assim, o dirigente faz gala em dizer que "os jogadores foram para casa com o mês de fevereiro pago" e que chegou a "acordo" com os atletas para que "recebam metade dos meses de março e abril, nos quais não trabalharam".

"Todos vamos perder por causa do vírus, mas, se cada um só perder um bocadinho, será menos doloroso para todos", argumenta por sua vez Faustino Mestre, dizendo ao DN que "o Fabril tem o orçamento mais baixo de todos os clubes do Campeonato de Portugal". "Ao contrário de outros, não gastamos mais do que ganhamos, mas apesar de pagarmos pouco, cumprimos com todas as obrigações", sublinha. "Estivemos em último lugar da Série D durante vários meses, mas via clubes do cimo da tabela com dois e três meses atrasados", conta, assegurando que os seus atletas "receberam o mês de março" estando o clube do Barreiro a "tentar cumprir com abril e maio".

O líder do Fabril coloca o dedo na ferida do Campeonato de Portugal. "São poucos os jogadores que ganham mil euros por época e são aqueles que ganham 2000 euros que estão aflitos porque os clubes não têm dinheiro para lhes pagar. Nós temos jogadores a ganhar 200, 300 e 400 euros no máximo", explica Faustino Mestre, numa ideia que é partilhada por Carlos Correia, que apresenta um caso concreto: "No início da época estivemos para contratar um jogador, que nos pediu 650 euros mais casa e alimentação, mas não lhe pudemos pagar e ele foi para o União da Madeira, onde agora tem três ou quatro meses de salários atrasados. Não pagamos mais do que podemos e os nossos salários são entre os 400 e os 550 euros."

É bom frisar que a maioria destes jogadores têm outras ocupações profissionais e os do Fabril "têm outros empregos", razão pela qual o termo correto a utilizar são subsídios e não salários, que, ao contrário do futebol profissional, são pagos enquanto a época decorre, ou seja, entre setembro e maio.

Loures recorre a empréstimo bancário

Otimista, apesar das dificuldades, Júlio Mestre, vice-presidente do Loures, revela que o clube tem os ordenados "em dia, faltando apenas pagar o mês de março". Só que para honrar esse compromisso teve de recorrer a "um empréstimo bancário que já foi aprovado e estará desbloqueado dentro de dois ou três dias". "Além disso, estamos a tentar chegar a um acordo para reduzirmos os ordenados de abril e maio, afinal os jogadores não trabalharam nestes meses", defende, garantindo não ter qualquer atleta a passar dificuldades: "A grande maioria já regressou a casa e temos apenas nove jogadores [dois chineses, um costa-marfinense, um nigeriano e cinco brasileiros] nos apartamentos que são alugados por nós, com refeições que também fornecemos."

O recurso à banca também tem que ver com a despesa adicional com a alimentação destes nove jogadores. "Tínhamos uma cozinheira a fazer as refeições diariamente para os jogadores, que vinham comer ao clube, mas com o estado de emergência tiveram de ficar retidos em casa, bem como a cozinheira. Agora é um funcionário nosso a entregar-lhes o almoço e o jantar em casa, utilizando uma carrinha do clube e pagamos à associação Luís Pereira da Mota para nos fornecer as refeições", revelou Júlio Mestre, garantindo que só houve uma situação complicada de um jogador estrangeiro que, "como tinha mandado parte do salário para a família, ficou sem dinheiro", uma situação que, garante, "já está resolvida".

Curiosamente, o Mirandela antecipou o problema do alojamento dos jogadores. "Assim que os campeonatos pararam, os sete brasileiros [seis jogadores e o treinador de guarda-redes] voltaram para o Brasil. E ainda bem que foram porque agora não tínhamos forma de lhes dar de comer, pois os restaurantes estão fechados. Os outros atletas moram aqui na região norte, são jovens e a maioria ainda está em casa dos pais", explica Carlos Correia, garantindo que o clube tem "tudo controlado" no que diz respeito às despesas.

Receitas secam e fundo da FPF é solução... para alguns

Faustino Mestre diz com todas as letras que as fontes de receita praticamente secaram. "Tivemos uma quebra brutal, à volta de 90%", diz o presidente do Fabril, assegurando que "o clube está fechado". "As mensalidades dos miúdos da formação deixaram de ser pagas pelos pais, uma vez que não há treinos, e até as quotas, de três euros por mês, deixaram de ser pagas por alguns associados, o que também é compreensível", revela, explicando depois uma situação que será resolvida em breve: "Alugámos um espaço a um restaurante, que teve de fechar e, como tal, vamos falar com eles para que possam reduzir a renda a 50% enquanto não puderem voltar ao normal." "Temos de nos ajudar uns aos outros. Se os vamos obrigar a pagar morrem...", frisa.

Certo é que o Loures teve, de acordo com Júlio Mestre, "mais de 50% de quebra de receitas" e assume que irá "recorrer ao fundo da FPF", com o qual pretende "liquidar o empréstimo à banca", uma vez que a ajuda federativa permite "reembolsar faseadamente durante quatro anos e sem juros".

Uma situação que o Fabril ainda está a analisar. "Damos os parabéns à FPF pela criação deste fundo, até porque não era obrigada a ajudar-nos, ainda por cima com 33% a fundo perdido e o resto pago sem juros. É algo muito bom, mas ainda não sabemos se vamos recorrer", esclarece Faustino Mestre, enquanto Carlos Correia garante que "o Mirandela não irá aderir". "Trata-se, afinal, de um empréstimo que depois teria dificuldade em pagar... ainda se oferecessem seis ou sete mil euros."

Próxima época com cortes para todos

Se é verdade que os clubes ainda estão a lidar com a forma de fazer face às dificuldades do final antecipado do Campeonato de Portugal, a próxima época já começa a surgir no horizonte. E aí, a opinião é comum a todos os clubes: será preciso reduzir custos, a começar pelos subsídios.

O mote já foi dado pelo Fabril. "Já disse aos jogadores e ao treinador que procurem o que for melhor para a vida deles porque só vamos manter quem aceitar aquilo que podemos pagar. Sei bem o que vem aí e vai doer a todos. Vamos reduzir os salários na ordem dos 50% e formaremos uma equipa com base nos nossos jovens e já temos acordo com oito juniores. Vamos dar subsídios de 150 euros... no máximo de 200 euros, mas tem de ser um jogador muito bom", garantiu Faustino Mestre, que deixa uma garantia aos sócios que vão eleger uma nova direção em maio: "Não entro em loucuras, se quiserem entrar em loucuras que votem noutro."

Carlos Correia também está ciente de que o Mirandela vai ter de fazer cortes porque "não há dinheiro e os patrocinadores são cada vez menos", como tal "os orçamentos vão ter de baixar e os jogadores têm de perceber que vão ter de baixar salários".

Sem especificar percentagens, Júlio Mestre também admite "cortes salariais" no Loures para a próxima época, apesar de "ainda não ter havido feedback dos patrocinadores sobre eventuais cortes". "Ainda estamos todos à espera de como será a nova realidade, mas a verdade é que as receitas de bilheteira são pequenas, como tal os patrocínios e os subsídios da autarquia para a formação são as principais formas de subsistência", reforçou.

Aliás, a pandemia do coronavírus fez que o Loures fosse obrigado a parar um projeto essencial para "a viabilidade" do clube. "Nós temos instalações paupérrimas e tínhamos em marcha uma parceria com um grupo económico alimentar e com a Câmara Municipal para construir um novo estádio e ceder o atual, que está numa zona privilegiada da cidade, para urbanização. Agora o projeto vai atrasar-se. Tínhamos a expectativa de ter as novas instalações na próxima época, agora se for em 2022 será muito bom", assumiu o vice-presidente do clube dos arredores de Lisboa, que na altura da paragem dos campeonatos se encontrava no sétimo lugar da Série D.

Esta é a realidade de três dos 72 clubes do Campeonato de Portugal, uma competição com muitas assimetrias, sobretudo ao nível dos investimentos, mas que alimenta a paixão pelo futebol em todos os cantos do país. Mas perante esta pandemia, há a noção de que nada será igual ao que era...

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