"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica do soldado português"

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Este é um livro sobre o ser militar em Portugal, publicado só em inglês, que começa nas guerras liberais e vai até às operações internacionais em que Portugal está hoje envolvido. Há algum padrão de continuidade ou estamos a falar de um espaço de 200 anos em que já nada liga as forças que hoje estão na República Centro-Africana aos militares das guerras liberais?
Naturalmente que há uma linha de continuidade sobre aquilo que é o militar português e a maneira de desempenhar a sua função em conflitos internacionais. Mas há diferenças muito substanciais que correspondem a cada um dos períodos históricos, e cada um deles tem que ver com um tipo de conflito e, de acordo com o tipo de conflito, um modelo de Forças Armadas.

Sobre a Primeira Guerra Mundial, fala-se muito de que Portugal foi combater em França por razões meramente políticas e mal preparado. Fala-se também da Batalha de La Lys, com 400 mortos numa manhã. No entanto, também se fala do soldado Milhais, depois o famoso soldado Milhões, como exemplo de se um militar português tivesse sido bem enquadrado podia ser um supersoldado. Onde é que está a verdade?
A verdade está nos dois lados. Ou seja, o soldado Milhões é, de certa maneira, um símbolo da capacidade heroica do soldado português e ao mesmo tempo o desastre de La Lys é a incapacidade política e militar de ter um corpo expedicionário à altura daquilo que era a missão. Ainda bem que fala da Primeira Guerra Mundial, porque isso dá-nos um tempo de comparação muito claro com a experiência de hoje. A intervenção de Portugal no teatro europeu da Primeira Guerra Mundial deixa-nos ter um conjunto de lições daquilo que não se deve fazer. Em primeiro lugar, não se deve decidir a partida para uma operação internacional envolvendo as Forças Armadas sem um largo consenso político e sem o apoio da sociedade. Essa é a primeira e mais importante questão. Em segundo lugar, não se deve envolver uma força num conflito internacional sem que o equipamento, o armamento e o treino sejam compatíveis, hoje diríamos interoperável, com as forças com que os militares portugueses vão trabalhar. Finalmente, outro ponto importante, no regresso do combate, é o reconhecimento que a sociedade portuguesa deve àqueles que deram a vida pela pátria. Todas as operações que se têm feito no período da democracia, e já mencionou a questão da República Centro-Africana, são justamente o contrário daquilo que foi a prática na Primeira Guerra Mundial. Ou seja, procurou-se sempre um largo consenso nas forças políticas e algum apoio da opinião pública portuguesa - isso está documentado por um conjunto de inquéritos. Em segundo lugar, o equipamento, o armamento e até o treino das Forças Armadas portuguesas é feito no quadro da NATO ou da UE e portanto quando as forças portuguesas vão trabalhar com outras forças dos aliados têm o mesmo standard, e finalmente tem havido um esforço para reconhecer, do ponto de vista simbólico e material, o esforço que esses militares têm feito na produção de segurança internacional. Há uma grande diferença no que são as Forças Armadas da democracia e períodos anteriores a esse de que estava a falar.

Por exemplo, comparando a operação no Afeganistão e agora esta na República Centro-Africana, dá-me ideia que os portugueses têm conseguido muito mais destaque operacional, muito mais protagonismo nesta última. Há alguma possibilidade de dizer que por razões históricas há uma capacidade diferente de combater em África do que na Ásia Central?
Não diria assim. As Forças Armadas portuguesas têm capacidade para combater e no caso atual produzir segurança e estabilidade em qualquer parte do mundo. Tem sido esse o princípio fundamental de emprego internacional das Forças Armadas portuguesas. O que vale é a sua capacidade de produzir segurança onde ela é necessária em termos internacionais: nos Balcãs, no Afeganistão, no Líbano. O que eu julgo que é diferenciador é, além da sua capacidade técnico-militar e das regras de empenhamento que têm, muitas vezes sem limitações, uma extraordinária capacidade de relacionamento com as populações locais. Tive oportunidade de ver isso nos Balcãs e no Líbano e as Forças Armadas não só desempenham a sua missão como desenvolvem uma relação com as populações que fazem que sejam não só aceites como queridas. E isso é um elemento diferenciador. Não sei se África é diferente ou não. Há sim uma grande experiência em África desde o período do ciclo colonial, mas mesmo depois da democracia, com a cooperação técnico-militar nos países de expressão portuguesa, é provável que esse conhecimento de África lhes dê alguma vantagem quando intervêm no quadro do continente africano. Mas acho que as Forças Armadas portuguesas têm capacidade para intervir em qualquer parte do mundo.

Portugal não é atacado há praticamente 200 anos por uma potência exterior, mas tivemos aquela experiência de guerra colonial muito prolongada em África. Se esquecermos a componente político-ideológica, quando um país com a dimensão de Portugal, com cerca de dez milhões de habitantes, tem de avançar para três frentes de guerra, a capacidade de riqueza do país consegue produzir Forças Armadas capazes de fazer um esforço desse?
É uma experiência interessante que vale a pena ser vista de um ponto de vista comparativo, com a experiência francesa na Argélia ou com a experiência americana no Vietname. São guerras de insurreição, que estão paralelas, mas no caso português, quer do ponto de vista estratégico quer operacional, Portugal foi um pouco além daquilo que outras forças armadas desenvolveram no terreno. Isso fez que aliás um autor célebre, John P. Cann, chamasse a essa fórmula "the portuguese way of war". Nos conflitos da descolonização, para fugir ao maniqueísmo da Guerra Colonial, há indiscutivelmente uma forma portuguesa de fazer a guerra e que do ponto de vista militar teve desfechos completamente diferentes. Ou seja, na Guiné, a guerra estava militarmente perdida, em Moçambique a guerra estava meio ganha, meio perdida, e em Angola as forças militares portuguesas tinham claramente uma superioridade no final do conflito.

Tem que ver com a geografia dos territórios das frentes de batalha?
Tem que ver com a geografia e com os próprios movimentos de libertação. Na Guiné havia uma geografia que não era favorável às forças de operação territorial e era favorável à guerrilha, onde há um partido e liderança forte, do ponto de vista político e militar, e um contexto internacional que a partir de certa altura também favorece a guerrilha. Aliás, em 1973 há a declaração unilateral de independência, reconhecida por uma quantidade enorme de Estados das Nações Unidas. Isso não se passa em Moçambique, onde a situação é intermédia. E o outro extremo é Angola, onde os movimentos de libertação são três e estão divididos e onde as Forças Armadas portuguesas tinham uma situação de superioridade militar.

Ainda há pouco elogiou a nossa capacidade de estar nos grandes teatros. Significa que as Forças Armadas fizeram uma transição bem-sucedida entre o Estado Novo e o começo da democracia, e sobretudo entre os chamados conflitos da descolonização e os tempos modernos?
Sim. A transição das Forças Armadas é muito bem-sucedida. Costumo dizer que temos um modelo democrático das Forças Armadas. Em que é que isso se traduz? Em três ou quatro características fundamentais que marcam a transição entre aquilo que eram as Forças Armadas antes e depois do processo de democratização. A primeira diferença é a evolução do sistema de recrutamento militar, do serviço militar obrigatório, que estava em pleno funcionamento durante o período colonial, para um sistema profissional. A profissionalização das Forças Armadas e imediatamente a seguir a entrada das mulheres nas Forças Armadas é uma mudança fundamental e que altera o paradigma do recrutamento mas também das Forças Armadas. Em segundo lugar, há um segundo elemento que muda radicalmente e para melhor durante o período da democracia, que tem que ver com o equipamento e o armamento e a modernização das Forças Armadas. Antes tudo o que era equipamento não tinha planeamento nem financiamento a longo prazo. O que acontecia era que em cima dos conflitos havia necessidade de um determinado tipo de equipamento e, como a geração desse armamento é longa, muitas vezes as Forças Armadas iam para o teatro de guerra sem o armamento adequado. Falou na Primeira Guerra Mundial, é um exemplo. Mas, por exemplo, a neutralidade portuguesa na Segunda Guerra tem razões diplomáticas mas Salazar também sabia que as Forças Armadas portuguesas não estavam militarmente preparadas para um conflito na Europa. A grande transformação neste plano, com a chega da democracia, são as leis de programação militar, que permitem a longo prazo ter um ciclo de modernização planeado e que é financeiramente sustentado. Toda a gente se queixa das cativações, como é natural, mas isso pode atrasar mas não altera a natureza qualitativa dessa mudança, que é absolutamente estrutural. O terceiro elemento que caracteriza o modelo democrático das Forças Armadas é a subordinação dos militares ao poder político, ou seja, a aceitação por parte dos militares, por parte da instituição militar, de que ela é um instrumento do poder político legítimo. Essa é talvez a maior mudança na cultura militar e as Forças Armadas, hoje, são perfeitamente democráticas e isso está enraizado na sua cultura e é a grande mudança do ponto de vista das relações civis-militares e dos militares com o poder político. Finalmente, há uma mudança que tem que ver com o tipo de operações. Se até aqui Portugal tinha entrado sempre em missões de guerra, o que caracteriza a intervenção das Forças Armadas pós-democracia não são campanhas de guerra, são operações de paz. E isso faz toda a diferença.

Um país que há 200 anos não tem uma invasão do seu território, que está no quadro da NATO e se sente bastante protegido, num continente que não tem tido conflitos na sua metade ocidental desde 1945. Não há o risco de a opinião pública portuguesa sentir um dia que as Forças Armadas são desnecessárias?
Costumo dizer que a defesa é como a saúde: só damos por ela quando não a temos. É preciso que a população sinta e que os responsáveis políticos tenham o cuidado de não deixar a perceção de que não é necessário. As Forças Armadas são absolutamente necessárias como pilar do Estado, a defesa é fundamental, não só para defesa do território, mas para manter estabilidade e segurança em termos internacionais, que é o que nos protege e dá segurança. É bom que saibamos disto para cuidarmos dela antes de não a termos.

Quando estava a escrever o seu livro, há alguma figura que, na história militar de Portugal, tenha tido um papel especial?
É difícil dizer. Ao longos destes últimos 200 anos não há um, há muitos, a perspetiva que eu adotei não é a do herói individual, do general, do estratega, é a perspetiva das condições que levam à conflitualidade e em que condições as Forças Armadas travam essa batalha. Nesse sentido, se há um herói, é um herói coletivo: o militar português.

Exclusivos