Premium Roubo em Tancos: CDS quer comparar listas que MP usou para detetar a falta de material

A Comissão de Defesa não teve ainda acesso à lista do material furtado que foi depois devolvido. MP terá detetado a falha comparando a informação que lhe foi transmitida pelos militares.

O pingue-pongue político, judicial e militar que se tem jogado desde que foi revelado pelo Expresso que afinal havia mais material furtado em Tancos que ainda não tinha sido devolvido, ao contrário do que dissera o Exército, tem uma possível prova dos nove. Quem a descobriu foi o CDS, quando requereu nesta terça-feira que a lista do material "recuperado" fosse facultada ao Parlamento.

"Se o Ministério Público detetou a falta de material pressupomos que terá sido com base na comparação da lista do material furtado com a lista do material recuperado. Queremos também confrontar essas listas. Nunca nos foi facultada a relação do material recuperado", justifica João Rebelo, o coordenador dos centristas na Comissão de Defesa Nacional.

Num recurso para o Tribunal da Relação de Lisboa, datado de março deste ano, os procuradores do MP elencam o material que afinal não foi devolvido: há ainda 30 cargas de explosivos - usadas para explosões cirúrgicas e controladas -, três granadas ofensivas, duas granadas de gás lacrimogéneo e um disparador de descompressão desaparecidos, escreveu o Expresso.

Segundo alegou o semanário, para poder manter sob escuta seis suspeitos do assalto a Tancos, o MP revelou que, "ao contrário do que tinha sido veiculado pelo Exército e pelo Ministério da Defesa, ainda há granadas e explosivos que não foram devolvidos. O material de guerra pode ser usado em atentados terroristas ou para arrombar portas blindadas, e o MP diz mesmo que a segurança nacional está em perigo enquanto os assaltantes não forem capturados".

A lista do material furtado foi entregue na Comissão de Defesa e coincide com a que foi divulgada, em primeira mão, por um jornal espanhol. O MP terá comparado esta com o material devolvido, elaborada pelo Exército. Ambas farão parte do inquérito judicial. Quando ambos os inventários chegarem ao Parlamento, há pelo menos dois cenários possíveis: ou não se confirma e o MP terá de justificar porque usou falsos argumentos junto ao tribunal; ou confirma-se a discrepância e os militares terão de explicá-la, incluindo o facto de o chefe do Estado-Maior do Exército, Rovisco Duarte, o ter omitido.

A 31 de outubro, o general Rovisco Duarte confirmou que o material recuperado na Chamusca "se encontra armazenado nas instalações de Santa Margarida, exceto as munições de nove milímetros". Na mesma altura, anunciou que foi encontrada uma "caixa de petardos" a mais na relação do material furtado nos paióis de Tancos recuperado pela Polícia Judiciária Militar, situação que considerou, na altura, "compreensível". Os "petardos", conforme o DN depois noticiou, eram explosivos plásticos.

Tanto a PJM como o Estado-Maior do Exército remeteram esclarecimentos para o MP. O mesmo fez o ministro da Defesa, nesta terça-feira no Parlamento. "Obviamente não tive conhecimento dessa alegada discrepância", referiu José Azeredo Lopes, em resposta ao deputado do PSD Pedro Roque. Sustentou que "o bom senso político obriga" a que se espere "calmamente que essa aclaração venha a verificar-se, ou seja, que venha a saber-se e, se sim, porque é que se se verifica uma alegada discrepância quanto àquilo que foi recuperado".

João Rebelo insistiu em perguntar ao ministro que consequências retiraria se viessem a verificar-se divergências nas declarações então feitas pelo general Rovisco Duarte e eventuais dados novos confirmados pela investigação. Azeredo Lopes disse que "já se verificou" haver informação que o Exército dava como fidedigna "que não se confirmou" e, lembrou, aquando da devolução do material de guerra - em que surgiu uma caixa a mais - em outubro "foi assumida e diagnosticada" a existência de graves lacunas ao nível dos inventários.

Essa situação "resultava também de "situações quase sistémicas que tornavam impossível dizer qual o inventário de material à guarda" do Exército, que levaram a adotar "medidas draconianas" para corrigir a situação de segurança em torno dos paióis das unidades militares.

Em reação à notícia do Expresso, fonte da Polícia Judiciária Militar tinha negado ao DN que houvesse material ainda por recuperar, além das munições de nove milímetros, "Não temos dados para dizer que [a listagem feita pelo MP] corresponde à verdade", sublinhou essa fonte, remetendo para o MP e a PJ (enquanto titulares da investigação) e para o Exército - responsável pelos paióis e pela listagem do material - quaisquer esclarecimentos.

Também a pedido do CDS, Rovisco Duarte será ouvido no Parlamento para esclarecer toda esta situação.

Foram também aprovadas audições à secretária-geral do Sistema de Segurança Interna, Helena Fazenda, e à secretária-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa, Graça Mira Gomes.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.