Muito mais do que um jogo. A segurança e os receios de um Barça-Real politizado

O clássico do futebol espanhol é esta noite depois de ter sido adiado por causa da tensão política na Catalunha. A operação de segurança é das maiores de sempre (4000 efetivos), pois estão marcadas manifestações em Barcelona e temem-se problemas no estádio. As duas equipas chegam empatadas na liderança da Liga espanhola.

O El Clássico devia ter-se jogado a 23 de outubro, mas a conturbada situação política na Catalunha e as muitas manifestações na cidade acabaram por adiar o jogo. O Barcelona-Real Madrid desta quarta-feira (19.00, Eleven Sports) será um dos jogos com mais segurança de sempre. No total, entre polícia e segurança privada, serão mais de 4000 elementos. Tudo para evitar problemas provocados por independentistas afetos ao movimento Tsunami Democràtic, que convocaram manifestações para esta quarta-feira e teme-se também que possam provocar problemas dentro do estádio.

O esquema de segurança obrigou mesmo a uma medida inédita. As duas equipas rivais (e também os árbitros) vão partilhar o mesmo hotel (o Rainha Sofia, a cerca de 800 metros do estádio Camp Nou) durante várias horas nesta quarta-feira, por sugestão das autoridades, e vão sair juntas da unidade hoteleira por voltas das 18.00. A ideia de as equipas saírem juntas é uma forma de evitar focos de tensão com o autocarro do Real Madrid.

A tensão política na Catalunha viveu um novo episódio a 14 de outubro quando o Supremo Tribunal espanhol condenou os principais dirigentes políticos envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas de prisão efetiva até um máximo de 13 anos. A sentença motivou protestos independentistas ao longo de vários dias em Barcelona e em outras cidades da região autónoma, instalando uma crise permanente na cidade (desde 2017, ano do referendo pela independência da Catalunha, que colheu 90% de votos favoráveis).

Recorde alguns dos melhores momentos do clássico espanhol

Os manifestantes querem a liberdade dos "presos políticos" e viram no Barcelona-Real Madrid uma oportunidade de chamar maior atenção para o propósito da sua luta, ameaçando cortar os caminhos que vão dar ao Camp Nou. O que levou a adiar o jogo na esperança de que os ânimos acalmassem, algo que não aconteceu. Por isso, o clássico desta quarta-feira é muito mais do que um jogo.

Os independentistas catalães, através do movimento que recebeu o nome de Tsunami Democràtic, exigiram que o Barcelona aceitasse a exibição de faixas pró-separatistas na relva e nas bancadas do recinto sob a ameaça de bloquear o acesso ao estádio. "É muito fácil que o jogo decorra normalmente: garantindo a presença do [slogan] #SpainSitAndTalk nas bancadas e no campo. Essa é a proposta que fizemos ao Barcelona Football Club", escreveu o movimento no Twitter, consciente de que as imagens da partida devem chegar a 650 milhões de pessoas em todo o mundo.

Ameaças que deixaram a polícia em alerta. E não é para menos, pois foi organizada uma manifestação para esta quarta-feira, dia do jogo, a partir de quatro pontos diferentes da cidade de Barcelona e que conta já com o apoio de cerca de 25 mil pessoas. Muitas delas com bilhete para o clássico. Daí que a polícia tema uma invasão de campo durante o jogo e outro tipo de protestos.

Os Mossos d'Esquadra (polícia) olham para a partida como de altíssimo risco, que se jogará debaixo de um alerta terrorista de nível 4 em 5, como mais uma forma de manter a ordem no caos. Para evitar barricadas a caminho de Camp Nou e garantir a segurança das equipas foram destacados cerca de 4000 efetivos (entre segurança pública e privada), entre eles mil elementos da polícia de intervenção (Mossos d'Esquadra), além das unidades de controlo da Guarda Urbana de Barcelona.

Treinadores desvalorizam ambiente

O jogo vai por isso desenrolar-se debaixo de grande preocupação. "Regras são regras. Disseram-nos para deixarmos o hotel juntos e vamos fazê-lo. Não há que dar mais explicações. O importante é haver jogo", disse na terça-feira Zinedine Zidane, treinador do Real Madrid, tentando suavizar o ambiente: "Não temo que surjam problemas. Nós temos de nos focar unicamente no jogo. O resto, o que vem de fora não pode afetar-nos."

Outro dos temores em torno do clássico desta quarta-feira é o facto de o árbitro poder interromper o jogo caso surjam das bancadas protestos contra a Espanha. "O árbitro precisa de tranquilidade, tal como nós. Há muita coisa em volta deste jogo, mas acredito que o que as pessoas querem é ver um bom jogo de futebol. Há demasiado ruído", atirou Zidane, que tentou sempre durante a conferência de imprensa desvalorizar o contexto em que o Barcelona-Real Madrid vai ser jogado.

"Não pensamos noutra coisa que não seja o jogo. Estamos a par de tudo o que se está a passar, mas ao mesmo tempo habituados a que haja grande expectativa em redor dos nossos jogos. Vemos as notícias, mas só nos preocupamos com o jogo. Mais segurança? Há ligeiras alterações, mas não são coisas significativas. É o mesmo quando jogamos fora de casa. Acredito que o jogo vai desenrolar-se sem problemas", opinou o treinador Ernesto Valverde, que defendia que a data do jogo não devia ter sido alterada.

O técnico do Barcelona comentou ainda o facto de as duas equipas irem partilhar o mesmo hotel horas antes do jogo. "Vamos ver se me cruzo com o Zidane, mas acho que apesar de estarmos no mesmo hotel, será difícil os treinadores e os jogadores encontrarem-se."

Como chegam as equipas ao clássico e as contas

Barcelona e Real Madrid estão empatados na liderança da Liga espanhola. Na equipa de Valverde, Messi está com o pé quente (fez 13 golos em 11 jogos) e Griezmann parece finalmente entender-se com o tridente ofensivo em que Suárez tem lugar garantido. Já Zidane conta com o poder ofensivo de Benzema (12 golos no campeonato).

Desde a derrota com o Maiorca, em outubro, os blancos sofreram apenas três golos em sete jogos, sinal do acerto defensivo da equipa de Madrid. O técnico francês tem ainda a história recente a seu favor, visto que nunca saiu derrotado de Camp Nou (duas vitórias e dois empates) e pode mesmo tornar-se no primeiro técnico do Real Madrid a visitar a casa do rival cinco vezes seguidas sem derrotas, batendo Miguel Munoz, que teve quatro vitórias consecutivas entre 1962 e 1965.

As estatísticas deixam claro o favoritismo dos donos da casa, que ganharam em 57% dos duelos contra o Real Madrid. São 51 vitórias do Barcelona contra 21 do Real Madrid. O empate foi o resultado de 17 partidas.

Rivalidade: Franco, Di Stéfano, Figo e Cristiano Ronaldo...

A rivalidade entre os dois clubes espanhóis transcende o campo futebolístico. O Real Madrid é conotado com a realeza e o poder centralizador de Madrid, enquanto o Barcelona representa o desejo de independência do povo catalão. Daí a intensidade desta rivalidade a que chamam de El Clássico.

Não se sabe muito bem quando começou a animosidade, mas, segundo alguma imprensa espanhola, tudo começou num duelo a eliminar na Copa de la Coronación, em 1916, que demorou 420 minutos (90 jogados em Barcelona e o resto em Madrid). Foi também nessa prova que aconteceu o primeiro Real-Barça da história, no dia 13 de maio de 1902, no hipódromo de La Castellana, local onde foi construído o Santiago Bernabéu (1947), nas meias-finais da prova que precedeu a atual Taça do Rei e que foi ganho pelos catalães (3-1).

Os clubes sempre estiveram de lados opostos na barricada, mas as diferenças aumentaram nos anos 30, quando a Catalunha sofreu uma repressão cultural na presidência de Franco. O catalão foi proibido, o símbolo do clube foi mudado e, em 1936, uma milícia de Franco prendeu e executou o presidente do Barcelona Josep Sunyol.

Apesar disso o futebol foi escapando à intervenção franquista porque o ditador, segundo a imprensa espanhola, "embora doido pelo Real Madrid", "tolerava" as manifestações pró-Catalunha nas partidas do Barcelona, pois entendia que seria mais fácil controlar os manifestantes reunidos num estádio de futebol do que espalhados pelas ruas.

Depois, apareceu um tal de Alfredo di Stéfano e a rivalidade ganhou outros contornos. Afinal estávamos perante aquele que um dia seria considerado um dos melhores jogadores de sempre e levaria o clube de Madrid à glória nunca antes vista para agoiro dos de Barcelona.

Ainda hoje o argentino, depois naturalizado espanhol, é a maior referência dos merengues. Mas podia não ser assim. A 17 de maio de 1953, Di Stéfano desembarcou em Barcelona para assinar contrato. Assim que soube disso, o Real, que já tinha o jogador debaixo de olho, rumou à Catalunha e desviou o argentino com a ajuda do governo de Franco, que assinou um despacho a revogar a lei que impedia a contratação de jogadores estrangeiros.

Não se sabe muito bem como, mas os dois clubes acordaram partilhá-lo de duas em duas épocas. Só que os catalães passavam por uma crise diretiva e a direção que assumiu o clube entretanto decidiu quebrar o acordo a troco de 4,4 milhões de pesetas. E assim Di Stéfano rumou a Madrid.

Mais de 50 anos depois, em 2002, o protagonista da rivalidade foi um português. Luís Figo era uma das referências blaugrana quando trocou o Camp Nou pelo Bernabéu, naquela que foi a maior transferência do futebol mundial da altura. Os catalães não lhe perdoam a traição até hoje - chamam-lhe pesetero (). Quando o português regressou ao estádio catalão ficou com as orelhas a arder. Além de ser assobiado cada vez que tocava na bola foi brindado com cartazes com mensagens de traidor e pesetero... Entre os muitos objetos arremessados para o campo destacou-se uma cabeça de porco, sinal do desprezo catalão.

Na última década a rivalidade assumiu outras formas. Ou melhor, outros rostos. Lionel Messi de um lado e Cristiano Ronaldo do outro. Desde que o avançado português assinou pelos merengues no verão de 2009 que o encontro se confundia com um duelo entre CR7 e Lionel Messi.

Dentro do campo, as duas estrelas justificaram o mediatismo em seu redor. O argentino tornou-se o melhor marcador da história do clássico, com 26 golos em 41 jogos, mas o madeirense aparece imediatamente a seguir na hierarquia, com 18 remates certeiros - os mesmos de Alfredo Di Stéfano - em 30 partidas.

Messi é o rei das assistências (14) e um dos cinco jogadores que marcaram dois hat tricks no clássico, a par de Jaime Lazcano, Santiago Bernabéu, Paulino Alcántara e Ferenc Puskás. Ronaldo, por sua vez, é o jogador que marcou em mais partidas consecutivas entre os rivais de Espanha (seis, entre janeiro e outubro de 2012). No total, quando coincidiram em campo nos últimos 11 anos, marcaram 38 golos em 30 jogos.

Gerard Piqué e Sergio Ramos, capitães de causas

Gerard Piqué é talvez o jogador de futebol mais controverso de Espanha (e da Catalunha). É um dos melhores defesas centrais do mundo (tal como o merengue Sérgio Ramos com quem faz dupla na seleção nacional) e já conquistou títulos europeus e mundiais pela seleção espanhola. Mas está longe de reunir o consenso.

O seu amor incondicional pelo Barcelona e, sobretudo, pela Catalunha, levou-o a ameaçar deixar a seleção espanhola em protesto contra a prisão dos separatistas e depois de ser criticado pelas suas intervenções públicas: "Servir a seleção espanhola não é uma competição de patriotismo, quem vai não é mais patriota do que os outros. Muitos jogadores naturalizaram-se e não eram espanhóis, não sentiam o mesmo que outros. Jogar pela seleção é fazer o melhor possível para ganhar, é assim que eu entendo."

Apesar de haver regulamentos que proíbem manifestações políticas aos desportistas, o capitão do Barça nunca se coibiu de manifestar o seu apoio ao referendo pela independência da Catalunha(é a par de Pep Guardiola o maior defensor da Catalunha no mundo do futebol). Em 2017 veio a público emocionar-se ao falar sobre a repressão da Guarda Nacional durante a votação. "Nós catalães não somos maus, só queremos votar. Podemos votar sim, não ou em branco, mas podemos votar. Com o Franquismo não se podia votar e esse é um direito que temos de defender. Sou e sinto-me catalão e hoje mais do que nunca sinto-me orgulhoso do povo catalão", escreveu no Twitter.

Já o madridista Sergio Ramos é símbolo do Real Madrid e do orgulho espanhol. Como capitão da seleção nacional espanhola já saiu várias vezes em defesa do país e da união entre as regiões, numa mensagem entendida como estando ao lado do poder da capital (Madrid).

Em 2017, após o referendo, quando confrontado com os confrontos em Barcelona, o central confessou que lhe doía assistir a tudo e posicionou-se a favor de um país unido e "mais forte junto". "O que eu penso a esse respeito não vai mudar nada, mas dói-me a imagem da Espanha como país a nível mundial. Não gosto que aconteçam esse tipo de coisas, colocando uma parte da Espanha nesta situação. Juntos somos mais fortes e isso ninguém vai conseguir mudar", disse o central à rádio Onda Cero, confessando que não imagina uma Liga espanhola: "Eu prefiro que o Barça fique na nossa Liga."

E se o Barcelona tiver de deixar a Liga espanhola?

Para já o Barcelona joga na Liga espanhola, mas o que aconteceria em caso de independência? O presidente da Liga Espanhola, Javier Tebas, já avisou que o clube será expulso do campeonato nacional se for declarada a independência da Catalunha, pois só equipas do país podem disputá-lo - a única exceção é Andorra.

Mas onde jogaria então o Barça? Isso ainda é uma incógnita e ninguém se atreve a avançar cenários. O antigo primeiro-ministro francês Manuel Valls - que por sinal nasceu em Barcelona - chegou a abrir as portas do campeonato francês aos catalães: "Se o Mónaco joga na nossa liga, então por que não o Barcelona?" De facto há casos no mundo que servem de exemplo. O Swansea, do País de Gales, por exemplo, disputa a Premier League, de Inglaterra, e o Toronto FC, do Canadá, disputa a MLS, dos EUA.

A outra opção, defendida pelos de Madrid que anseiam pela queda do rival, é criar o campeonato catalão e incluir o Barcelona e também o Espanyol e o Girona, clubes da região que militam na I Divisão espanhola. Mas essa nova liga poderia prejudicar os clubes catalães na UEFA, principalmente o Barcelona, habituado a lutar pela Liga dos Campeões e que teria de disputar várias fases eliminatórias antes da fase de grupos. Isto apesar de a instituição do futebol europeu conviver mal com a mensagem separatista da Catalunha. A entidade já multou o Barcelona, por mais de uma vez, por conta de manifestações políticas dos adeptos e assobios ao hino da Liga dos Campeões.

E a seleção espanhola? Como seria a Roja sem Piqué, Jordi Alba e Busquets, por exemplo? Iriam jogar pela seleção da Catalunha, que já existe e participa em amigáveis esporadicamente? As interrogações são muitas e as respostas poucas ou nenhumas. Mas para já é um cenário que não se coloca.

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