Depois de a reunião de terça-feira ter chegado ao fim sem qualquer acordo, a greve dos motoristas de matérias perigosas continua "por tempo indeterminado" e os postos de combustível acordaram secos, sem notícias de reabastecimento. Na manhã de quarta-feira, eram quase 1240 os postos sem combustível de norte a sul do país, de acordo com a plataforma Já não Dá para Abastecer, site criado pela VOST Portugal (Voluntários Digitais em Situações de Emergência)..Os serviços mínimos decretados no âmbito da greve garantem o abastecimento normal de combustíveis a hospitais, bases aéreas, bombeiros, portos e aeroportos. Na madrugada de quarta-feira, foram abastecidos os aeroportos de Lisboa e de Faro. Segundo o Ministério da Administração Interna, os camiões-cisterna foram conduzidos por elementos da GNR e da PSP. Ao longo do dia, a ANA - Aeroportos avançou também que pelo menos 31 aviões saíram dos aeroportos portugueses, realizando "escalas técnicas" para se abastecerem em aeródromos espanhóis. A ANA sublinhou ainda que as companhias aéreas "mantêm ativos os seus planos de contingência" e continuou a aconselhar os passageiros a "informar-se junto das mesmas sobre eventuais impactes"..A meio do dia, a Associação Nacional de Revendedores de Combustível (ANAREC) estimava que cerca de 40% dos postos da rede nacional estavam inativos ou em situação de pré-rutura de stock..Durante a tarde, começaram a chegar camiões-cisterna a alguns postos de abastecimento do país. A corrida aos postos de abastecimento provocou o caos nas vias de trânsito. E houve até quem optasse por ir até ao país vizinho para encher o depósito..A Brisa disponibilizou-se para transmitir quais os postos com combustível nas autoestradas. A empresa, além disso, mantém o serviço de assistência em estrada. "Nestas circunstâncias especiais, e enquanto for possível, a Brisa procurará assegurar o socorro que presta aos automobilistas em circunstâncias normais", informou fonte oficial da empresa em declarações ao DN/Dinheiro Vivo..Os efeitos da greve já se estendem aos serviços de transporte, com várias empresas a suprimir carreiras a partir desta quinta-feira. É o caso da maior transportadora rodoviária de passageiros, a Rede Expressos, do Grupo Barraqueiro, que disse nesta tarde no Twitter que "não está em condições" de garantir as ligações para todo o período da Páscoa, a partir de quinta-feira à tarde, inclusive, devido à crise dos combustíveis. Mas que, em todo o caso, as carreiras da madrugada da manhã de dia 18 ainda estão garantidas. A Barraqueiro Transportes, que integra as empresas Ribatejana Verde, Barraqueiro Oeste, Mafrense e Boa Viagem, irá reduzir até 50% as carreiras locais, urbanas e interurbanas do serviço público, garantido apenas as inter-regionais para Lisboa. Também a Rodoviária do Tejo vai suprimir a partir de hoje algumas carreiras fora das horas de maior procura, para tentar assegurar combustível para o transporte escolar na próxima semana, indicaram fontes da empresa. A TST, uma das empresas de autocarros da Margem Sul do Tejo, deixou o aviso de que "os serviços irão sendo progressivamente reduzidos ou suprimidos, à medida que as reservas de combustível da empresa se forem esgotando", tendo ontem já suprimido algumas carreiras..Ao longo do dia, também houve relatos de táxis parados por falta de combustível. A Federação Portuguesa do Táxi anunciou até que vai propor ao governo que os motoristas possam aceder aos depósitos das empresas de transporte como a Carris, em Lisboa, e a STCP, no Porto..Em vésperas de fim de semana festivo, altura em que muitas famílias aproveitam para passar umas miniférias, os hoteleiros também se mostraram preocupados com os impactos da falta de combustível. O representante da AHETA - Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve apela a uma resolução rápida do conflito que está a esgotar o combustível por todo o país e, lembra, o Algarve está cheio de portugueses que se deslocam de carro e que podem começar a desmarcar viagens. De lembrar que os hoteleiros do Algarve já tinham anunciado que esperavam ocupações próximas dos 100% no período da Páscoa. A Associação de Hotéis Rurais de Portugal admitiu que a greve pode levar a 40% de cancelamento de reservas nesta altura.."Devido aos constrangimentos de abastecimento de combustível, o risco de existir uma fuga de turistas para outros destinos é evidente, com prejuízo para as unidades de alojamento turístico e restauração", sublinhou Joaquim Ribeiro, vice-presidente da AHRESP - Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal ao DN/Dinheiro Vivo. "Para além dos eventuais cancelamentos dos turistas, há ainda a considerar as dificuldades que os empresários estão a enfrentar para assegurar o abastecimento de produtos essenciais ao seu negócio, bem como as dificuldades dos trabalhadores para chegar aos seus empregos.".Também as empresas de rent-a-car começaram a sofrer com a greve. Além do cancelamento de reservas, os clientes estão a ter dificuldade em devolver os carros às estações de aluguer..O dia ficou ainda marcado pelas primeiras ruturas na venda de gás engarrafado, registadas pela Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC). Francisco Albuquerque, presidente da associação, mostrou-se preocupado, uma vez que se trata de "um bem de primeira necessidade"..Ao final do dia, o governo anunciou a criação de uma rede com 310 postos prioritários de combustível. O despacho assinado pelos ministros da Administração Interna e do Ambiente e da Transição Energética declara que estes postos da REPA - Rede Energética de Postos de Abastecimento devem reservar para estas entidades dez mil litros de gasóleo ou 20% da sua capacidade, quatro mil litros de gasolina e dois mil litros de GPL..O impasse deu origem a uma nova reunião entre governo e sindicatos, desta vez com o ministro do Trabalho, Vieira da Silva, com vista a chegar a um acordo que coloque fim à greve dos motoristas..Quem são estes motoristas e o que querem.Com apenas cinco meses de existência, o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), estrutura independente da CGTP e da UGT, já conseguiu virar o país de "pernas para o ar", deixando milhares de bombas de abastecimentos sem combustível. Com cerca de mil associados, o SNMMP foca-se nos direitos e na formação dos profissionais que "dão gás" ao país. A greve foi convocada por tempo indeterminado para reivindicar o reconhecimento da categoria profissional específica, uma vez que a profissão obriga a formação ao nível da condução em condições de risco e do manuseamento de matérias perigosas. Até agora estes profissionais são equiparados a motoristas de pesados. Também a revisão dos salários está em causa.