Costa remodela Governo para "tapar" puxão de orelhas de Marcelo

António Costa tirou da cartola uma remodelação governamental, que se concretizará nesta quinta-feira, para atirar para segundo plano o puxão de orelhas que Marcelo já lhe tinha anunciado.

A notícia caiu nas redações por volta das 19.45 desta quarta-feira. O primeiro-ministro decidiu remodelar cinco secretários de Estado e a tomada de posse será já nesta quinta-feira, no Palácio de Belém. Que iria haver uma remodelação de secretários de Estado já se sabia - o rumor circulava.

Mas não se sabia, porém, o dia. António Costa escolheu precisamente aquele para o qual o Presidente lhe preparava um puxão de orelhas por ter aceitado integrar a comissão de honra da recandidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica.

A tomada de posse será às 17.45. Quinze minutos depois, o Presidente da República conversará a sós com o primeiro-ministro na tradicional reunião entre os dois das quintas-feiras. Marcelo já tinha há dias anunciado que queria, nessa reunião, falar com o António Costa sobre a "questão benfiquista".

Também já tinha dito que não aceita o argumento do primeiro-ministro segundo o qual este seu apoio a Vieira foi uma atitude pessoal, enquanto cidadão, não o envolvendo como chefe do Governo. E deixou claro que há "um determinado contexto" que deve ser tido em conta - Vieira é arguido em processos judiciais complexos e, além disso, integra a lista dos grandes devedores do Novo Banco.

"É uma questão concreta, é uma determinada pessoa, exercendo uma determinada função, em relação a um determinado acontecimento desportivo, num determinado momento histórico e num determinado contexto", afirmou, logo no sábado, à margem de uma visita a um lar em Alcoutim.

E mais: dois dias depois, Marcelo fez saber, pelo Observador, que, sendo já Presidente da República, recusou em 2017 integrar a comissão de honra de uma candidatura de António Salvador ao Braga, clube de que é adepto.

Ou seja, estabeleceu o seu próprio comportamento como padrão, censurando assim implicitamente o procedimento em sentido contrário do chefe do Governo.

O "caso" Jamila

A escolha do momento para a remodelação foi mesmo de última hora.

Sinal disso é o facto de as redações terem recebido pelas 11.00 desta quarta-feira um comunicado a anunciar para as 13.30 um briefing da Direção-Geral da Saúde sobre covid-19 com a presença de Jamila Madeira.

Depois o briefing foi adiado para as 17.00 e Jamila não apareceu. Quem apareceu foi, sim, a própria ministra da Saúde, Marta Temido. Jamila tinha sido remodelada - e pelos vistos não foi por sua iniciativa (ao contrário, por exemplo, de Susana Amador, que sai por razões pessoais).

Jamila vai ser substituída por António Sales. No caso de Sales, há uma exoneração (de secretário de Estado da Saúde), mas logo a seguir uma nomeação (para secretário de Estado adjunto e da Saúde). Foi assim promovido a número dois do ministério de Marta Temido.

Deixam o Governo cinco secretários de Estado:

- Jamila Madeira (secretária de Estado adjunta da Saúde);

- Susana Amador (secretária de Estado da Educação);

- Alberto Souto (secretário de Estado adjunto e das Comunicações);

- Ana Pinho (secretária de Estado da Habitação);

- José Apolinário (secretário de Estado das Pescas).

Entram outros cinco:

- Inês Pacheco Ramires Ferreira (secretária de Estado da Educação);

- Diogo Serras Lopes (secretário de Estado da Saúde, ocupando o lugar que era de António Sales),

- Hugo Mendes (secretário de Estado adjunto e das Comunicações);

- Marina Gonçalves (secretária de Estado da Habitação);

- Teresa Coelho (secretária de Estado das Pescas).

A marca essencial do percurso anterior dos novos secretários de Estado é que todos eles já frequentavam gabinetes governamentais, como adjuntos, assessores ou chefes de gabinete.

Esta segunda recomposição do XXII Governo não altera a sua dimensão, assim como a primeira, que aconteceu há três meses, com a substituição de Mário Centeno por João Leão como ministro de Estado e das Finanças e a consequente mudança de três secretários de Estado, que tomaram posse no dia 15 de junho.

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