Armando Vara. O perfil do banqueiro que foi um simples bancário

Como político, fez o seu percurso ao lado de Guterres. Como banqueiro, ao lado de Sócrates. A história do homem de Vinhais que trabalhou numa oficina de automóveis, chegou a vice-presidente do BCP e nesta quarta-feira se apresentou na prisão de Évora

A 21 de dezembro de 2009, Armando Vara saía satisfeito com as declarações que tinha proferido no Tribunal de Aveiro e desejoso de pôr um ponto final no assunto. "Espero que este pesadelo termine hoje." Ao mesmo tempo garantia nunca ter pedido dez ou 25 mil euros a Manuel Godinho para ajudar a abrir portas aos negócios do sucateiro.

"A única coisa que recebi foi uma caixa de robalos e um equipamento desportivo para o meu filho", continuava. O tribunal assim não o entendeu e, em 2014, condenou-o a cinco anos de prisão efetiva. Passaram anos de recursos, mas o pesadelo de Vara concretiza-se agora, com a sua entrada na prisão de Évora, a mesma onde esteve detido José Sócrates, amigo pessoal e companheiro político. Aliás, Vara é também arguido no processo Operação Marquês, que tem como principal suspeito o antigo primeiro-ministro. No âmbito deste processo esteve em prisão domiciliária e viu ser envolvida a sua filha Bárbara Vara, acusada de um crime de branqueamento.

Nasceu há 64 anos em Lagarelhos, uma aldeia do concelho de Vinhais, Bragança. Trabalhou numa oficina de reparação de automóveis e depois como funcionário da CGD. Entrou no PS depois do 25 de Abril, respondendo à admiração que sentia por Mário Soares. Foi subindo até chegar a ministro da Juventude e do Desporto de António Guterres. Sairia da política pela porta pequena mas encontrou uma porta grande para entrar no mundo milionário da banca, onde o longínquo bancário de Bragança se fez banqueiro em Lisboa. Primeiro na administração da CGD e depois na vice-presidência do Millennium bcp.

Colado a Guterres e a Sócrates

A primeira vez que o nome de Armando Vara esteve envolvido em polémica foi em 2000, quando se soube que a Fundação para a Prevenção e Segurança, uma entidade privada criada por si quando foi secretário de Estado da Administração Interna, escapava ao escrutínio público e organizava campanhas de prevenção rodoviária para o Estado. Foi aí que a vida política lhe começou a correr mal.

Jorge Sampaio era então Presidente da República e forçou António Guterres a demitir Vara perante o escândalo nacional. Tinha chegado ao governo em 1995 como secretário de Estado da Administração Interna e quando a polémica rebentou já era ministro da Juventude e do Desporto - o homem de Vinhais, como sempre foi conhecido, subiu na política sempre muito colado a Guterres... e depois na banca colado a Sócrates.

Sampaio - que em 2005 o viria a distinguir com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique por causa do Euro 2004 - fez saber que tinha exigido a cabeça do político de Trás-os-Montes. E Vara saiu do governo (e da política) pela porta pequena. A fundação foi auditada pelo Tribunal de Contas, que detetou transferências do Estado num valor de 380 mil contos (1,9 milhões de euros), sendo usada como um instrumento para contornar a obrigatoriedade de concursos públicos nas adjudicações. Mas o processo acabou por ser arquivado.

Coordenou as autárquicas que derrotaram Guterres

Sai do governo, mas mantém-se um homem forte no PS e é escolhido para coordenador das autárquicas de 2001. As mesmas eleições em que os socialistas foram estrondosamente derrotados - o PS perde as principais câmaras, entre elas Lisboa e Porto - e que levariam à demissão do primeiro-ministro António Guterres e ao regresso da direita ao poder com Durão Barroso.

Em 2006, já então o Partido Socialista tinha regressado ao poder com José Sócrates, Armando Vara, mesmo sem experiência de gestão bancária, é nomeado administrador da Caixa Geral de Depósitos.

A carreira como banqueiro não se ficou por aqui - em 2008 transita para a vice-presidência do Millennium bcp, tendo duplicado o ordenado. As vozes críticas fizeram-se ouvir, mas Sócrates veio a terreiro defendê-lo. "Inveja social", disse.

Vara foi obrigado a sair do maior banco privado português em 2009 quando rebentou o caso Face Oculta, um processo longo na justiça que culminaria com a sua condenação a cinco anos de prisão efetiva por três crimes de tráfico de influência.

Durante a investigação ao processo que envolvia o sucateiro Manuel Godinho, Vara foi apanhado em escutas telefónicas com o ex-primeiro-ministro José Sócrates, de quem era amigo. Aliás, os seus percursos cruzam-se na política, na justiça e até na faculdade. Ambos sobem no PS no tempo de Guterres, ambos surgem no processo Face Oculta, ambos são arguidos na Operação Marquês (que levou à prisão de Sócrates) e ambos tiram as suas licenciaturas na extinta Universidade Independente - Vara tirou um curso de Relações Internacionais e obteve o diploma três dias antes de entrar na administração do banco público. Já tinha frequentado Filosofia na Universidade de Lisboa e tinha uma pós-graduação do ISCTE, mas precisava do canudo para as novas funções.

Rendimentos sobem mais de 1000% em 16 anos

Na banca fez um percurso extraordinário para quem só tinha experiência de caixa. Suspendeu essa carreira em novembro de 2009, renunciando ao cargo no BCP quando foi constituído arguido no processo Face Oculta. Mas ainda assim ganhou quase 900 mil em 2010, ano em que não exerceu funções. E depois uma indemnização de 562 mil euros de indemnização.

No livro Como os Políticos Enriquecem em Portugal, o jornalista António Sérgio Azenha escreve que "a análise comparativa dos ganhos revela que, em apenas 16 anos, o seu rendimento anual aumentou 1282%".

"Passou de uma remuneração do trabalho dependente, juntamente com a sua então mulher, de 59 486 euros, em 1994, para um rendimento individual de 822 193 euros, em 2010", lê-se no livro.

Os processos judiciais interromperam o percurso do homem de Vinhais. Está agora detido em Évora.

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