Insultos a Marega abrem a discussão sobre o racismo no futebol português

Jogador do FC Porto decidiu abandonar o relvado durante o jogo da 21.ª jornada da I Liga devido a insultos racistas vindos das bancadas. Reações já chegaram até do governo.

Moussa Marega abriu a discussão sobre o racismo no futebol português. O maliano decidiu abandonar o jogo entre o FC Porto e o Vit. Guimarães devido a insultos racistas vindos das bancadas e relegou assim para segundo plano o triunfo portista no D. Afonso Henriques, que colocou os portistas a um ponto do líder Benfica.

Como lembrou Sérgio Conceição, no final do jogo, há dias em que o futebol "passa para segundo plano", mesmo que seja por um incidente que envergonha o futebol português e promete correr mundo. "O que tenho a dizer, perdoem-me por eu não falar do jogo, da dinâmica, das substituições... O jogo passa para segundo plano. Estamos completamente indignados com aquilo que se passou. Sei da paixão que existe aqui no Vitória pelo clube e que a maior parte dos adeptos não se revê na atitude de algumas pessoas que estavam hoje na bancada a insultar desde o aquecimento o Moussa [Marega]. Nós somos uma família independentemente da nacionalidade, da cor da pele, da altura, da cor do cabelo. Nós somos uma família. Somos humanos. Merecemos respeito. O que se passou aqui é lamentável. Lamentável", atirou.

O treinador portista foi o rosto e a voz da indignação com a situação sofrida pelo maliano, que até já foi jogador do Vit. Guimarães em 2016-17. O caso aconteceu aos 71 minutos de jogo. Logo depois de Marega marcar e fazer o 2-1, que daria o triunfo aos dragões, o maliano pediu a substituição. Até aqui tudo normal, não fosse o motivo que o levou a sair pelo próprio pé de um jogo em que estava a ser alvo de insultos racistas "desde o aquecimento", segundo o treinador. Choveram cadeiras e cânticos contra o maliano, que ficou de cabeça a ferver. Segundo fonte portista citada pelo jornal O Jogo, os insultos variaram desde "macaco" e "preto" a "chimpanzé". A situação piorou logo após marcar o golo e levou o avançado a abandonar o relvado. Os colegas de equipa, bem com os jogadores vimaranenses, tentaram demovê-lo. Sérgio Conceição também o tentou convencer a ficar em campo, mas ninguém o conseguiu demover.

Marega rumou aos balneários de cabeça perdida. E foi ainda a quente que reagiu nas redes sociais e com uma mensagem sugestiva. "Vão-se foder racistas", escreveu no Instagram. O jogador chamou ainda os adeptos de "idiotas" e contestou o comportamento da equipa de arbitragem liderada por Luís Godinho. "E também agradeço aos árbitros por não me defenderem e por me terem dado um cartão amarelo porque defendo a minha cor de pele. Espero nunca mais encontrá-lo num campo de futebol! Você é uma vergonha!", escreveu o maliano.

Isto porque Godinho não interrompeu o jogo, como mandam as regras da UEFA e da FIFA em questões de racismo. "Se o árbitro se aperceber de algum comportamento racista, ou for informado disso pelo quarto árbitro, deverá interromper o jogo. Nessa altura solicitará que seja feito um anúncio pela instalação sonora pedindo aos espectadores para pararem imediatamente com todos os comportamentos racistas. Se o comportamento racista não terminar após o reinício do jogo, o árbitro suspenderá o encontro por um período razoável de tempo, por exemplo de cinco a dez minutos, e pedirá às equipas para regressarem aos balneários. Será feito um novo anúncio pela instalação sonora do estádio. Como último recurso, se o comportamento racista continuar após o segundo reinício, o árbitro poderá dar definitivamente o jogo por terminado."

Nada disto aconteceu em Guimarães. Ou o árbitro não ouviu nada de anormal ou não considerou ser suficiente para interromper a partida. O país fica assim na expectativa de saber se Luís Godinho menciona os incidentes no relatório do jogo. Se o fizer, o clube vimaranense arrisca uma multa pesada e um castigo até três jogos à porta fechada, caso seja condenado. Eis o que diz o artigo 113.º dos Regulamentos da Liga, relativo a comportamentos discriminatórios em função da raça, religião ou ideologia: "Os clubes que promovam, consintam ou tolerem a exibição de faixas, o cântico de slogans racistas ou, em geral, com quaisquer comportamentos que atentem contra a dignidade humana em função da raça, língua, religião ou origem étnica serão punidos com a sanção de realização de jogos à porta fechada a fixar entre o mínimo de um e o máximo de três jogos e, acessoriamente, com a sanção de multa de montante a fixar entre o mínimo de 200 UC e máximo de 1000 UC."

O presidente do Vit. Guimarães, presente no estádio, disse no final do encontro que não se apercebeu da situação. "Não me apercebi de insultos racistas, apercebi-me de atitude provocatória de um atleta para a bancada. Vamos apurar se houve esses comportamentos. Se houve, vamos atuar. O caso não é inédito. O atleta já foi jogador do Vitória e também já quis abandonar uma partida e não teve nada que ver com questões de racismo. Tem que ver com o seu perfil", disse Miguel Pinto Lisboa, prometendo "tomar medidas" se algum dos adeptos do clube estiver envolvido.

Mas se depender dos dragões o caso não vai ficar por aqui. Depois de considerar os acontecimentos de Guimarães como um "dos momentos baixos da história recente do futebol português", o FC Porto pediu em comunicado que sejam "devidamente penalizados". O clube azul e branco garantiu ainda que "toda a estrutura do FC Porto e os seus adeptos estão solidários com Moussa Marega, que foi levado a tomar uma atitude drástica na sequência de insultos racistas reiterados". E que "manter-se-á na linha da frente da luta contra o racismo e os crimes de ódio", dentro e fora de campo.

Caso chegou à política...

Para o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) é "grave e condenável" assistir a insultos racistas num jogo de futebol. "Os comportamentos racistas são intoleráveis numa sociedade aberta e evoluída", refere em comunicado Fernando Gomes, considerando que nenhum cidadão se pode rever "e muito menos pactuar com atitudes racistas e xenófobas". E que "os autores de insultos racistas devem ser identificados e levados perante a justiça", pois ele, "enquanto presidente da FPF, tudo fará "para que os adeptos que não respeitam o futebol fiquem definitivamente à porta dos estádios".

Já a Liga liderada por Pedro Proença lamentou o incidente com o avançado maliano do FC Porto em Guimarães, salientando que os atos de racismo "envergonham o futebol e a dignidade humana", defendendo a punição destes. "Os valores do futebol não são compatíveis com o que se passou na noite de hoje no estádio do Vitória Sport Clube, onde um atleta não suportou mais os insultos de que estava a ser alvo e optou por abandonar o jogo. Estes atos envergonham o futebol e a dignidade humana", lê-se no comunicado da LPFP, lembrando que tudo fará "para que este e todos os episódios de racismo não fiquem impunes".

O secretário de Estado da Juventude e Desporto considerou o incidente "intolerável é inaceitável", assegurando que as autoridades estão a identificar os responsáveis, a fim de serem punidos. "Os insultos dirigidos ao jogador Marega envergonham todos quantos pugnam por uma sociedade inclusiva. Os valores do desporto nada têm que ver com estas atitudes racistas, xenófobas e ignóbeis", começou por dizer João Paulo Rebelo, em declarações à agência Lusa, assegurando o empenho das autoridades para a identificação e punição dos responsáveis por estes atos.

"A Autoridade para Prevenção e o Combate à Violência no Desporto está desde já a trabalhar em articulação com as autoridades policiais e desportivas no sentido de identificar e punir exemplarmente os responsáveis deste triste episódio que enche de vergonha todos quantos lutam por uma sociedade mais tolerante. Todos os agentes desportivos e, em particular, os seus dirigentes além do repúdio têm de atuar de forma a que isto não se repita", frisou o governante, enaltecendo a "atitude de grande dignidade" do avançado portista.

Já a líder do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, recorreu ao Twitter para lembrar que "racismo não é opinião, é crime". "Não sigo futebol, não tenho clube e raramente acompanho o que se passa nos jogos. Mas hoje adepta de Marega me confesso. Racismo não é opinião. É crime", lê-se numa publicação.

Presidente da República e primeiro-ministro condenam insultos

"A Constituição da República Portuguesa é muito clara na condenação do racismo, assim como de outras formas de xenofobia e discriminação, e o povo português sabe, até por experiência histórica, que o caminho do racismo, da xenofobia, e da discriminação, além de representar a violação da dignidade da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais, é um caminho dramático em termos de cultura, civilização e de paz social", considerou Marcelo Rebelo de Sousa, numa declaração à agência Lusa, já esta segunda-feira.

O Presidente da República sublinhou que só pode "condenar, como sempre, veementemente, todas as manifestações racistas, quaisquer que sejam".

Na declaração à Lusa no Dubai, no regresso a Lisboa da visita que fez à Índia, Marcelo Rebelo de Sousa apelou ainda "à ética, ao sentido cívico e ao bom senso, para que se evitem em Portugal escaladas que violem valores básicos da nossa comunidade e só possam contribuir para a divisão fratricida entre os portugueses",

Também o primeiro-ministro manifestou esta segunda-feira "total solidariedade" com o "grande cidadão" e jogador do FC Porto Marega, que no domingo foi vítima de insultos racistas, e salientou que todos os atos de racismo são crime e intoleráveis.

"Todos e quaisquer atos de racismo são crime e intoleráveis. Nenhum ser humano deve ser sujeito a esta humilhação. Ninguém pode ficar indiferente. Condeno todos e quaisquer atos de racismo, em quaisquer circunstâncias", escreveu António Costa na sua conta pessoal na rede social Twitter.

Em relação ao avançado maliano do FC Porto, o primeiro-ministro manifestou-lhe "total solidariedade", considerando que Marega provou no campo de jogo "ser não só um grande jogador, mas também um grande cidadão".

Jogadores ao lado de jogador

Ainda durante o jogo começaram a chover nas redes sociais mensagens de apoio ao portista por parte de jogadores. Martial (jogador do Manchester United), Felipe (ex-FC Porto); Abdul Waris (ex-FC Porto), Olíver Torres (ex- FC Porto), Gonçalo Paciência (ex- FC Porto), Ghislain Konan, Pepe (FC Porto) e Alex Telles (FC Porto), Soares (FC Porto), Marchesín (FC Porto), Manafá (FC Porto), Bolasie (Sporting), Coates (Sporting) e Silas (Sporting) foram alguns deles.

Clubes como o Sp. Braga, o Rio Ave e o Sporting também se solidarizaram com o jogador e repudiaram o racismo. O Benfica publicou no Twitter um vídeo que antecedeu com a mensagem "Sempre contra o racismo. Em todos os momentos em que ele se revele".

O abandono de campo de Marega é uma vergonha para o futebol português e marcou um jogo interessante entre duas boas equipas no D. Afonso Henriques, que relançou o campeonato.

O caso Renato Sanches

Em Portugal, este tipo de incidentes não é habitual. O último caso ocorreu em 2017, quando o Conselho de Disciplina da Federação condenou o Rio Ave ao pagamento de 536 euros de multa pelos cânticos racistas proferidos pelos seus adeptos contra Renato Sanches, que na altura jogava no Benfica. Antes disso, o Leixões jogou um jogo à porta fechada com o Desp. Aves depois de ter sido condenado por comportamento racista dos seus adeptos.

Marega junta-se a uma longa lista de futebolistas que já se viram envolvidos em episódios racistas ao longo dos anos. Esta época tem sido marcada por constantes episódios do género, principalmente em Itália. Jogadores como Romelu Lukaku, Franck Kessie, Dalbert Henrique, Miralem Pjanic, Ronaldo Vieira, Kalidou Koulibaly ou Mario Balotelli sofreram na pele a ira verbal de alguns adeptos. Tanto que a liga italiana anunciou que pretendia identificar os autores e bani-los dos estádios. Para isso implementou já um sistema de segurança antirracismo. Trata-se da incorporação de câmaras de vigilância nos coletes dos stewards (prestadores privados de serviços de segurança em recintos desportivos) para prevenir incidentes e identificar prevaricadores.

As seleções de futebol da Roménia, da Hungria e da Eslováquia e da Bulgária já disputaram jogos à porta fechada devido a "comportamentos racistas dos adeptos". Tal como a Sérvia, por manifestações racistas na partida com Portugal.

Um dos castigos mais duros em casos similares ao de Marega aconteceu no Brasil em 2014, quando o Grémio de Porto Alegre foi excluído da Taça do Brasil devido a insultos racistas proferidos por adeptos contra um jogador adversário.

Claque contra o "estarolismo-mor"

Os White Angels, claque do Vit. Guimarães, reagiu em comunicado. "Esta foi feita, como sempre, por brancos e pretos. Foi feita com o amor que temos pelo nosso Vitória. Um amor "racista" pois só aceitamos ser branco e preto. Venham de lá as multas e as interdições. Venham lá fazer de nós exemplo... único. Castiguem quem ousa não ser seguidor do "estarolismo-mor". Arranjem de tudo como é costume: desde insultamos a própria cidade, até ao facto de sermos insultados por um preto, mas o racismo só existir quando nós os insultamos... Nada nos afeta nem nunca afetará", pode ler-se no Facebook, lamentando a atitude de Marega, a quem acusaram de ser ele próprio um "racista".

[Notícia atualizada com declarações do Presidente da República e do primeiro-ministro]

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