Premium "Portugal deveria ser o campeão do federalismo europeu"

Grande pensador sobre o que deve ser a União Europeia, Viriato Soromenho-Marques lamenta que Merkel não tenha tornado a crise uma oportunidade de transformação estrutural e diz-se profundamente desiludido com Macron.

O seu mais recente livro tem como título Depois da Queda e fala da União Europeia entre o reerguer e a fragmentação. Que queda é esta? Uma crise existencial, agravada pelo Brexit?
A "queda" de que falo está bem visível não apenas no Brexit. Vejam-se todos os sinais de estiolamento de valores fundamentais da construção europeia, como é o caso da democracia representativa e dos direitos humanos, ameaçados por governos iliberais, como ocorre com os países de Visegrado e agora com Roma. Ou a erosão de Schengen, com o reabrir de controlos fronteiriços em muitos locais, o desencantamento popular em relação à UE, a desaceleração e cancelamento da entrada de novos países no euro, a paralisia de muito investimento privado, devido às incertezas no futuro. A minha tese central é a de que a UE vive desde 2009 num regime de "agonia lenta", criando falsas terapias para problemas mal diagnosticados. A "queda" de que falo consiste na inevitável aproximação de um momento crucial, num horizonte temporal imprevisível, em que ou o projeto europeu tem uma cura de verdade, e se reergue oferecendo esperança e ganhando o apoio dos cidadãos, ou, debaixo da ausência de respostas à próxima crise, corremos o risco de uma reação em cadeia no sentido da fragmentação, com consequências que ninguém pode antecipar com rigor...

Mas o que seria essa "cura de verdade" que faz falta à UE?
Trata-se de compreender que existe uma diferença entre os sintomas da doença e a sua causa profunda. Durante anos falou-se da "crise das dívidas soberanas" quando, na verdade, o aumento da dívida pública resultou, em grande medida, dos empréstimos de emergência dos Estados aos seus bancos para evitarem um meltdown do sistema financeiro. Mas o próprio impacto na banca europeia da crise sistémica iniciada nos EUA em 2008 também só foi possível devido à patologia profunda de que sofre o projeto europeu: as deficiências genéticas do desenho e da estrutura da zona euro, desde o seu início em Maastricht [1992]. A cura de verdade de que falo significa que para sobreviver a UE tem de fazer uma reforma profunda da zona euro, que constitui o seu núcleo vital.

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