Premium O professor português que pode ganhar um milhão de euros

Desistiu de ser professor universitário para dar aulas no ensino secundário. Os amigos achavam que ele tinha enlouquecido. Jorge Teixeira conta como põe alunos a gostar de ciência. E de como pode vir a ganhar o "Nobel da Educação"

Estamos em 1993. Recém-licenciado em Engenharia, pela Universidade de Coimbra, Jorge Teixeira recebe o convite para ser professor assistente na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). É um sonho para qualquer recém-diplomado. Mas não lhe basta. "Decidi que queria ser professor do secundário e inscrevi-me novamente na universidade para tirar o curso", conta. "Os meus colegas diziam que não estava bom da cabeça. Quem é que sai de professor universitário para ir tirar o curso de professor do secundário?"

Mas assim fez. Entre 1993-94 e 1996-97, ao mesmo tempo que tirava o segundo curso, continuou a dar aulas na UTAD. Quando recebeu o diploma de Física, no ramo educacional (ainda faria um mestrado, no ano 2000), pediu a rescisão do contrato com a universidade. E voltou a ver o seu discernimento ser posto em causa pelos colegas. "Já estava a ganhar como assistente universitário e fui ganhar como estagiário no ensino secundário."

Saltamos pouco mais de duas décadas para a frente. Aos 49 anos, continua a não ganhar o que provavelmente ganharia se tivesse perseguido uma carreira académica. Mas é um homem realizado. Casado, tem dois filhos: "Uma a acabar o curso de Direito e o outro no 11.º ano, que vai fazer neste ano o exame nacional de Física." Sem direito a acompanhamento especial: "Prefiro ser mais pai do que explicador mas, de vez em quando, tiro umas dúvidas", assume. Mora em Chaves, onde nasceu, dá aulas na cidade, na Escola Secundária Doutor Júlio Martins, e até mantém uma ligação à UTAD, colaborando com o Laboratório de Didática de Ciências e Tecnologia desta universidade.

Se a história ficasse por aqui, o seu percurso já seria invulgar, ainda que provavelmente desconhecido de quem não fosse familiar, amigo, ou se tivesse cruzado com ele como colega ou aluno. Seria apenas mais um daqueles professores, que não são assim tão raros, que ensinam com dedicação e por vocação. E é aliás assim que se vê: "Não sou melhor do que os outros. Para mim é muito importante que isso fique claro", frisa.

Mas, sendo ou não melhor, Jorge Teixeira deu nas vistas. E não foi só por ter conseguido a proeza de ser popular a lecionar uma das mais temidas disciplinas do secundário: a Física e Química. Ou, pensando bem, talvez tenha tido tudo que ver com isso. É que, há 12 anos, ainda na Secundária Fernão de Magalhães, da mesma cidade, decidiu fundar um Clube do Ensino Experimental das Ciências (CEEC) para dar aos alunos, fora do horário letivo e com informalidade, a oportunidade de perceberem que a ciência é divertida.

"Muitas vezes a ciência [que está nos programas] não tem nada que ver com o interesse dos alunos. Os alunos não têm tempo para assimilar aqueles conteúdos todos", considera. "E é uma ciência um pouco desumanizada para determinados alunos, porque não considera o diferente desenvolvimento intelectual dos estudantes naquele momento. Há alunos que conseguem logo trabalhar muito bem. Outros, é preciso esperar que eles cresçam. A minha luta é a motivação dos alunos", resume. "Se eles estiverem motivados, o rendimento é melhor."

Com o CEEC, projeto que levou consigo para a nova escola - neste ano os seus alunos estão a trabalhar num sistema que aproveita a humidade do ar para regar as plantas -, a luta começou a ser ganha. E com essa vitória veio o reconhecimento público. Em junho deste ano, o júri da primeira edição portuguesa do Global Teacher Prize considerou que "a articulação do ensino formal com as atividades do CEEC mostra, inequivocamente, que há uma melhoria significativa de progresso e aprendizagem dos alunos". E deu-lhe o primeiro lugar entre os docentes nacionais. Nesta quinta-feira, ficou a saber que está também entre os 50 selecionados para ganhar o prémio mundial, o que, a acontecer, representaria um cheque de um milhão de euros para investir em projetos educativos.

Jorge Teixeira garante que não tem perdido sono a pensar nessa possibilidade. "A expectativa é continuar a fazer a mesma coisa que fazia até agora. Não vivo em função do prémio, vivo em função dos alunos e do sucesso deles", garante. Além disso, confessa, chegar até aqui "já foi difícil e mais difícil será". Até porque tem dificuldade em imaginar o que, na cabeça do júri, poderá fazer a diferença no fim. "Todos os restantes colegas serão excelentes professores. O melhor não existe. É uma utopia. A partir daqui, não penso se fico nos dez melhores, se não fico..."

Mas admite que pensa no que faria com o prémio. Até porque já meteu mãos à obra com os cerca de 30 mil euros que recebeu pela distinção nacional. "Estou a começar a desenvolver um centro de recursos de atividades laboratoriais móveis, que vai constar de um conjunto de experiências feitas no clube, para as atividades da escola, que esperamos poder depois levar a escolas remotas, apresentar em feiras de ciência, levar a ciência onde esta não existia", conta.

O projeto, com três anos de duração prevista, conta com o apoio da UTAD, da Câmara de Chaves e de "várias empresas". Além de kits laboratoriais - "neste momento, por exemplo, estamos a desenvolver um que tem que ver com a eletricidade" -, para apresentar a outros estudantes, implicará uma programação que permita que "as atividades sejam interessantes, sempre com algum grau de originalidade".

Caso chegue o prémio de um milhão de euros, o objetivo passará sempre por fazer crescer esta ideia. A nível nacional e até internacional. "Na candidatura, uma das hipóteses referidas é estender mais este clube a nível nacional, estender este tipo de metodologia, ainda que recentemente o Ciência Viva também tenha começado a fazer isso", lembra. "Mas há muitas ideias a explorar: arranjar parcerias, oferecer os kits e dar formação a escolas de zonas mais remotas. Ter estes clubes a apadrinharem outros clubes de uma escola estrangeira, a começar pelos países africanos de língua oficial portuguesa. Talvez mesmo, a um terceiro nível, criar uma rede de clubes europeus em que cada clube apadrinhasse, por exemplo, uma escola do terceiro mundo."

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