Na terra do ministro, regresso às aulas com dúvidas e fita métrica na mão

Na capital do Minho, pais sem informação ficam mais alarmados. Escolas tentam lidar com as alterações necessárias e que a covid-19 rapidamente muda de direção. A aventura de rever os amigos sob fortes medidas de proteção pode acabar a qualquer momento para voltar a casa, ao confinamento do nosso descontentamento.

O regresso às aulas é uma festa. As crianças anseiam por rever os amigos, os pais por encontrar um equilíbrio na rotina do quotidiano após três longos meses de férias. Isto quando o mundo enfrenta um dos piores inimigos da alegria como a pandemia de covid-19. Em Braga, onde nasceu (e fez uma parte dos estudos) o ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues, os pais estão ansiosos, os miúdos, esponjas de sensibilidades e estados de espírito, pressentem-no, e as escolas, regra geral, estão a lidar com a invisível roda-viva das diretrizes que o vírus dita a cada dia, ou hora. Na quinta-feira (17 de setembro) arranca o ano letivo 2020-21 e há muitos planos e incertezas. A "festa" durará quanto tempo?

"Sei que tenho o meu lugar na sociedade, mas considero-me uma pessoa informada e com acesso a informação como poucos pais. E hoje [segunda-feira, 14 de setembro], a três dias do arranque das aulas, sei o horário, porque no 1.º ciclo é das 09.00 às 17.00, embora haja exceções como das 08.45 às 16.45, mas não sei mais nada. Nem planos de contingência nem regras, nada. E digo-o despindo os meus papéis nas instituições que ocupo na comunidade e falando como mãe. Acho que deveria ter mais informação", conta ao DN Carla Silva, mãe de um rapaz de 7 anos que vai para o 2.º ano, mas também representante dos pais da turma do filho, diretora da associação de pais da escola onde este estuda ("prefiro não dizer qual é") e, razão principal pela qual foi abordada nesta reportagem, membro da direção da Federação das Associações de Pais (FAP) de Braga - organicamente, entronca na CONFAP - Confederação das Associações de Pais, que se senta à mesa com o Ministério da Educação (ME) na discussão dos grandes temas do setor.

Ciente destas preocupações, mas mantendo o espírito combativo para o que der e vier, e espera-se de tudo e mais alguma coisa neste primeiro ano de corpo inteiro da covid-19, está João Dantas, diretor do Dona Maria, como é familiarmente tratado na cidade.

O diretor do Agrupamento Escolar D. Maria II anda de fita métrica na mão a falar de contraturnos, bolhas de segurança e centímetros - porque se há algo que funciona na prevenção contra a infeção de covid-19 é o distanciamento. E todos os centímetros contam, mesmo que as escolas sejam as mesmas que são apresentadas como emblemas do ensino no último meio século, em que Portugal viveu sob o Estado Novo e em democracia. "A história do D. Maria II está assim intimamente ligada à história dos últimos 50 anos do sistema educativo português, com três etapas: a primeira, marcada pelo Estado Novo, em que a referência era o "liceu"; a segunda, acompanhando toda a evolução da transformação democrática iniciada em abril de 1974, abrindo-se a novos públicos e a novas ofertas; a terceira, que coincide com a entrada em funcionamento das novas instalações, em consequência da profunda requalificação levada a cabo pela Parque Escolar", pode ler-se no site do agrupamento sobre o Dona Maria, fundado em 1964 com o liceu feminino, que Veiga Simão estendeu a frequência mista em 1973 (na designação binária feminino e masculino, pelo menos).

"Aqui, na secundária, existe outro problema. O contraturno. Temos um grande bloco de manhã e um tempo de tarde. Ou seja, dos seis tempos [aulas] diários, cinco de manhã e um de tarde. E esse será para educação física, que será o grande calcanhar de Aquiles, por causa dos balneários. É impossível que 14 alunos tomem banho em simultâneo, pelo rácio, apenas poderão três", partilha o professor em funções de gestão administrativa no "liceu" homónimo no centro de Braga, correndo a Rua 25 de Abril defronte das duas portas de entrada do liceu (3.º ciclo e secundário, portanto, turmas do 7.º ao 12.º anos), que depois desemboca na Rua Beato Miguel de Carvalho, onde uns 1500 metros adiante se encontra a Escola Secundária de Carlos Amarante, onde Tiago Brandão Rodrigues, nascido em Braga em 1977, fez o secundário.

"A nossa esperança é que como temos semanalmente 30 tempos de manhã e dois de tarde, os alunos possam ir tomar banho a casa", diz, mostrando que todo o plano de contingência e as regras de convivência estão a ser trabalhadas como num estaleiro crítico: com um projeto a ser alterado pela vida invisível, e suas consequências, do vírus. Mas o espírito de João Dantas está no modo de fazer "das tripas, coração" - como o Presidente da República desejou que os atores do ensino abordassem este ano letivo.

"A cantina", prossegue, "é outro ponto crítico, mas menos. Reduzimos para um terço a capacidade e haverá menos alunos a almoçar. A expectativa é que o número de alunos seja menor. Está previsto um serviço de take-away [entrega de refeições], mas não tenho grandes expectativas. Os miúdos vão sair das aulas e levar a comida para casa e chegará fria. Hoje [segunda-feira], informaram-me que têm de trazer um saco térmico. Não me parece [viável]", continua, antes de fazer uma visita guiada pelo espaço.

Com capacidade para servir 164 alunos, o plano estava a meio da tarde traçado para um máximo de 42: "Desta forma, conseguimos ter uma distância de 1,2 metros entre alunos, eliminando as mesas de quatro [dois a dois de frente]", explica, quando uma assistente operacional com mais de 25 anos de casa aparece para dar e receber informações, explicando como e por que razão alinhou os lugares em sete filas de até sete lugares.

À medida que a reportagem do DN ia acompanhando a visita, iam surgindo novas perguntas. "Professor, e este espaço do aluno [sala de recreação]?" "Pois, vamos ter de pensar numa forma de alinhar essa sala e as outras. Quando chover, para onde vão os alunos?", questiona-se.

Quanto às salas de aulas, "não há milagres" e é uma "situação quase parada" a três dias do arranque oficial - dia 17 em todo o agrupamento Dona Maria e na generalidade das escolas públicas do concelho de Braga. "Temos turmas com 28 alunos e com 24. E a manta não estica. Pelas contas que tenho feito, pode conseguir-se um distanciamento físico de 1,2 metros ou de pelo menos 80 centímetros", diz.

A linha vermelha e a origem do vírus

Até aqui, falou-se da secundária, mas o agrupamento estica-se por mais sete escolas básicas e dois jardins-de-infância, numa zona mais central da cidade ou em franjas que aí desembocam. São cerca de 3200 alunos, com quase metade (1500) na Secundária (Dona Maria).

"Nas outras escolas, as carteiras são duplas e com muitos alunos. Resolvemos criar uma barreira psicológica. Quer ver?", e mostra imagens de carteira de dois lugares com uma linha colorida a dividir o espaço, como as linhas invisíveis que quem passou por esta tipologia escolar conhece bem. A pequena luta pelo território entre colegas de carteira e ritos associados aos estados emocionais da relação - mais ou menos possessiva consoante o entendimento entre os parceiros. "É, vai dar para alguma diversão", consente com humor o professor.

E prossegue no processo de planeamento em curso. "Os bares para alunos e professores estarão fechados e as máquinas de vending desligadas. Temos falta de assistentes operacionais e precisamos deles no acompanhamento, gestão, limpeza e desinfeção de espaços e materiais", junta João Dantas.

"E não sabemos as surpresas que teremos com atestados de assistentes e professores", desabafa. Nem de propósito: na preparação desta reportagem, o DN falou com alguns professores de escolas de Braga e pelo menos um, sob anonimato, admitiu que estará de atestado por não querer colocar em risco a família, os filhos e os alunos - nessa situação, serão pagos integralmente nos primeiros 30 dias.

Voltando aos preciosos assistentes operacionais. "O Ministério da Educação deu-nos mais um e precisávamos de cinco [no D. Maria]. No ensino básico, tratamos com a Câmara Municipal de Braga e ontem [domingo] fizemos prova de conhecimentos com mil candidatos. Se tudo correr bem, só em dezembro estará concluído o concurso", pontuou.

E estabeleceu uma linha vermelha. "Estamos a instalar videoporteiro através de contratação pública. E esse será o alerta, a linha vermelha. Quando tivermos de retirar o porteiro para outras funções...", sugere, e é fácil de inferir, já que a escola estará numa situação de pré-rutura.

Voltando ao tom de otimismo e pedagogia, João Dantas insiste na "grande mensagem, assente em três pilares: distanciamento social; uso da máscara; e higiene". Máscaras que, por sinal, só no D. Maria II, custaram 11 mil euros ao orçamento da escola, valor integralmente financiado pelo ME.

Depois, quando os casos começarem a surgir - "todos vamos ter alunos infetados, alguns se calhar assintomáticos" -, competirá ao delegado de saúde de Braga a definição do modo de atuação, se são retirados grupos de alunos, turmas, etc.

"Há uma estratégia para tentar ver se é possível perceber a origem do vírus. Todas as mesas estão numeradas numa planta e depois o professor e a escola tentarão chegar à fonte de contágio. Não digo ao aluno, mas à zona de onde emanou o contágio", explica o diretor do Agrupamento Escolar Dona Maria II.

"Temos uma grande novidade face ao plano de contingência anterior [para os alunos dos 11.º e 12.º anos, nas semanas finais do ano letivo anterior]. Era um adulto que tinha de acompanhar o aluno sob suspeita de contágio, agora a Direção-Geral da Saúde diz que terá de ser o encarregado de educação", comunica. Mas adianta: "Sabemos que nem sempre vai ser possível contactar o encarregado de educação, teremos talvez de lhe pedir permissão para contactar diretamente a linha SNS 24."

Há algo que é imutável, desde março: sabe-se que o vírus está longe de estar afastado e muito menos derrotado. No ensino privado, por exemplo, que arrancou com o ano letivo mais cedo, já houve ordens das autoridades sanitárias e de saúde para que dezenas de turmas regressassem ao confinamento. João Dantas diz que isso é um resultado previsível e até tenta fazer pedagogia a defender a sua dama - o ensino público. "Por um lado, foi bom que o ensino privado tivesse começado com as aulas primeiro. É uma inevitabilidade [o contágio e o recolher a casa de turmas]. Pelo menos não vão dizer que o ensino público faz as coisas todas mal", sugere na linha com "a inevitabilidade". Ou seja, os casos vão aparecer, é preciso que a comunidade escolar esteja preparada - escolas, professores, pais e alunos, além da DGS e do Minist´erio da Educaç~ao.

Pais querem mais informação

"Braga tem, a nível de escolas públicas, 12 agrupamentos escolares. Cada um varia na dimensão, mas em média tem sete ou oito escolas. Mas há com cinco", mapeia Carla Silva, da direção da FAP de Braga.

"De jardins-de-infância ao secundário, por isso as preocupações são diferentes", assegura, mas garante que a maior de todas, a três dias do arranque do ano letivo, é a falta de informação e o ruído no espaço mediático.

"Vamos ao Ministério da Educação e à Direção-Geral da Saúde e dizem que vai acontecer algo, mas até efetivamente acontecer é criada confusão pela leviandade de mensagens públicas, que interferem com pessoas como diretores das escolas. Se hoje é uma coisa, amanhã é outra. As associações de pais trabalham com as direções das escolas e estas não têm informação clara", explica.

"Até hoje, não foram enviados planos de contingência, esquemas de intervalos, como se vai usar a máscara, como vão proceder os assistentes operacionais. Nenhum início de ano letivo é fácil, com a covid-19 torna-se mais complicado. Já passou essa fase de vai ficar tudo bem. Sim, vai ficar tudo bem, mas vai demorar a chegar aí", diz a dirigente associativa e federativa de representação de pais.

"Estamos a reagir e não a prevenir. As direções de escolas e de agrupamentos não têm todas as respostas, o ministério e a DGS não têm todas as informações. Por isso, é preciso incluir os pais, não basta dizer que vão ser ouvidos ou que foram chamados a reuniões. Estou a falar de envolvimento dos pais a nível da comunidade escolar de cada realidade para ajustar os planos e as estratégias", acrescenta Carla Silva.

"Como é que vai ser com os ajuntamentos de miúdos no início? E com os assistentes operacionais? Se a Segurança Social está a recrutar mais pessoas entre estes profissionais, que saem das escolas, haverá falta de pessoal?", questiona a diretora da FAP de Braga.

"Não pomos em causa que se está a trabalhar com seriedade e com empenho. Mas sobram dúvidas, na falta de informação. O ensino tem de ser presencial e não online. E quando os miúdos tiverem de ir para casa doentes?", prossegue no caderno de dúvidas que engrossa no capítulo emocional e da saúde mental.

"Não podemos nunca é deixar que depois sejam as crianças a ficar com o peso de tomar determinadas decisões que devem ser tomadas por adultos. A saúde mental dos miúdos preocupa-me. Tenho uma amiga psicóloga, que acompanha muitos miúdos, e que me diz que nunca houve tantos miúdos aterrorizados com o amanhã, a entrar em depressão. Estamos a falar de jovens na pré-adolescência e mais velhos", desabafa.

"Pais com menos informação imagino que estejam alarmados. Espetacular era ter essa informação, para estarem mais tranquilos e sossegarem os miúdos, que sentem isso tudo [medos e inseguranças]", prossegue.

"Dezenas de turmas mandadas para casa? Vai acontecer, é normal. Isso até nos tranquiliza [porque seguem o protocolo]. Mas o que vai acontecer à comunidade: vai a turma, vai um miúdo? E como fica a situação laboral dos pais ou encarregados? Queremos essa informação", reclama Carla Silva.

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