Ao major-general Carlos Branco, autor de um livro sobre o fracasso do Ocidente no Afeganistão, pergunto hoje, no DN, se, depois do regresso dos talibãs ao poder, as mortes do comando João Roma Pereira e do paraquedista Sérgio Pedrosa foram para nada. A resposta do militar, agora académico, é esclarecedora: "Tenho dificuldade em afirmar que tenham morrido em vão. Antes de estarem ao serviço da ISAF encontravam-se ao serviço da política externa portuguesa. Eram instrumentos dessa política. Como membros das Forças Armadas nacionais naquele conflito, faziam parte do esforço de afirmação de Portugal no seio da Aliança Atlântica, resultante do dever de solidariedade a que Portugal se encontra obrigado como membro da NATO. A morte de soldados portugueses em operações internacionais no Afeganistão e em outros teatros de operações é o preço indesejado que por vezes se tem de pagar para que o país seja considerado e respeitado pelos seus pares.".Cito aqui Carlos Branco pela coincidência do lançamento de Afeganistão - Episódios de Uma Guerra Perdida, mas também por a sua carreira o ter levado a alguns dos tais teatros de operações em que têm estado envolvidos portugueses nas últimas três décadas, seja o Afeganistão, seja a antiga Jugoslávia, onde esteve como observador militar das Nações Unidas, e até a República Centro-Africana..Como repórter do DN, estive com militares portugueses na Bósnia e também no Afeganistão, onde acompanhei uma patrulha dos comandos em Cabul, na qual seguia, num dos blindados, João Roma Pereira, que morreria dias depois por causa de uma mina. O próprio sargento que liderava a viatura militar onde eu e o fotojornalista Leonardo Negrão seguíamos, Carlos Barry, seria, tempos depois, também ferido. Ou seja, nenhum dos teatros de operações deixa de ser um teatro de guerra, com riscos para quem para lá é enviado, mesmo que o objetivo seja a paz..Ninguém duvida de que a República Centro-Africana - que caiu no caos em 2013 e tarda em recuperar de uma guerra civil que de confronto entre grupos muçulmanos e cristãos passou a ser uma espécie de luta de gangues - é um desses teatros de guerra, onde os militares portugueses correm grandes riscos para, sob mandato da ONU, proteger os civis de quem abusa por ter uma arma nas mãos. E, independentemente da necessidade de se levar até ao fim a investigação sobre o envolvimento de elementos do contingente no tráfico de diamantes, esse caso, por escandaloso que possa ser, não deve pôr em causa o valor de quem parte para a República Centro-Africana em nome de Portugal. Aliás, resolvê-lo, com consequências para eventuais culpados, é importante para o prestígio da bandeira..Fiz nos últimos anos algumas entrevistas onde se abordou o desempenho dos militares portugueses na República Centro-Africana e as frases que cito não perderam atualidade e já explico porquê: "Os nossos militares lá fora são considerados dos melhores, chamam-lhes Ronaldos", afirmou o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, em setembro de 2019. "Os militares de Portugal na República Centro-Africana fazem a diferença no terreno", garantiu Mankeur Ndiaye, representante da ONU na República Centro-Africana, em janeiro de 2020, numa visita a Lisboa, "Nós temos soldados que são altamente competentes e seres humanos extraordinários. É isso que distingue os militares portugueses. São competentes porque, em primeiro lugar, são educados na nossa sociedade e são gente corajosa, brava, abnegada, disposta a fazer grandes sacrifícios", disse o almirante Silva Ribeiro, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, em setembro de 2020. Já antes, em abril de 2019, Silva Ribeiro falara do "extraordinário desempenho dos nossos soldados na República Centro-Africana em missões de combate, em que são, de facto, elogiados por todos os militares do mundo"..A atualidade da importância daquilo que fazem os militares portugueses na República Centro-Africana tem que ver com a decisão das Nações Unidas de prolongarem a missão militar no terreno, consciente de que a paz ainda não está garantida. Essa extensão é já a partir de hoje e significa que 188 portugueses ao serviço da ONU se manterão na Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana, mais conhecida como MINUSCA. Outros 20 portugueses estão no país africano numa operação da União Europeia..Para estes portugueses no terreno, para os outros que por lá passaram, para todos os que consideram a imagem do país o mais importante, é certamente recompensador o que declarou agora à Lusa o diretor da Divisão de Polícia das Nações Unidas, Luís Carrilho: "Visitei a RCA antes da pandemia e ouvi as mais elevadas apreciações sobre o trabalho dos militares portugueses, assim como dos elementos da polícia portuguesa ali deslocados.".Luís Carrilho é português, sim. E esteve nas missões das Nações Unidas em Timor-Leste e no Haiti. Nenhum alto cargo internacional de um português (até o de secretário-geral da ONU, ocupado por António Guterres) é indiferente ao trabalho que os nossos militares (e polícias) fazem ao serviço da paz no mundo.