Ensino Superior

Alunos nota 20: eles podiam entrar no curso que quisessem

A determinação levou-os ao topo da tabela. A candidata com a média mais elevada ao curso mais exigente do país (onde não entrou), o génio dos 20 valores e a futura médica que escolheu estudar no interior do país.

A escolha foi deixada para a última. Embora Medicina sempre tenha marinado como uma opção na sua cabeça, Estela Oliveira, de 18 anos, é uma apaixonada por matemática e isso seria automaticamente posto de lado na área da saúde. Mas nunca houve problema em prolongar a decisão. A sua média garantia lugar em qualquer curso superior do país. Também a de Ricardo Balula, um dos 41 candidatos à 1.ª fase do concurso que neste ano ingressaram no ensino superior com média de 20 valores exatos. Beatriz Naves também ficou colocada com uma média perto dos 20, no interior do país. São alguns dos melhores alunos da sua geração.

Só no secundário começou "a sentir que ir para algo mais ligado a estas ciências talvez fosse melhor", conta Estela. Entre o máximo de seis opções que pode fazer na candidatura, escolheu preencher apenas quatro. Todas elas entre o top 10 de cursos com a média mais alta neste ano. As duas primeiras em Medicina (no Porto), a terceira em Engenharia e Gestão Industrial (na Faculdade de Engenharia, também do Porto) e a última em Engenharia Aeroespacial (no Instituto Superior Técnico) - o curso que ocupa o primeiro lugar do ranking. Na lista de candidatos a este curso, Estela foi aquela com a média mais alta - 19,95 valores -, ainda que não tenha entrado. Nem no ciclo de estudos de Medicina com a média mais elevada a nível nacional (no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar). Escolheu como primeira opção a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde nesta semana se inscreveu oficialmente como aluna. Mas garante que "seria tão feliz em Engenharia como em Medicina".

Desde 2015 que os cursos de Medicina têm sido destronados pelas diversas engenharias. Neste ano, os primeiros quatro lugares do pódio de cursos com a média mais elevada foram de Engenharia, em Lisboa e no Porto. Um cenário que Estela acompanha com otimismo. "Começa a cair aquela conceção de que os bons alunos vão para Medicina", diz. E acrescenta que "faz sentido" que a tendência seja esta, "tendo em conta o mundo em que vivemos hoje, onde as tecnologias fazem parte do nosso dia-a-dia".

Apesar de o resultado dos exames de ingresso ter provocado a descida da média de candidatura, Estela terminou o ensino secundário com média de 20 valores exatos. "Sempre estive rodeada de bons alunos, na escola secundária", em Penafiel, recorda. Embora não veja esta "concorrência saudável" como o motor das boas notas que alcançou. Desde sempre que é "boa aluna" e determinada a "destacar-se" entre os demais colegas.

"Espero vir a ser cirurgiã." Os sonhos já voam alto, ainda que tenham um (longo) percurso académico - seis anos de curso, mais um de internato e cerca de mais quatro de especialidade - para amadurecer. Para já, a única certeza é de que a experiência como universitária não será feita dentro das quatro paredes da faculdade. Estela quer correr o mundo como voluntária e cumprir a "missão social" pela qual escolheu esta profissão. "Sempre fui uma pessoa que gosta de ajudar, de compreender os outros e as coisas, ir mais além. É o que espero conseguir atingir."

Beatriz escolheu o interior do país

Não é novidade que as instituições dos grandes centros urbanos continuam a ser as mais procuradas do país. Mesmo alguns dos jovens que residiram toda a vida no interior escolhem trocar a região pelo Porto ou Lisboa, por exemplo. Não Beatriz Nave. Natural da Covilhã, aos 18 anos integra o grupo de novos estudantes em Medicina na Universidade da Beira Interior (UBI).

A média de 19,2 valores permitia-lhe acesso folgado a qualquer curso e universidade mais prestigiados no país. Os famosos cursos de Medicina da Universidade do Porto, do Minho e de Lisboa, por exemplo, que neste ano fecharam com a média do último colocado entre os 18,2 e os 18,5 valores. Por isso, "sair [da cidade] passou-me pela cabeça, sim", confessa. Mas, quando procurou informar-se de toda a oferta educativa no país, concluiu "que havia muitas razões para ficar na UBI". "A universidade tem uma forma muito prática de lecionar o curso e, pelo que percebi, os alunos tornam-se muito autónomos. E, se há uma universidade boa na minha cidade, porque não?", explica. Além de ser uma opção "mais estável" financeiramente.

Nos últimos anos, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) tem criado mecanismos para fomentar as instituições com menor procura ou em zonas com menos densidade populacional. Uma missão que aparenta não estar a ter os resultados esperados. Apesar do aumento de estudantes colocados nestas regiões (2,6% face a 2018 e 3,8% face a 2017), é a elas que corresponde a quase totalidade das vagas remanescentes neste ano - cerca de cinco mil das 6734.

"Não acho que seja por ficarmos no interior que temos menos qualidade de formação académica"

Beatriz é defensora de que "o potencial do interior está a ser muito desvalorizado". "É claro que o litoral deve ser ótimo para estudar e eu não vou passar por isso. Mas há aqui muito potencial. As universidades de cá são empreendedoras e têm crescido consideravelmente. Não acho que seja por ficarmos no interior que temos menos qualidade de formação académica", sublinha.

Embora admita que pode chegar o dia em que o interior do país não seja suficiente para responder às suas ambições profissionais. "Acho que sim, provavelmente terei de sair daqui. Mesmo ao longo do curso, vai havendo estágios fora e eu vou passando por outros sítios. Mas não é algo que me preocupe assim tanto agora."Para já, quer tirar o máximo partido do curso que escolheu desde cedo. Por volta do seu 5.º ano de escolaridade, conta. "Comecei a não conseguir imaginar-me a fazer outra coisa senão Medicina e a lutar cada vez mais para conseguir a média necessária", recorda.

Há tempo para tudo

Foi entre a obscuridade dos filmes de Christopher Nolan, a diversidade de Quentin Tarantino e os heróis dos irmãos Russo que Ricardo Balula cultivou uma média perfeita: 20 valores. Mas houve ainda espaço para ler, fazer exercício e, "claro, sair com os amigos". Não há fórmulas no que toca a alcançar a genialidade de uma nota, mas tanto Ricardo como Estela e Beatriz garantem que não é um caminho solitário: há tempo para tudo.

O jovem de 18 anos, natural de Sintra, vai entrar no curso de Medicina na NOVA Medical School - Faculdade de Ciências Médicas, em Lisboa, cidade onde já estudava, no Colégio Planalto, mas não num curso científico-humanístico. Ricardo foi aluno de um programa curricular internacional, durante o secundário, também designado International Baccalaureate Diploma Programme ou simplesmente IB, através do qual arrecadou um certificado bilingue.

Ter escolhido este curso "facilitou o caminho" até aos 20 valores, diz. Quer por estar a dedicar o secundário a aprender da forma que mais gosta quer pela preparação para os exames. Integra o grupo de 41 alunos que neste ano ingressam no superior com a média máxima. Entre estes, 20 são do curso de ciências e tecnologia, dois de ciências socioeconómicas, 17 de escolas estrangeiras em Portugal e os restantes dois distribuídos entre alunos de equivalências estrangeiras (um) e de Biotecnologia (um).

Admite que "não é tarefa fácil" e também não há uma "receita secreta". "Voltamos sempre à história tradicional de estar atento nas aulas e ser capaz de sair com o conteúdo bem consolidado, de adquirir hábitos saudáveis que permitam um convívio regular com a matéria." Certo é que Ricardo não precisou de esperar pelas colocações para saber se ficaria no curso para o qual escolheu ingressar, devido ao conforto que a média lhe deu. Vai ao encontro do irmão, que já lá estuda.

À semelhança de Ricardo, Estela foi conciliando o estudo com o exercício físico, por considerar uma boa ferramenta mental para "reciclar energias". Também Beatriz, que há muitos anos pratica natação e ténis - no 12.º, conjugado com aulas de teatro.

Estela explica que reserva sempre tempo para os amigos e família - é a mais nova de sete irmãos - e não tem problemas em dizer "não". "Se é preciso estudar, é preciso estudar. O tempo que tiro para estudar hoje é o tempo que amanhã tiro para estar com os amigos. Nunca tive problemas nenhuns em dizer que não poderia sair. Cada coisa tem o seu momento e a sua hora."

Uma tese reafirmada por Beatriz, acrescentando que a melhor forma de alcançar bons resultados é estar motivada. "O que mais me deu força foi a motivação para atingir aquilo que eu queria", sublinha. Antes de tudo, diz, "temos de encontrar uma motivação, um objetivo". Seja ele um curso para o qual se quer ingressar no superior, poder entrar em qualquer um quando chegar a hora da decisão ou a mera determinação em querer dar e aprender o máximo na escola.

Exclusivos