Enfermeiro Luís:  salva-nos do vírus de dizermos mal de nós

Vai por aí muita conversa de confinados, públicas e privadas, sobre o Luís, enfermeiro, de perto do Porto. Luís Pitarma, que é de Aveiro, surgiu como notícia porque Boris Johnson agradeceu publicamente a quem o salvou do coronavírus. Elogios gerais ao hospital e em especial a dois enfermeiros: "São a Jenny da Nova Zelândia, Invercargill, na Ilha Sul, para ser exato, e Luís, de Portugal, perto do Porto."

O Presidente Marcelo logo saltou a saudar o Luís. Coisa tão habitual nele, o acenar, que às vezes me parece exagerar. Mas sobre isso, tenho duas coisas a dizer. A primeira, é que eu estou atento ao mundo. Por isso prefiro um presidente que gosta dos seus concidadãos.

Ainda há dias vi e ouvi outro presidente, na tevê, falar de 200 mil mortos previstos para os Estados Unidos por um "modelo" matemático. E, na mesma frase!, falou das "modelos" que, sublinhou ele, conhecia melhor. Para que não se perdesse a graçola, entre as duas palavras, "model" [matemático] e "models" [gajas boas], Trump fez gestos de mão, amplos sobre mamas, estreitou na cintura e voltou a ser gloriosos nas coxas, tudo inspirado na ideia inicial de milhares de urnas dos seus concidadãos. Sim, prefiro um presidente afetivo.

A segunda coisa é que o tal Luís foi saudado por Boris Johnson por uma razão não despicienda. De Cristiano Ronaldo, Boris podia ter dito que tinha belos penteados, e isso valeria só como anedota. E de Cristiano, ainda, podia dizer que ele era um futebolista fantástico, o que seria só uma banalidade, boa de conversa embora com o cuidado de não pensarmos que o talento do conterrâneo nos salpica. Ora os elogios de Boris Johnson ao enfermeiro Luís Pitarma são outra coisa e justificáveis de maior atenção.

Os elogios foram dirigidos ao trabalho - competente e que salva vidas - do Luís. Dão direito a orgulho dele e ao dos seus, e a mais ninguém - mas a nós também deram qualquer coisa. É que estamos a falar da talvez maior das palavras boas, trabalho, e a que mais efeito tem nas relações entre os homens.

Acontece que o assunto decorreu durante uma tragédia mundial, foi exposto (e com altifalantes!) por um dos homens mais poderosos do mundo e foi protagonizado por um imigrante português, num dos países onde a nossa imigração é das mais qualificadas e num momento em que um dos debates da Europa é uma falácia: há uns que trabalham e outros, não.

Ontem, um leitor gentil, antigo tradutor na União Europeia, mandou-me um ensinamento. Bizarro, útil, profundo? Fiquem com os factos: em quase todas as línguas, das latinas às escandinavas, chinês, russo inglês, há palavras diferentes para "dívida" e para "culpa". Mas a palavra é a mesma, igual e única, para os dois conceitos - no alemão (Schuld) e no holandês (schuld). Falam quase todos de dívida ou de culpa, segundo eles querem referir-se a uma ou outra ideia; e os outros dois dizerem sempre "Schuld" ou "schuld", não distinguindo. Segundo o gentil leitor, as conversas podem tornar-se "um perpétuo e inútil mal-entendido."

Resumindo, o mundo está perigoso, como a dívida e/ou a culpa nos alertam. Seria, pois, de elementar prudência não termos a soberba de sacudir o Luís dos nossos interesses.

O Luís é-nos precioso. Somos poucos e, ainda por cima, somos muitos e bons a menosprezarmo-nos. No sábado passado, o The New York Times publicava extenso artigo intitulado assim: "Há 500 anos, este porto ligava o Oriente e o Ocidente". E era apresentado assim: "Malaca deu origem à noção de fusão asiática, séculos antes disto se tornar uma moda culinária."

Ora, o que se seguiu, em cada linha do longo texto, era sobre os portugueses. Os portugueses no lugar que eles ocuparam na História, certamente por se saberem sempre poucos mas metidos num destino grandioso: os portugueses entre os outros. "Malaca, possessão portuguesa no século XVI, porto no estreito de Malaca, ligando os oceanos Pacífico e o Índico, construiu a sua confusa herança multicultural, influenciada pela multidão de chineses, árabes, indianos, persas, turcos, portugueses, holandeses e gente do Sião".

Os portugueses entre os outros, suficientemente úteis, competentes e salvadores para justificarem que a sua passagem seja lembrada pelo The New York Times, 500 anos depois.

Leiam o artigo e notem como ele estranharia por cá. Então não se fala da espada assassina do Afonso de Albuquerque? E era verdade. O artigo não falava de Afonso de Albuquerque, e verdade era que a espada dele era terrível e muitas vezes assassina. Mas invalida isso o que fizeram aqueles portugueses, e até o admirável que fez Afonso de Albuquerque, entre persas e gente do Sião, construindo um centro do mundo, num mundo misturado?

Volto ao enfermeiro Luís. "Que saloiice!", foi a ideia que surfou contra os que falaram do português elogiado por Boris Johnson. O jornal El País, ontem, titulou: "Luís, el enfermero portugués que salvó a Boris Johnson." Por maior proximidade (que é um dos critérios para se medir a importância de uma notícia), Luís Pitarma ainda deveria ser mais notícia por cá. E acresce, à razão jornalística, uma urgência sanitária: começa a ser tempo de combater a curva exponencial de parvos para quem o que é português é mau.

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