Finalmente o Nobel para quem fez a paz

Abiy Ahmed venceu o Nobel da Paz e, no entanto, o seu rosto era o mais difícil de reconhecer entre os quatro que muitos jornais, incluindo o DN, publicaram nos dias como fazendo parte dos favoritos ao prémio da Academia norueguesa. Tanto Greta Thunberg como Jacinda Arden e Donald Trump têm tido mais destaque mediático do que o primeiro-ministro da Etiópia, e sobretudo a jovem ecologista sueca parecia bem lançada para bater a paquistanesa Malala Yousafzai como a mais jovem galardoada de sempre.

Mas para premiar quem fez a paz então dificilmente se encontrará outro tão justo nos últimos anos. Chegado ao poder em 2018, Ahmed pôs fim à guerra intermitente com a Eritreia, que se separou da Etiópia em 1993 de forma pacífica mas cinco anos depois se envolveu num conflito com o vizinho. Não só se evitou assim o acumular de milhares e milhares de mortos em combate, como se libertaram verbas que vão salvar muitas mais vidas em ambos os países se bem aplicadas, por exemplo, no sistema de saúde. A mortalidade infantil na Etiópia é 51 por mil, na Eritreia 46 por mil. E em termos desenvolvimento humano estas duas nações do Corno de África andam perto dos últimos lugares (173.º e 179.º).

Ahmed merece também o prémio porque neste ano e meio como presidente tem mudado a sua Etiópia para melhor. O único país de África que nunca foi colonizado - apesar das duas tentativas italianas - é um colosso de 105 milhões de habitantes repartidos em múltiplas etnias, e cada vez mais dividido entre cristãos e muçulmanos, com um potencial enorme de desenvolvimento, inclusive na agricultura.

Nós, portugueses, cedo estabelecemos relações com os etíopes e ajudámos mesmo os imperadores a salvar o país da conquista por exércitos muçulmanos. Pêro da Covilhã lá viveu grande parte da vida a representar os reis de Portugal e um filho de Vasco da Gama, Cristóvão, morreu no século XVI na defesa do que se dizia ser o reino do mítico de Prestes João. Dessa relação privilegiada restam vestígios arquitetónicos, desde palácios a fortalezas e pontes ainda hoje reconhecidos como portugueses.

Mas se as elites pertencem ainda em boa medida à igreja copta, o facto de um terço da população seguir hoje o islão obriga os governantes a ter um pensamento integrador, tanto étnico como religioso. E, nesse campo, a própria biografia de Ahmed faz dele o homem certo no cargo certo no momento certo, pois o pai era um muçulmano da etnia oromo e a mãe uma cristã ahmara. Falar três das línguas principais do país também facilita a sua afirmação como líder unificador do país que, pelo seu peso histórico, alberga a sede da União Africana.

No plano interno, este antigo guerrilheiro - juntou-se ainda adolescente à rebelião contra o ditador Mengistu - libertou presos políticos, autorizou o regresso de dissidentes exilados, criticou os abusos anteriores do regime, apesar de praticados pela mesma Frente Popular Revolucionária Democrática da Etiópia que o promoveu a primeiro-ministro. Ahmed mostrou-se também ousado ao criar um governo com metade dos membros a serem mulheres, sendo que entretanto o Parlamento de Adis Abeba elegeu para chefe do Estado também uma mulher, Sahle-Work Zewde.

Que Ahmed sirva de inspiração na Etiópia, no resto de África, no mundo em geral. Não só há muitas guerras por parar como nenhuma paz está garantida só por causa de um Nobel a ter reconhecido, basta pensar na tensão na Colômbia, apesar do diálogo entre governo e guerrilha das FARC que levou o comité norueguês a premiar o presidente Juan Manuel Santos há três anos.

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