Escalada verbal entre Bloco e PS por causa do Novo Banco

De nada serviu a Ana Catarina Mendes (PS) pedir contenção verbal a Catarina Martins (BE). Quanto ao Novo Banco, a líder bloquista continua a equiparar Costa a Passos Coelho.

O "gatilho" para mais esta polémica entre o Bloco de Esquerda e o PS foi a notícia de que o Novo Banco (NB) vai pedir nova injeção de 1149 milhões de euros.

Segundo o banco, o valor das compensações relativamente a 2017 e a 2018 "totalizam 1,9 mil milhões de euros", sendo que no contrato de venda do NB à Lone Star o Estado se comprometeu a assegurar garantias em recapitalizações que podem ir até aos 3,89 mil milhões de euros.

Para o Bloco de Esquerda, o Novo Banco é porventura o principal instrumento de afirmação de contraste face à ação do PS e do governo. Os bloquistas - tal como aliás os comunistas - sempre defenderam a nacionalização do NB.

No sábado, no comício comemorativo, em Lisboa, dos 20 anos do Bloco de Esquerda, Catarina Martins carregou nas tintas, dizendo que o BE fez ao longo da sua vida "inimigos poderosos" numa elite financeira que "se incomoda" com a presença bloquista.

"Cada voto no PS em 2015 foi usado por António Costa para fazer sobre o sistema financeiro exatamente o mesmo que fez Passos Coelho."

E acrescentou: "Essa elite teve no Partido Socialista um aliado ao longo desta legislatura porque sabemos hoje que se cada voto à esquerda protegeu as pensões e os salários, também sabemos que cada voto no Partido Socialista em 2015 foi usado por António Costa para fazer sobre o sistema financeiro exatamente o mesmo que fez Passos Coelho."

Segundo a líder bloquista, a comparação entre Passos e Costa está no facto de ambos andarem a "limpar bancos com o dinheiro de todos e entregá-los limpos ao negócio de alguns".

"Já percebemos nestes anos porque insistem em manter Carlos Costa como governador. Não é pela sua competência, mas pelas suas costas largas, que tanto jeito têm dado ao PS e ao PSD", criticou.

"Para o PS não é aceitável a comparação que Catarina Martins faz entre António Costa e Passos Coelho na gestão do sistema financeiro."

O PS não gostou das declarações de Catarina Martins e não as deixou passar em branco. Ana Catarina Mendes, número dois operacional do PS (é secretária-geral adjunta), acusou a líder bloquista que fazer uma "comparação inaceitável" entre o atual primeiro-ministro e o seu antecessor, Pedro Passos Coelho, sobre sistema financeiro.

"Para o PS, não é aceitável a comparação que Catarina Martins faz entre António Costa e Passos Coelho na gestão do sistema financeiro. Aliás, demonstra total falta de reconhecimento pelo empenho do PS e do atual governo na resolução do sistema financeiro em Portugal", afirmou.

Ana Catarina Mendes referiu depois a "herança" deixada pelo anterior governo nos casos do Banif, "que estava em estado explosivo e teve de ser resolvido em mês e meio", assim como a resolução do Banco Espírito Santo (BES) - feita em 2014 pelo Banco de Portugal sendo Passos Coelho chefe do governo -, que "criou um banco bom e um banco péssimo".

"Em períodos eleitorais não pode valer tudo. A seriedade é aquilo que mais respeitamos."

"A venda do Novo Banco [à Lone Star] foi feita nas condições que eram possíveis para o Estado português. Por outro lado, se há hoje uma Caixa Geral de Depósitos robusta e a dar lucro, tal deve-se ao empenho do governo no sentido de garantir que o banco público seja o banco de todos os portugueses, sem custos para os contribuintes", completou.

Neste contexto, a secretária-geral adjunta do PS afirmou que "não é sério que Catarina Martins faça essa acusação e essa comparação entre António Costa e Passos Coelho". "Em períodos eleitorais não pode valer tudo. A seriedade é aquilo que mais respeitamos. Por isso, a credibilidade do Estado português diz tanto lá fora."

Catarina Martins voltou ontem à carga - ou seja, os apelos de Ana Catarina Mendes de nada valeram, o que já serve de prenúncio para o que será a campanha das legislativas.

"Comprova-se que nós temos razão à medida que a fatura sobre os contribuintes vai aumentando e a banca é cada vez mais pesada, é verdade. O PS fica incomodado? O PS está por ventura incomodado com o que fez, não é com o que o BE diz hoje", respondeu.

Segundo Catarina Martins, o que o partido que lidera diz hoje é o que afirma "desde o primeiro dia, e quem fez votações ao lado da direita para manter tudo na mesma quanto ao sistema financeiro foi o PS". "A posição do BE sobre o Novo Banco não tem nenhuma novidade. Lembro, aliás, que o próprio PS concordava com esta visão do Bloco de Esquerda", começou por dizer.

Quando o governo PSD-CDS "anunciou o Fundo de Resolução e a forma como ia ser injetado dinheiro público" nesse mesmo fundo, exemplificou a coordenadora bloquista, "o próprio António Costa, na altura na oposição, veio dizer que não era verdade que não fosse dinheiro dos contribuintes ou que não ficasse caro aos contribuintes".

"Nós não mudamos de ideias. Vemos agora com algum espanto que o PS e o senhor primeiro-ministro venham dizer que, afinal, o Fundo de Resolução não é dinheiro dos contribuintes se, quando o Fundo de Resolução foi criado, o PS [disse] - como Bloco de Esquerda disse isso mesmo - que era dinheiro dos contribuintes", recordou.

"O PS não teve a necessária ponderação a lidar com o sistema financeiro, não teve a necessária responsabilidade, manteve a forma de lidar com o sistema financeiro igual à da direita."

Catarina Martins reiterou que aquilo que "o PS fez, tanto com o Banif como com o Novo Banco, é exatamente o mesmo caminho que o governo PSD-CDS já tinha começado a trilhar".

"Não desconhecemos e reconhecemos que em 2015 o PSD e o CDS, com a ajuda do governador do Banco de Portugal, esconderam os problemas financeiros em vários bancos para deixar que explodissem depois das eleições", criticou. Acrescentando que o "Bloco não mudou de posição e continua a dizer o mesmo", sublinhou que "o Novo Banco está a ficar caro de mais aos contribuintes".

"O PS não teve a necessária ponderação a lidar com o sistema financeiro, não teve a necessária responsabilidade, manteve a forma de lidar com o sistema financeiro igual à da direita e, com isso, os contribuintes continuam a pagar uma fatura demasiadamente pesada para a banca privada", sendo "inaceitável" que "se continue a limpar bancos privados com o dinheiro público para eles continuarem nas mãos dos privados e com as mesmas regras que tiveram até hoje".

"Comprova-se que tudo o que nós dissemos está a acontecer. Nós gostávamos de não ter razão, mas na verdade o BE não está a dizer hoje nada de diferente do que tenha dito ao longo de todos estes anos", sintetizou.

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