Entre protestos e tapas, Espanha entra na fase 1 do desconfinamento

Cerca de metade da população do país europeu com mais casos de covid-19 está desde ontem com menos restrições.

Metade da população de Espanha iniciou na segunda-feira a denominada "fase 1" do plano de levantamento das medidas de restrição aprovadas em meados de março para lutar contra a pandemia de covid-19, num dia que ficou marcado pelo número mais baixo de mortes desde 18 de março.

Numa outra nota de esperança, a pessoa mais idosa do país, com 113 anos, superou o novo coronavírus. Maria Branyas, residente num lar catalão há duas décadas, sobreviveu à pandemia do século passado (a chamada gripe espanhola) e também à dos nossos dias: três semanas após os testes terem dado positivo, Branyas está recuperada, como conta o Vila Web. "Agora que se encontra recuperada está ótima, tem vontade de falar, de se explicar, de fazer as suas reflexões", disse a sua filha mais nova, Rosa, de 76 anos, ao ABC. As duas filhas, os 11 netos e 13 bisnetos aguardam o levantamento de restrições para poderem visitá-la.

Se vivessem no País Basco, porém, já podiam fazê-lo. O governo de Euskadi adaptou o decreto de Madrid, dando permissões ou mantendo restrições levantadas pelo executivo liderado por Pedro Sánchez. Por um lado permite as viagens entre províncias na região para visitar idosos (algo que está vedado no resto do país), embora desaconselhe sair do município, mas por outro o governo chefiado por Iñigo Urkullu não permite as reuniões até 10 pessoas nas habitações, ao contrário do que já é possível no resto do país que avançou para a fase 1.

Esta etapa permite, entre outras medidas, a abertura do pequeno comércio sem necessidade de marcação prévia, e das esplanadas, desde que tenham até um máximo de 50% da sua ocupação. Além disso, há que respeitar uma distância mínima de dois metros entre as mesas e os grupos de clientes não podem exceder dez pessoas. As mesas, que deixam de ter cardápios e guardanapos, têm de ser desinfetadas nos intervalos entre os clientes.

Pequenos prazeres de volta

"Isto fazia muita falta", disse Jesús Vázquez, numa esplanada de Tarragona, na Catalunha. Ao fim de dois meses em cumprimento de um dos mais rígidos confinamentos da Europa, comer uma sandes e beber uma cerveja numa esplanada é visto como um prémio. "Uma pessoa valoriza ainda mais esses pequenos prazeres", disse Vázquez, de 51 anos, à AFP. Com ele estão mais três pessoas, entre as quais o filho, que ia esperar pelo fim do dia de trabalho para reencontrar os amigos.

"Depois de tanto tempo de privação, algo rotineiro torna-se extraordinário. Faz muito bem para a mente poder voltar às ruas, tomar um café com um amigo e conversar sobre futebol", diz Marcos Rodríguez, sentado com um amigo. Para este homem de 41 anos, desempregado e a viver com os pais, o período de encerramento foi "muito difícil", ainda mais porque há semanas que não vê a sua companheira, residente em Barcelona. "Ainda há medo de apanhar o vírus, de infetar as pessoas que amamos. Mas precisamos sair, de viver novamente.".

Nesta fase 1, o alimento para o espírito dos crentes também já está disponível: igrejas e locais de culto estão reabertos, embora limitados a um terço da lotação. Na fase 2 pode chegar a 50%.

Os hotéis e restante setor hoteleiro reabrem sem restrições de taxa de ocupação, se bem que sem as zonas comuns em funcionamento.

O setor agro-alimentar e as pescas deixam de ter quaisquer limitações.

O plano de desconfinamento em Espanha é gradual e assimétrico, consoante a situação epidemiológica, e foi dividido em quatro fases, sendo que cada uma deverá durar duas semanas. Exceto em Castela e Leão, Comunidade Valenciana e Catalunha as decisões são tomadas ao nível de cada província. Nessas três regiões a desescalada é feita ao nível dos departamentos de saúde.

A região de Madrid, as cidades de Barcelona, Valência, Málaga ou Toledo estão entre as zonas que se vão manter durante mais alguns dias na atual fase zero, em vigor desde há uma semana, quando foi autorizada a abertura parcial do pequeno comércio de rua, que funciona por marcação prévia e com acesso limitado.

A decisão governamental de quais seriam as unidades territoriais impedidas de passar à fase um não agradou a todos. Em Valência, "indignação" foi a palavra usada quando se soube que só 10 dos 24 departamentos de saúde podiam passar à fase 1, como conta o El Mundo.

"Não partilhamos a decisão do Ministério da Saúde. Justificámos com critérios técnicos as condições para que toda a Comunidade passasse à fase 1. Solicitamos que o nosso plano seja reexaminado para rever a decisão o mais rapidamente possível", reagiu o presidente valenciano Ximo Puig.

Em sentido contrário, o Podemos do País Basco pronunciou-se contra a passagem da região à fase 1. Para a candidata à chefia do governo local Miren Gorrotxategi os bascos não compreendem como é que se passou para a fase 1 e mantêm-se parte das restrições: "Não se compreende porque estamos em 0,5". A explicação, diz a dirigente do Elkarrekin Podemos, é a de que houve "um acordo" entre Madrid e Vitória.

Fast food para as crianças e máscaras sob suspeita

Na região de Madrid, que continua na fase 0, dão que falar as medidas da controversa presidente Isabel Días Ayuzo. O ministro do Consumo, Alberto Gárzon, criticou a medida da comunidade em oferecer refeições de fast food às crianças mais necessitadas., depois de um relatório da Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição ter qualificado as ementas de "bastante lamentáveis".

"Estão fora de todos os critérios de saúde e de nutricionismo e promoveram um consumo não saudável", criticou o ministro durante uma audiência no Parlamento.

Ayuso viu a diretora de saúde pública, Yolanda Fuentes, demitir-se porque defendia que a região não tinha condições para passar à fase 1, ao contrário da presidente. Esta, em entrevista ao El Español, crê que o governo não deu o aval devido ao número de habitantes. "O problema é a densidade populacional, todos os bascos cabem no Metro de Madrid."

Ayuso, que se desculpou horas depois de ter afirmado que covid-19 é uma amálgama de palavras que designa coronavírus, dezembro e 2019, decidiu oferecer sete milhões de máscaras de elevado nível de proteção FFP2 nas farmácias. No entanto, a medida foi criticada por associações de profissionais de saúde, que desaconselham o uso deste equipamento de proteção pelos cidadãos.

Como se não bastasse, há dúvidas sobre a qualidade das máscaras. Como informa o El Diario, as etiquetas das máscaras estão incorretas, o que leva à suspeita de que o equipamento possa ser uma falsificação, como Espanha e a Holanda já receberam.

PP em ascensão

Não é só de questões regionais que a controvérsia sobre a pandemia se alimenta, num momento em que o Partido Popular, de centro-direita, continua em ascensão nas sondagens. Segundo a mais recente realizada para o ABC, o partido liderado por Pablo Casado está agora à distância de 1,6 pontos percentuais do PSOE, o que se traduziria em 120 deputados eleitos para os socialistas e 115 para os populares.

A subida do PP faz-se muito à custa do Ciudadanos (5,9%, teve 6,8% nas eleições de novembro) e do Vox (11,7%, quando chegou aos 15,1% nas eleições).

Para tentar capitalizar o descontentamento com o governo e recuperar terreno, a extrema-direita quer realizar manifestações de automóvel no dia 23 em todas as capitais de província contra a forma como o governo de coligação de esquerda (PSOE-Unidas Podemos) tem gerido a crise da covid-19.

Para o Vox, a crise provocada pela pandemia tem sido aproveitada pelo Governo para promover uma "agenda social-comunista" através de medidas tomadas durante o atual estado de emergência.

O governo espanhol pretende aprovar, antes do fim do mês, um rendimento mínimo garantido que vai beneficiar cerca de três milhões de pessoas.

O executivo espanhol assinou com os parceiros sociais nesta segunda-feira um acordo para prolongar, com regras diferentes, a extensão do regime de lay-off até 30 de junho. Agora as empresas com sede em paraísos fiscais não podem recorrer ao regime; e as que o façam não podem distribuir dividendos.

Em contrapartida, abre-se a porta aos despedimentos, passado o período de lay-off, em certas condições para empresas com "elevada variabilidade ou sazonalidade do emprego", como destaca El Correo.

Até agora, Espanha contabiliza um total de 26.744 óbitos devido à pandemia de covid-19, tendo registado mais 123 mortes na segunda-feira, uma redução em relação às 143 de domingo.

De acordo com o Ministério da Saúde espanhol, houve 373 novos casos positivos com a doença, um número que também está em queda, elevando para 227.436 o total de infetados - oficialmente, o segundo país no mundo com mais casos, a seguir aos Estados Unidos.

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