Praias da Costa da Caparica vão fechar à vez em agosto

Repor o nível de areia numa das zonas balneares mais procuradas no verão na Grande Lisboa é o objetivo das obras que vão realizar-se no próximo mês na Costa da Caparica. Os comerciantes contestam, mas a junta de freguesia lembra que é preciso "defender a cidade".

As praias da Costa da Caparica vão ser encerradas à vez durante o mês de agosto devido à necessidade de repor os níveis de areia. A operação chegou a estar anunciada para maio, mas ainda não começouporfaltar o visto do Tribunal de Contas. Assim que tal acontecer, os trabalhos arrancam, o que se prevê para o final deste mês ou início de agosto - em plena época de verão e numa das zonas mais procuradas por milhares de pessoas que estão de férias e querem fazer praia.

Já após a publicação desta notícia, o TC esclareceu ao DN que o processo "foi remetido pela Agência Portuguesa do Ambiente ao Tribunal de Contas para fiscalização prévia a 7 de junho de 2019, em plena época balnear. O mesmo foi devolvido no início de julho para complemento de instrução e regressou ao tribunal a 9 de julho, encontrando-se em análise e merecendo a necessária urgência."

colocação do total de um milhão de metros cúbicos de areia nos diversos areais vai limitar o acesso às praias por períodos de cinco dias em cada uma. O calendário ainda não é totalmente conhecido - só será divulgado após a autorização da obra por parte do TC -, mas a praia do Tarquínio-Paraíso deverá fechar a banhos entre 19 e 24 de agosto. Antes desta data será impossível o acesso às praias da Saúde e Nova.

"Foi escolhida uma altura péssima. No nosso caso, temos de tirar tudo da praia do Tarquínio-Paraíso a 18 de agosto. O que fazemos? Não pagamos às pessoas essa semana? Não podiam fazer noutra altura?" As palavras de revolta são de Acácio Bernardo, dono do bar Paraíso e com a concessão na área balnear que fica situada em frente. Para piorar as coisas, a esta interrupção juntam-se os problemas provocados pelas obras que estão a decorrer no largo que é conhecido como "das tábuas" - uma herança da intervenção urbanística liderada pelo Polis da Caparica, criado em 2000 por uma resolução do Conselho de Ministros - e que está em renovação também neste período de verão.

A operação de enchimento das praias com areia retirada ao largo e transportada para terra através de um tubo que está colocado num barco é da responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente e foi anunciada em março pelo Ministério do Ambiente. A operação irá custar 6,3 milhões de euros, com parte da verba suportada por fundos comunitários.

A contestação de Acácio Bernardo, que é também presidente da Associação Apoios de Praia Frente Urbana da Costa da Caparica, não é acompanhada pelo presidente da Junta de Freguesia. José Ricardo Martins (eleito pelo PS) garante que esta intervenção ao longo dos 3,8 quilómetros entre a Costa da Caparica e a Cova do Vapor "só podia ser feita nesta altura no verão". E explica: "O bombeamento de areia para terra só pode ser feita com uma ondulação abaixo dos dois metros e o vento também pode influenciar. Tem também que ver com as marés - a distância entre a baixa-mar e a praia-mar."

"O bombeamento de areia para terra só pode ser feita com uma ondulação abaixo dos dois metros e o vento também pode influenciar"

O autarca garante que ainda não está fechado o calendário da intervenção - que vai "transportar" um milhão de metros cúbicos de areia do canal sul, na entrada do estuário do Tejo, para as praias, de acordo com as necessidades de cada uma. Isto porque falta o visto do Tribunal de Contas para a obra avançar.

A previsão do prazo para concluir essa transferência e enchimento das praias ronda os 30 dias, mas pode chegar aos 45, como adianta o presidente da junta. "As praias encerrarão por uma semana cada e no total deverá durar [a operação] um mês, mês e meio. Mas é necessário, vai criar praia. Tem constrangimentos para as pessoas no seu dia-a-dia? Sim, mas temos de ver pelo lado positivo. É urgente fazer isto, pois não podemos ter a cidade exposta no inverno, como aconteceu em 2014 [durante o inverno o paredão da cidade foi praticamente destruído e houve necessidade, além da sua recuperação, de encher as praias de areia]", salienta José Ricardo Martins.

"Esta é uma obra urgente de proteção da cidade, pois estamos com os níveis de areia ao nível de 2014. O ideal seria fazê-lo de três em três anos [a última em 2014], mas mesmo assim o ministro do Ambiente [João Pedro Matos Fernandes] teve de conseguir que as verbas comunitárias, que só estão disponíveis para estas intervenções de dez em dez anos, pudessem ser utilizadas agora", frisou.

"É preciso tomar decisões difíceis. Talvez retirar as praias"

A operação de colocação de areia nas praias nesta altura não é bem compreendida por Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, que também é crítico da opção. Além de referir que fazer uma ação destas "em agosto é um fator de perturbação da época balnear", questiona se valerá a pena investir seis milhões de euros neste tipo de trabalhos.

Para o ambientalista, o valor do investimento "é muito elevado para a manutenção, sem se resolver estruturalmente o problema. E é essa discussão que tem sido adiada. Como é uma decisão difícil ninguém quer tomar medidas mais drásticas".

Francisco Ferreira diz era importante discutir-se opções como a "de realojamento de pessoas e equipamentos junto das praias". "Com a subida do nível das águas do mar e o surgimento cada vez mais de eventos extremos, se calhar vamos ter de tomar medidas drásticas. Isto [reposição de areia] é um remédio enquanto não temos coragem para soluções mais dramáticas", concluiu.

Questionada pelo DN a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) esclareceu que as alimentações artificiais de praias "têm de ser executadas no período de verão pois é a altura, por razões técnicas e operacionais, em que as condições de agitação marítima são as mais favoráveis".

A APA especifica dando um exemplo: "Com ondulação de dois metros de altura ou superior já não é possível desenvolver os trabalhos indispensáveis."

As obras no largo

Mas não é só a intervenção nas praias e as consequências que estão a preocupar os donos de bares e concessões na frente urbana da Costa da Caparica.

Outro tema de discussão são as obras que estão a decorrer no chamado "Largo das tábuas", um espaço que tinha pranchas de madeira no chão que se foram deteriorando. Atualmente, todas as tábuas já foram retiradas, seguindo-se os restantes trabalhos de consolidação do terreno e colocação de um campo de futebol de praia e dois de voleibol. Numa segunda fase surgirão espaços com máquinas de ginástica de manutenção e áreas verdes.

A Associação Apoios de Praia Frente Urbana da Costa da Caparica contesta o timing da intervenção, pois, segundo Acácio Bernardo, estas prejudicam um negócio que é sazonal. "Eu estou a perder entre 30% e 40% da faturação mensal." O presidente da associação, que reúne 21 comerciantes, garante que a obra afasta clientes, pois "ninguém quer estar num sítio com máquinas a fazer barulho e pó".

Também neste ponto o presidente da junta vê a situação pelo lado positivo. "O espaço vai ficar muito melhor do que estava. Não quisemos deixar passar mais um verão. E os concessionários têm entrada pelo lado exterior, aquilo como estava era perigoso", frisou ao DN José Ricardo Martins.

Notícia atualizada às 20:00 de dia 12 de julho, com a resposta do Tribunal de Contas

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