CGD e Santander são os bancos que dão mais crédito à habitação

Os dois bancos concederam quase metade do total de empréstimos para compra de casa nos nove meses deste ano.

No melhor ano da década no crédito à habitação, dois bancos são responsáveis por quase metade dos empréstimos concedidos às famílias. Segundo os resultados dos nove meses divulgados pelos cinco maiores bancos em Portugal, a Caixa Geral de Depósitos e o Santander emprestaram 3000 milhões de euros para a compra de casa, entre janeiro e o final de setembro.

O Santander foi o o banco que mais empréstimos concedeu, em valor. No total, o banco liderado por Pedro Castro e Almeida emprestou 1512 milhões de euros para compra de casa entre janeiro deste ano e o final do mês de setembro. Segundo o banco, detém agora uma quota de 18% dos novos empréstimos para compra de casa. No total, o banco tem uma carteira de crédito à habitação de 19,6 mil milhões de euros.

No caso da CGD, o aumento dos novos créditos à habitação é de 35%, comparando com os nove meses de 2018. O banco liderado por Paulo Macedo concedeu créditos no total de 1494 milhões de euros, segundo dados da Caixa.

O Banco BPI concedeu 913 milhões de euros de novos créditos à habitação nos nove meses e o Grupo Novo Banco emprestou um total de 468 milhões de euros no mesmo período.

O Millennium BCP é o único banco, dos cinco maiores, que não divulga quanto emprestou para compra de casa. A diferença registada na sua carteira de crédito em situação regular no final de setembro, face ao final de 2018, é de 300 milhões de euros. Mas o valor não é comparável com os novos empréstimos à habitação dos restantes bancos.

Até ao fim de agosto, foram concedidos 6873 milhões de euros para compra de casa, mais 370 milhões do que no mesmo período de 2018. Os bancos têm registado uma maior procura no crédito à habitação. No caso do BPI, só no terceiro trimestre concedeu 388 milhões em novo crédito hipotecário, "o que reflete um crescimento de 32% face ao trimestre anterior".

A procura elevada tem sido alimentada pela descida dos spreads. Os mais baixos situam-se em 1% e são poucos os bancos que pedem spreads acima de 2%. Segundo dados do comparador ComparaJá.com, o Bankinter e o Santander têm os spreads mais baixos do mercado, em 1%. Seguem-se o Banco CTT, o Crédito Agrícola e o BCP, com 1,1% de spread.

Apenas o Abanca apresenta um spread acima dos 2%, em 2,1%. "Todas as instituições em análise oferecem um spread abaixo de 2,5%", refere aquele comparador numa análise recente aos spreads praticados no crédito à habitação em Portugal.

O aumento dos preços da habitação não parecem demover as famílias que pedem empréstimos para compra de casa. No segundo trimestre, os preços das casas subiram em média 10,1% face ao período homólogo de 2018. Num inquérito do Banco de Portugal, os bancos apontaram que não esperam alterações à tendência da procura de crédito à habitação até ao fim do ano.

Esta tendência de subida na procura tem-se mantido apesar das medidas anunciadas pelo Banco de Portugal, em meados de 2018. A medida do supervisor, anunciada em fevereiro do ano passado, entrou em vigor em julho do mesmo ano. O objetivo era apertar as condições de acesso ao crédito à habitação e ao consumo para travar o aumento da procura. O Banco de Portugal fixou limites a alguns dos critérios de avaliação da capacidade dos clientes de conseguirem obter os empréstimos.

Mas, apesar do aumento dos preços das casas e dos limites à concessão de crédito, as famílias encontram poucas opções para ter acesso a habitação. Além de haver uma escassez de imóveis disponíveis a preços acessíveis, o forte crescimento do mercado de alojamento local retirou muitas casas do mercado de arrendamento de longo prazo. A criação de programas de habitação acessível têm elevada procura face aos imóveis disponibilizados.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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