E se de repente um linchamento

Luís Giovani Santos Rodrigues morreu. Porquê, de quê, às mãos de quem? Tudo por saber. Mas bastaram poucos dias para que o caso se tornasse num estudo. Sobre perceções, preconceitos, o estado da discussão pública sobre racismo e o valor do jornalismo.

"Batiam em silêncio." Foi o que mais impressionou Ana Carvalho, a jornalista do Contacto, no que lhe disseram os amigos que acompanhavam Luís Giovani na noite fatídica. A imagem de homens a bater, de boca fechada como quem se concentra a desempenhar uma tarefa. Sem um som, uma palavra que diga porquê. Como se desde logo se empenhassem no mistério.

Ana publicou a entrevista com os três estudantes cabo-verdianos, dois deles amigos de infância do rapaz morto, nesta quinta-feira. Seis dias após o texto no qual desvendou a história pungente de um miúdo de 21 anos, em Portugal há menos de dois meses para estudar no Politécnico de Bragança, que saiu à noite pela primeira vez na cidade na noite de 21 de dezembro e viria a morrer na última madrugada do ano, em coma irreversível devido a uma pancada na cabeça. Pancada, segundo o narrado à jornalista, recebida durante um espancamento por desconhecidos na rua, quando Luís saía de um bar com amigos.

Foi esse seu texto, de 3 de janeiro, também publicado no jornal online Contacto, que acordou Portugal e Cabo Verde - de onde vieram exigências de justiça da oposição e pedidos de "clarificação cabal" da embaixada e do governo - para a tragédia. O título, "Tocava piano na igreja em Cabo Verde e foi assassinado em Bragança", atravessa uma foto de Luís Giovani a sorrir, irremediável.

Baseado no relato em segunda mão de um primo de Luís, que o ouvira aos amigos que estavam com ele naquela noite (nessa altura a jornalista ainda não conseguira chegar aos rapazes), o texto não aventa motivos para as agressões, além de um desaguisado no bar na fila de pagamento.

Ainda assim, e até pela aparente gratuitidade da agressão, a possibilidade de uma motivação racista foi logo colocada por muita gente. Um grupo de quatro negros num país de maioria branca e - esse terá sido um raciocínio comum - para mais no "interior profundo": como não suspeitar de racismo?

Até pela aparente gratuitidade da agressão, a possibilidade de uma motivação racista foi logo colocada por muita gente: um grupo de quatro negros num país de maioria branca, para mais no "interior profundo": como não suspeitar de racismo?

A maioria das pessoas (era o meu caso até esta semana) ignoraria que o Politécnico local tem, desde há vários anos, um enorme contingente de alunos africanos - mais de mil - oriundos dos vários PALOP; alunos que, a crer na Associação dos Estudantes Africanos em Bragança, se sentem "muito bem acolhidos". Mas mesmo sabendo isso, e mesmo sendo verdade que a população de Bragança acolhe bem os estudantes negros, a hipótese de haver na zona sentimentos violentamente contrários põe-se sempre - sobretudo perante o relato de uma agressão tão brutal e sem sentido.

Daí que não, não seja despropositado pensar num ataque motivado pelo ódio racial. E menos ainda que quem tem a experiência de ser vítima de racismo - em Portugal, sim - a suscite. Como li no Facebook da escritora e ativista antirracista Luísa Semedo, "ninguém que seja sério pode afirmar neste momento o que aconteceu ao jovem Luís Giovani, e talvez nunca chegaremos a saber a verdade". Mas, prossegue, "não temos o privilégio de ouvir a história de um rapaz cabo-verdiano que teria sido espancado por um grupo com ferros, paus e cintos e não pensar em racismo de uma forma ou de outra".

O "nós" de Luísa é específico - é negra. E explica: "Esta imagem de linchamento convoca de imediato imagens que conhecemos perfeitamente, que estão gravadas a ferro quente no nosso ser. (...) Porque sofremos de um traumatismo individual e coletivo. E esse traumatismo chama-se racismo."

"Ninguém que seja sério pode afirmar neste momento o que aconteceu ao jovem Luís Giovani, e talvez nunca chegaremos a saber a verdade. Mas não temos o privilégio de ouvir a história de um rapaz cabo-verdiano que teria sido espancado por um grupo com ferros, paus e cintos e não pensar em racismo de uma forma ou de outra."

Este traumatismo chamado racismo, atrevo-me a dizer, não é só das vítimas dele: deve ser algo que todos consciencializamos. Porque existe. Mas esse facto, o de o racismo existir como realidade e história, não significa que o deixemos colonizar todo o sentido, explicar tudo; seria tão estulto afirmar que tudo é racismo como que não há racismo.

E é aqui, neste confronto de absolutismos, nesta desconversa de surdos, que o caso de Luís Giovani se torna de estudo. Se de um lado há quem insista no clássico exasperante de que "falar de racismo a propósito disto é racista", do outro chega-se ao ponto de usar o termo "linchamento", dando como indiscutível não só a motivação racista como a intenção de matar, decretando uma quase conspiração mediática e policial - do "sistema" - para silenciar o crime.

A denúncia desse silenciamento surge na sequência da publicação do primeiro texto do Contacto, e tem promotores de peso. A 5 de janeiro, partilhando o artigo, o parlamentar bloquista José Soeiro proclama no Facebook: "Um caso gravíssimo de agressão e homicídio (...) mas que não está nas primeiras páginas dos jornais nem nos destaques das TV. Pergunto: se Giovani tivesse outra origem, não haveria já uma comoção nacional generalizada, comentadores empolados e uma onda mediática de choque e indignação?" No mesmo dia, Joacine Katar-Moreira, deputada do Livre, escreve em comunicado: "Esta brutal violência de que Giovani foi vítima e o levou à morte não mereceu, desde logo, e ao contrário de outros crimes, a necessária divulgação noticiosa."

Há várias ironias nestas afirmações. A mais óbvia é de que os autores cometem o erro comum de confundir as suas perceções - e desatenções - com a realidade. Pelo menos dois jornais nacionais colocaram a morte nas respetivas capas: o JN a 1 de janeiro e o Correio da Manhã a 2, este dedicando-lhe duas páginas. Outra ironia é de que as chamadas de primeira - "Universitário espancado morre no hospital" e "Lutou 10 dias pela vida. Estudante espancado morre após coma" - não referem, precisamente, a "origem" do jovem. E outra ainda é que, malgrado discursos piedosos sobre a importância do jornalismo e o perigo das fake news, estes responsáveis partidários parecem reagir sobretudo ao que veem nas redes sociais ou podem ler sem pagar, em detrimento da imprensa tradicional, não se dando sequer ao trabalho de verificar se o que dizem tem fundamento antes de lançar acusações e correrem o risco de parecer estar a instrumentalizar um acontecimento horrível, adiantando-se até às investigações policiais ao darem como provadas coisas que não o estão.

Não há nada de errado em questionar, em estar atento a possíveis encobrimentos ou desatenções ou desvalorizações. Mas não serve de nada disparar em todas as direções e partir para conclusões sem consubstanciação, retirando credibilidade e força às denúncias que importam.

Este resoluto desinteresse pelos factos tem-se prolongado na asserção de que o silenciamento se "prova" por só terem existido notícias após a morte de Luís, mesmo se o Contacto - que foi, precisamente, contactado pela família após a morte do jovem - cita o primo dizendo que ninguém falou com a imprensa antes porque acharam que o jovem ia acordar de um dia para o outro; a própria direção da Associação dos Estudantes Africanos em Bragança só soube a 31. Se ninguém falou do assunto a jornalistas, estes iriam saber como? Como se silencia algo que não se conhece?

Não há nada de errado em questionar, em estar atento a possíveis encobrimentos ou desatenções ou desvalorizações (incluindo, claro, dos jornalistas e do jornalismo); não há nada de irracional no trauma de que fala Luísa Semedo; não há nada de exagerado no estado de alerta. Há uma história de casos mal explicados, mal investigados, mal tratados por causa da natureza das vítimas e dos agressores. Mas não serve de nada disparar em todas as direções e partir para conclusões sem consubstanciação, retirando credibilidade e força às denúncias que importam.

Até porque há neste caso matéria para estranheza: de acordo com o que o DN reportou num artigo publicado nesta quarta-feira, a PSP, à qual a existência de uma agressão foi participada pelo hospital de Bragança, onde o jovem deu entrada já inconsciente, não teria sequer visitado o bar onde tudo supostamente começou nem requisitado as imagens de videovigilância. Teriam assim sido dez dias de inação policial, até à entrada em campo da Polícia Judiciária - informação que a PSP veio desmentir, ao fim da tarde desta sexta-feira, num comunicado no qual descreve os seus procedimentos no caso e garante ter iniciado logo a investigação.

Esperemos que sim, que não se tenham desperdiçado dez dias. Que haja o mais depressa possível respostas sobre o que se passou, e que a existirem responsáveis sejam identificados e punidos. Um miúdo de 21 anos morreu; devemos-lhe saber porquê. Que não se perca isso de vista ao querer fazer dele bandeira.

Jornalista

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