Governo francês joga futuro com a reforma das pensões

Sexto dia de greve em França, segundo nas ruas, mas com menos participação, na véspera do anúncio do primeiro-ministro sobre os contornos da origem da contestação: a reforma do sistema de pensões.

Centrais sindicais, presidência e governo, cada qual do seu lado da barricada, reuniram-se para acertar agulhas na terça-feira à noite. As primeiras para decidir se avançam com mais uma jornada nas ruas, os segundos para cerrar fileiras em volta da reforma das pensões.

Alguns ministros do executivo liderado por Édouard Philippe foram recebidos por Emmanuel Macron no Palácio do Eliseu para afinar discursos para uma reforma que faz parte do programa de transformação do país tal como desejado pelo presidente.

Quando, ao meio-dia, Édouard Philippe se dirigir ao país para explicar as ideias principais da reforma, uma parte dos franceses estará a tentar viajar nos transportes públicos, que vão continuar com grandes perturbações, tal como aconteceu na segunda e na terça-feira. Além dos engarrafamentos - em especial na grande Paris -, o transporte particular começa a ser ameaçado pelo bloqueio nas refinarias. Sete das oito encontravam-se nessa situação, o que começou a repercutir-se no abastecimento aos postos de combustível. Em comunicado, a Total informou que apenas 187 estações de serviço da sua marca se encontram em rutura. O governo, por seu lado, minimizou o impacto do bloqueio. "Não suscita qualquer preocupação", afirmou o executivo.

Tendo em conta que o objetivo dos líderes sindicais era de não baixar a guarda, governo e presidente devem estar otimistas quanto ao braço-de-ferro. "Na véspera do anúncio de Édouard Philippe seria bom se a mobilização não diminuísse", disse o secretário-geral da Force Ouvrière, Fabrice Lerestif. Mas não foi o que aconteceu. Segundo o Ministério do Interior, 339 mil pessoas saíram às ruas um pouco por todo o país, quando na quinta-feira passada foram mais de 800 mil. Na guerra de números, a confederação sindical CGT reconheceu que a adesão ficou pela metade, o que correspondeu agora a 850 mil manifestantes.

Aos sindicalizados há que acrescentar os coletes amarelos e os estudantes que se juntaram aos protestos.

"Há menos pessoas em Paris. Há menos pessoas nas províncias, mas a mobilização continua importante e o descontentamento mantém-se", reconheceu Philippe Martinez, secretário-geral da CGT.

O descontentamento ou a desconfiança relacionam-se com a forma como os 42 regimes de pensões (geral, função pública, especiais, privados, complementares, autónomos...) vão ser transformados num sistema universal por pontos, no qual por cada dez euros de quotização correspondem a um ponto.

Apesar do apoio esmagador dos franceses a uma reforma no setor (76%), segundo uma sondagem publicada pelo Journal du Dimanche , 64% não confiam nos dirigentes que a querem levar a cabo.

"Só porque vou fazer um discurso não significa que as manifestações vão parar. Não há anúncios mágicos", disse o primeiro-ministro numa reunião à porta fechada com o grupo parlamentar do seu partido, República em Marcha (LREM), como informaram à AFP. Segundo os participantes nesta reunião, vários deputados "insistiram na ideia de que retroceder seria uma séria perda de credibilidade".

Em 1995, após três semanas de greves e contestação social, o plano Juppé de reforma das pensões acabou no caixote do lixo.

Idade da reforma adiada

Os sindicatos não aceitam que os trabalhadores tenham de trabalhar mais anos para lá da idade legal de reforma, 62 anos, para poder receber a pensão sem penalizações. Segundo o que foi dado a saber pelo alto-comissário para as Pensões, Jean-Paul Delevoye, na segunda-feira, a idade para a obtenção da reforma por inteiro será de 64 anos, a aplicar a partir dos nascidos em 1963.

Mas outras questões prometem controvérsia, caso do período de transição dos regimes especiais, a atualização das carreiras do serviço público, especialmente para os professores.

"Entrei no sistema educativo nacional com base num contrato que só se degrada ao longo dos 24 anos em que leciono", disse a professora Daphne, na manifestação em Bordéus, à AFP. "Estas decisões destinam-se a dividir-nos como professores e a estigmatizar o serviço público. É um assalto", concluiu.

Emmanuel Macron, na noite de segunda-feira, depois de uma reunião no Eliseu dedicada à Ucrânia, fez apenas uma breve referência ao movimento social, referindo-se a "uma reforma indispensável". Não senti muita preocupação", disse ao lado do homólogo russo Vladimir Putin, com um sorriso.

A oposição não deixou passar em claro o gesto do presidente. "Ele ri-se, diz que não há preocupação e não vê onde está o problema", lamentou Guillaume Peltier, número dois dos republicanos (ex-UMP), criticando o "amadorismo" e a " insolência" de Emmanuel Macron, "primeiro responsável" pelas greves. "A sério, há um país inteiro em revolta e isso fá-lo rir-se, não está preocupado? Mas deveria estar preocupado", disse por sua vez o deputado da França Insubmissa, Alexis Corbière.

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