O toque de entrada para o derradeiro primeiro dia de aulas ainda nem se fez soar, já as mochilas de milhares de alunos do primeiro ano estavam a ser preparadas, com cadernos, canetas e conselhos para levar no dia-a-dia. O ano letivo arranca oficialmente nesta terça-feira e, para os pais, este primeiro dia pode ser motivo de grande ansiedade. Para os alunos representa a descoberta de um novo mundo, cuja primeira impressão poderá definir a forma como o percecionam dali para a frente. "É um marco importante", é certo, mas "não deve ser dramatizado". O psicólogo e especialista em educação infantil José Morgado explica como sobreviver ao início deste novo ciclo..A pequena Constança, de 5 anos, "perspicaz, curiosa e matura para a sua idade", pertence ao grupo de milhares de alunos que começa neste ano o seu percurso escolar, no primeiro ano. Mas, ao contrário do que costuma acontecer, na sua casa não há "friozinhos" na barriga ou qualquer sinal de nervosismo, garante a mãe Susana. Afinal, a filha continua no Colégio Santa Maria, no Porto, onde já fez o pré-escolar. Não esbarrar com o desconhecido "dá alguma segurança", admite. Em vez de nervosos, os pais dizem estar "curiosos para saber como é que ela vai reagir ao facto de passar tanto tempo parada". É já na suarta-feira que Constança dá início a um novo ciclo..Um ciclo que começou a ser preparado já nestas férias, conta Susana. "Comprei um manual de exercícios de primeiro ano. Mas sem forçar o desenvolvimento dela, para que não chegue à escola já sem paciência para isso. Serve para estimular, sempre em tom de brincadeira.".Uma prática "crucial" antes do grande dia, diz o especialista José Morgado. "É das coisas mais importantes que os pais podem fazer. Não necessariamente ensinar a ler, nem explicar que esta é a letra 'a' e aquela é a letra 'b'", mas, por exemplo, "contar histórias, mostrar os livros". Porque "uma casa onde há histórias é uma casa onde as crianças se sentem mais motivadas para aprender a ler e a criar hábitos de leitura". O que pode definir o sucesso escolar e a leveza com que encaram, mais tarde, a entrada na escola..A Constança foi explicado que "agora ia ser uma fase a sério, que não iria brincar todo o dia, que tinha de estudar e que a escola era o sítio onde ela ia estar sempre a aprender coisas novas". Mas o psicólogo alerta que é preciso ter cautela no discurso que junta "escola" e "seriedade". Apesar de ter dificuldade "em falar de educação a preto e branco, em dizer o que é certo e o que é errado", porque todas as crianças são diferentes, diz que há teorias que são transversais. Este tipo de discurso é "bem-intencionado", mas "pode criar ansiedade em alguns miúdos, porque lhes estão a dizer que tudo vai mudar". O que "pode ser assustador para uma criança", reitera..Os pais devem dizer "o que se faz na escola e não as consequências disso". "Brincar continua a ser a coisa mais séria que os miúdos fazem, embora seja frequentemente falada por oposição às coisas sérias", sublinha. Por isso, o verbo não deve ser descartado ou menorizado no discurso quando se explica, pela primeira vez, o que significará a escola..O psicólogo deixa outras pequenas prescrições às famílias, como falar sempre de forma positiva e tranquila sobre as aulas, não criar expectativas sobre aquilo que pode vir a ser exigente ou difícil, bem como ir conversando diariamente, no final de cada dia, sobre a escola. "Não uma conversa inquisitorial", esclarece José Morgado. "Mas perguntar o que gostou mais, sempre pela positiva. E perguntar sem juízos de valor. Porque se eu começar a julgar quando questiono estou a dizer à criança que ela não pode confiar em mim para me contar o menos bom.".No fundo, o segredo está em desdramatizar, simultaneamente reconhecendo a importância tanto do primeiro dia de aulas como dos primeiros anos de escola. "Podemos casar 50 vezes, mudar de emprego outras cem. Mas não podemos andar para trás e voltar a entrar na escola. É uma situação irreversível, por isso, temos de tentar o máximo", acrescenta o especialista..Pais e professores: quem tem o papel principal?.Susana está certa de que na escola de Constança todo o processo de transição do pré-escolar para o primeiro ciclo foi bem preparado e desde cedo. Quando a filha estava na turma de pré-escolar, já "as crianças tinham interação com os da primária". "Iam visitá-los, para perceberem como funciona o dia-a-dia deles". Deixaram logo a agenda em cima da mesa: "Explicaram-lhe que ia ter uma hora e meia a trabalhar e depois também teriam tempo para brincar, voltavam mais um bocadinho e iam almoçar.".Ou assusta ou entusiasma. Os primeiros dias de escola são uma autêntica novidade e, para que tudo corra bem, sem mazelas futuras, esta deve ser uma dança a dois: entre professores e encarregados de educação..A começar no derradeiro dia, que "na esmagadora maioria dos casos nem envolve aprendizagem pura e dura, mas sim atividade de receção", lembra José Morgado. Segundo o especialista, um bom professor deve entender que as crianças "precisam de tempo não para aprender as matérias escolares, mas para conhecer a própria escola: as rotinas da instituição, onde são as salas, como se sentam, como falam, como é que se organizam, onde é o refeitório". Só depois, "dentro de dois ou três dias", devem começar "a ensinar-lhes o resto". Considera que "é o tempo necessário de adaptação, para entrarem de forma mais tranquila e ajustada"..Mas o trabalho deve fazer-se entre casa e escola, numa relação de constante "cooperação". "Os dois papéis são importantes, mas é crucial que os pais tenham alguma liderança neste processo e que mantenham a consciência do trabalho que vai sendo feito na escola", diz o psicólogo. "Pedem que me envolva no dia-a-dia do meu filho, mas se eu não souber o que estão ou vão fazer na escola, eu não me consigo envolver mesmo que eu queira. A não ser que lhe pergunte, claro, mas é diferente eu perguntar a um miúdo quais as atividades que está a fazer e perguntar a um professor." O que acontece com frequência, diz, é que "os pais só são chamados quando alguma coisa não está bem", por isso, alguns "começam a afastar-se um pouco da escola"..Perante o reconhecimento do primeiro dia de aulas como marco na vida de pais e alunos, o governo declarou dispensa até três horas para funcionários públicos, neste dia, para poderem levar os filhos à escola. O diploma, promulgado pelo Presidente da República, "determina que os trabalhadores da administração pública responsáveis pela educação de menores de 12 anos têm direito a faltar justificadamente com vista ao seu acompanhamento no primeiro dia do ano letivo, até três horas por cada menor"..Professores em luta, falta de auxiliares e outros desafios do novo ano.Um pouco por todo o país as escolas reabrem portas com alguns novos e velhos desafios..A começar pela promessa do Ministério da Educação, ainda por ver cumprida, de contratar mais de mil assistentes operacionais a tempo inteiro nas escolas. Em fevereiro deste ano, face à falta de auxiliares registada nos estabelecimentos de ensino, foi anunciada a contratação de 1067 assistentes operacionais com contratos a tempo inteiro. Segundo garantiu o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, em entrevista ao DN, o concurso deverá estar concluído "por volta de outubro, durante o decorrer do primeiro período", mas o ano começa com a falta destes funcionários..Os atrasos na publicação de despachos e processo tão morosos quanto complexos são algumas das causas que têm armadilhado a conclusão da contratação urgente destes funcionários, garante..Mas não é a única classe que arrisca a sua presença nas escolas. Depois de um último ano letivo em luta, os professores voltam a ameaçar com greve, a 21 de outubro, caso venham a confirmar-se "ilegalidades e abusos" nos horários de trabalho dos professores. O anúncio foi feito esta segunda-feira pelo secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira. Segundo o representante, caso as escolas os obriguem a trabalhar além das 35 horas semanais previstas por lei, a 7 de outubro será entregue um pré-aviso de greve..A Fenprof defende que se trata da "defesa do horário de trabalho" dos professores, que, por lei, são 35 horas semanais e não cerca de 50 horas semanais, o que sucede "muitas vezes" devido a reuniões e "trabalho burocrático" fora do horário, tirando "a capacidade dos professores de se concentrarem nos seus alunos"..Até dentro das salas de aulas as mudanças vão ser sentidas, este ano letivo, com o aumento da flexibilidade curricular das escolas em mais de 25%. Durante o mês de julho, todas as escolas do país podiam concorrer com Planos de Inovação. Umas optaram apenas por transformar turnos em semestres escolares. Outras opções são ir mais longe, com a criação de disciplinas e fusão de matérias. Segundo o ministério, uma iniciativa criada com o objetivo de reduzir ou abandonar a escola e aumentar o sucesso académico, bem como a autonomia pedagógica, curricular, administrativa e cultural das escolas