Ventura agradece a ajuda

Sem ilusões, quando se aproxima uma chuva de milhões e se alteram as regras para gastar mais rapidamente o dinheiro, como já aconteceu em 2008 com a aprovação do Código dos Contratos Públicos, o mais provável é que a urgência no combate à crise seja uma boa desculpa para flexibilizar essas regras e, assim, escancarar as portas à criminalidade. O que pode vir a acontecer não é uma certeza, mas há muito conluio, muita cartelização e muita corrupção a serem investigados e julgados pelo que aconteceu nesse passado recente, e isso serve-nos de aviso quando a história começa a repetir-se.

Volta a chuva de milhões, volta a flexibilização das regras nos contratos públicos, e só não podemos afirmar, com certeza, que vão crescer o conluio, a cartelização e a corrupção. Mas os avisos de que tudo isto pode acontecer, esses também já foram repetidos. E a ideia de que quem avisa amigo é não se aplica nunca nestas histórias. Convenhamos, o país não fica obrigado a ser mais corrupto porque muda a lei e recebe milhões, mas dá para desconfiar, até porque já começaram a aparecer os políticos a apontar o dedo aos que desconfiam. Caladinhos, é assim que eles gostam dos portugueses. Como se a culpa fosse dos que desconfiam destes movimentos e nada houvesse para questionar.

Só mentes conspirativas são capazes de imaginar que em Portugal há corrupção. Os puros sabem que tudo isso é uma inexistência. Não há um juiz expulso, uma jubilada e mais dois suspensos em tribunais superiores. Nem um magistrado do Ministério Público condenado a uma pena de prisão efetiva a aguardar em liberdade que o recurso seja decidido. Nem um primeiro-ministro acusado, nem ex-ministros julgados, condenados e a cumprir prisão. Nem um grande banqueiro apontado como o manobrador-mor de uma elite que vivia dobrada com o peso dos salamaleques. E tudo isto só pode significar que a justiça funciona, mas também deixa em muitos portugueses a ideia de que o país está a saque e que quem os rouba é quem tem dinheiro e poder.

Estranho, é mesmo estranho que políticos experimentados, como Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, sejam arrogantes na forma como tomam decisões, sem cuidarem de dar o máximo para explicar tudo muito bem explicadinho, de preferência com efeitos profiláticos. A extrema-direita cresce, cavalgando o receio do povo de que os políticos sejam todos iguais, e eles cantando e rindo. Trocando primeiro a procuradora-geral da República (PGR) e depois o presidente do Tribunal de Contas (TdC). E até podem estar certos na ideia de que um mandato único aumenta o grau de independência e isenção nos líderes destas instituições, mas o que parece nem sempre é, e o que vimos foi uma PGR e um presidente do TdC disponíveis para cumprir novo mandato, sem que isso os impedisse de serem intransigentes com o poder político.

Ajuda ainda menos que o líder da oposição apareça amarrado a estas decisões. Primeiro, deixando que fosse anunciada a sua escolha por José Tavares para o TdC em detrimento de outra hipótese, esclarecendo tardiamente que a sua opção seria manter o anterior presidente. Se era, deveria ter recusado assumir entre duas propostas que lhe chegavam exatamente de quem tinha decidido correr com Vítor Caldeira, tanto mais que ao mesmo tempo Rui Rio tinha dado ordens ao seu partido para resolver com o Governo as alterações ao Código dos Contratos Públicos. Se tudo isto aconteceu por convicção, deveria ser bem explicado ao povo que os elege e tem de viver com as decisões que eles tomam; se foi aselhice política, deveria ser corrigido com o máximo de brevidade.

Jornalista

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