Premium O milagre do Sol, segundo Afonso Lopes Vieira

O poeta terá presenciado o fenómeno, a partir da varanda de sua casa, em São Pedro de Moel. A 13 de outubro de 1917 - data da última aparição de Fátima - os movimentos do Sol tornaram crente um homem que era assumidamente ateu. Sabe-se hoje que é ele o autor do Ave de Fátima, que assinou na qualidade de servita, depois de se converter.

Há 103 anos, o dia estava soalheiro. Da varanda da casa construída em pleno areal da praia de São Pedro de Moel, o poeta Afonso Lopes Vieira faz o de sempre: admira o infinito (que às vezes fotografava), inspira-se ali, "onde a terra acaba e o mar começa". Já lhe chegaram relatos do que anda a acontecer em Fátima desde maio, mas um ateu como ele não dá grande importância. Por volta do meio-dia, o fenómeno do Sol - que terá acontecido igualmente na Cova da Iria - há de mudar para sempre a visão que tinha da religião, e até da vida. "Embora eu não tenha encontrado nada escrito por ele em que deixe explícito esse acontecimento e essa mudança, segundo o historiador Costa Brochado, foi o que aconteceu." Quem fala ao DN é Cristina Nobre, que tem dedicado toda a vida académica à obra do poeta. Há até um sobrinho-neto dele que brinca com ela e lhe chama "a viúva de Afonso Lopes Vieira". Cristina diverte-se com o epíteto, embora reconheça que desde a descoberta, no doutoramento, estabeleceu com ele uma ligação eterna: "Eu apaixonei-me por Afonso Lopes Vieira, é verdade."

Cristina Nobre conhecia aquela vista da casa desde bebé. Natural da Marinha Grande, não tem memória de outras férias na infância que não ali, junto à casa-nau (o edifício faz lembrar um barco, como se entrasse pelo mar adentro), o paredão, a capela, a colónia balnear - que ele manda construir para oferecer dias de férias aos filhos dos trabalhadores da região. E o Ave de Fátima escrito em conchas, na parede caiada. Haveriam de passar muitos anos até mergulhar, também ela, no universo que a casa (hoje museu) encerra.

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