Premium "A vida em mochila" dos estudantes que não encontram casa no Porto

Vêm de fora da cidade (ou do país) e vivem em sofás de amigos enquanto procuram quarto a um preço que consigam pagar. Em outubro, ainda há estudantes sem casa no Porto.

"Vi um anúncio de um quarto a 200 euros, no Bonfim. Fui lá e o proprietário levou-me a uma ilha na Ribeira. Queria que eu alugasse uma casa, que não tinha janelas nem casa de banho, por 400 euros por mês. Há muita gente que se aproveita, há muita falta de respeito." Quem o relata é Gabriel (nome fictício), estudante de 30 anos que veio de Curitiba, Brasil, para fazer o Mestrado em Multimédia na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Chegou ao Porto há três semanas e há três semanas que vê anúncios "a todo o dia, a toda a hora". Ficou em casa de um conhecido, que tinha um quarto disponível porque as inquilinas estavam fora temporariamente, e, dez dias depois, saltou para casa de uma outra amiga, no Bonfim. Desde então, está a viver no sofá da sala de estar, enquanto procura alojamento definitivo. Ainda não desempacotou as coisas da mala. "É a vida em mochila", lamenta: "Eu já tenho conteúdo para estudar, coisas para fazer, mas não tenho um espaço, um sítio confortável onde possa pôr a minha música, estudar, ter a minha privacidade."

Quando falou com o DN, Gabriel (que pediu o anonimato por questões de segurança) já tinha visitado mais de 15 casas, mas nunca tinha conseguido ficar com nenhuma: "Se quando vais ver a casa não levas logo o dinheiro para fechar o negócio, vais perdê-la. Aconteceu-me várias vezes. Deixava para confirmar no dia seguinte e depois 'já era'."

Há dias, encontrou, por fim, uma casa com um quarto disponível a 270 euros, no Bonfim, onde vivem já três pessoas. A velocidade a que se fez o negócio foi alucinante. Quando ligou para o proprietário, o anúncio tinha sido publicado há 4 horas no Facebook. Quarenta minutos depois da chamada, Gabriel foi visitar o quarto juntamente com outra estudante interessada, o que foi "bastante intimidante", confessa. E o proprietário chegou a gabar-se de pior: "Ele contou-nos que já chegou a receber cinco pessoas ao mesmo tempo para ver um quarto." Entretanto, aquando da visita, "o telefone não parava de tocar com mais interessados". Com medo de perder o quarto, Gabriel fechou negócio na hora - já levava dinheiro para isso mesmo. Mas ainda terá de ficar mais uns tempos no sofá, porque o quarto só fica vago a meio de outubro.

"Ele contou-nos que já chegou a receber cinco pessoas ao mesmo tempo para ver um quarto".

Apesar de soar a insólito, não foi a primeira vez que o estudante brasileiro visitou um quarto lado a lado com outros interessados. É desconfortável, é um incentivo à competitividade, mas é "comum": "Estive numa casa antiga perto dos Poveiros, onde moravam sete franceses e italianos que estavam à procura de mais um inquilino. Convidaram-me para ir beber uma cerveja com eles, no terraço, e eu achei legal, pensei que um passo já estava dado. Mas quando cheguei lá, vi que estavam a receber mais duas pessoas para além de mim. Era uma espécie de entrevista de emprego, uma dinâmica de grupo. E a casa era terrível, era preciso deitar água para a sanita com um balde, havia cheiro a mofo, o teto estava a cair. E queriam 250 euros por um quarto."

"Se fosse hoje, tinha concorrido para Bragança ou Vila Real"

Desde cedo que Soraia Cotovio, natural de Torre de Moncorvo, olhava para o Porto como "a cidade de eleição para estudar", influenciada por amigos e familiares que já lá tinham feito os estudos. "Via sempre um mundo completamente diferente daquele que temos em Trás-os-Montes", conta ao DN. Tal como sonhara, entrou na Universidade do Porto no ano passado. Mas, se soubesse o que sabe agora, talvez tivesse feito uma escolha diferente: "Se fosse hoje, tinha concorrido para Bragança ou Vila Real. Vim por gosto, foi a minha primeira opção, mas esta situação dos preços das casas mexe connosco. Mais até pela situação dos nossos pais, porque nós não trabalhamos e sabemos que para eles é complicado estar a investir tanto dinheiro."

Há um mês que a estudante do 2.º ano de Ciências da Comunicação, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, está a viver em casa de amigos de família. Sente-se bem onde está, mas o "medo de estar a incomodar" está sempre presente. E já não é a primeira vez que passa por isto. No ano passado, só encontrou quarto no final do primeiro semestre. Para que o custo fosse suportável, juntou-se a uma colega de curso e partilharam um quarto no Amial, a 15 minutos de distância de autocarro da faculdade. Mas neste ano a situação "está pior". "Tive mais tempo para procurar e mesmo assim está impossível, os preços são muito altos", argumenta.

Começou a procurar casa em julho, juntamente com a amiga, no fim do ano letivo passado. Mas não encontraram nada adequado ao bolso delas: "Vimos quartos a custar até 440 euros, visitámos casas que não correspondiam em nada às fotos que nos tinham mostrado, vimos um T2 em que, desde o início, o proprietário disse que não fazia contrato nem passava recibo." Para fugir aos preços mais elevados, procuraram casas desviadas do centro da cidade - como Águas Santas -, mas, feitas as contas com o custo dos transportes, viram-se obrigadas a descartar a opção. Após meses de procura, Soraia diz já estar disposta a pagar 275 euros por um quarto partilhado com a colega, que, para já, vai e vem todos os dias de Paredes. Uma opção impraticável para a estudante de 18 anos de Torre de Moncorvo, que demora três horas a chegar ao Porto de autocarro.

Em outubro, as duas alunas continuam a visitar diariamente sites de aluguer de casas, grupos de Facebook com o mesmo propósito e estão sempre atentas a anúncios que possam aparecer em cafés. E não são as únicas. "Vejo, a partir das respostas aos anúncios no Facebook, que ainda há muitos estudantes à procura", adianta Soraia.

"Preciso de um sítio para deixar as minhas roupas"

Até há uns dias, Edgar Figueira fazia parte desse grupo. Apesar de estar agora no 3.º ano de Geografia, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, este é o primeiro em que optou por ficar a viver no Porto. Até agora, ia e vinha de Estarreja todos os dias. Mas "as notas não têm sido as melhores" e, por isso, fez um requerimento aos Serviços de Ação Social da Universidade do Porto (SASUP) para pedir um lugar numa residência universitária, explicando que "poderia ter um melhor aproveitamento se estivesse a viver na cidade". "Eles disseram que iam estudar o meu caso e iam ter em conta se iria beneficiar de bolsa. Mas até agora não recebi resposta", revela - "O ano letivo já começou e eu preciso de um sítio para deixar as minhas roupas, lavá-las, secá-las, comer, estudar. Se não fosse os meus colegas, onde é que eu estava?"

Há um mês que o jovem de 21 anos está a viver na sala de estar de uns colegas de curso, perto da Boavista. No verão, combinou alugar casa juntamente com três amigos, mesmo colocando a hipótese de alguns ficarem a partilhar quarto. "Só que os preços eram muito altos para nós", explica: "Os valores para um T2 rondavam os 500, 550 euros, sem despesas. E depois, ao aproximar-se o ano letivo, um T3 já custava 750, 800 euros." Entretanto, um colega desistiu da ideia, dois foram viver juntos e, para Edgar, foram três meses de procura infrutífera.

Recentemente, os colegas que lhe ofereceram estada na sala de estar, propuseram que ele partilhasse um dos quartos com um inquilino. A contar com Edgar, naquele T4 vão passar a viver seis estudantes. O custo do aluguer ainda não está definido, mas Edgar julga que, pelo quarto partilhado, pagará um máximo de 150 euros. Pelo menos, enquanto não recebe uma resposta definitiva dos SASUP, que gerem as nove residências da Universidade do Porto, com capacidade para acolher cerca de 1200 estudantes. Uma lotação máxima "muito baixa para a dimensão da universidade", argumenta Edgar. No ano letivo de 2015-2016, a Universidade do Porto acolheu 31 820 estudantes, sendo que 5510 eram bolseiros.

O jovem, que não quis ser fotografado para salvaguardar a situação dos colegas que lhe ofereceram casa, não tem dúvidas de que a dificuldade em encontrar alojamento está a prejudicar os estudos de muitos alunos e a condição económica de várias famílias: "Existem estudantes que não têm tempo para eles próprios porque têm de ir trabalhar para pagar a casa e as propinas. E começa a ser um 'esticão' para famílias que não têm tantas posses." Soraia, que é da mesma opinião, acrescenta: "As pessoas que são de mais perto, embora haja muitas desvantagens, ainda podem fazer o esforço de ir e vir todos os dias. Mas, para as pessoas que são de mais longe, torna-se mais complicado. E começa a pôr-se a questão "Porque não optar por ficar mais perto e ter preços de alojamento muito mais baratos?".

Apesar de ter de andar a saltar de sofá em sofá, Gabriel reconhece "ter sorte", por ter amigos que se disponibilizaram para o ajudar: "Há muita gente que, durante a procura de casa, fica num Airbnb ou num hostel a pagar uma fortuna e a dividir o quarto com mais seis pessoas." Ou pior. Relembremos que, no final de setembro, o presidente da Federação Académica do Porto, João Pedro Videira, disse que a FAP teria conhecimento de que "havia dois estudantes que estavam a dormir no carro por ainda não terem encontrado alojamento". Até à data, o dirigente estudantil não conseguiu obter mais informações sobre o paradeiro atual dos universitários.

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