"Magalhães é morto na única vez em que passa de corajoso a temerário. Julga-se invencível"

O jornalista italiano Gianluca Barbera inventa um Juan Sebastián de Elcano velho como narrador e conta a partir do ponto de vista do espanhol a epopeia de Fernão de Magalhães, que diz ser um drama shakespeariano. O DN entrevistou-o em Lisboa. Um compatriota desse Pigafetta que relatou a viagem iniciada a 10 de agosto de 1519, faz hoje 500 anos.

Faz hoje 500 anos que partiram de Sevilha as cinco carracas da expedição de Fernão de Magalhães ao serviço de Espanha. Entre as muitas biografias do navegador português que foram sendo publicadas, a maior parte de historiadores, destaca-se esta versão romanceada, de Gianluca Barbera, italiano como esse Antonio Pigafetta que escreveu o relato da viagem financiada por Carlos V e que terminou com a circum-navegação do planeta pelo espanhol Juan Sebastián de Elcano. O jornalista esteve em Lisboa em março a convite do Instituto Italiano de Cultura e deu uma palestra no auditório do Museu da Farmácia. Foi quando o DN o entrevistou. Agora a efeméride, primeira de muitas de uma epopeia que durou três anos, serve de pretexto à publicação e entretanto saiu já a edição portuguesa de Magalhães (Editorial Presença).

Tem havido uma certa polémica entre portugueses e espanhóis, sobretudo nos jornais, a propósito da celebração dos 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães. Espanha a reivindicar que a expedição foi 100% espanhola, paga por Carlos V. E Portugal a relembrar que sem o génio do navegador nada teria sido possível e que este era português. Como é que um italiano, que escreveu um livro sobre Magalhães, olha para esta disputa, até porque o grande narrador da expedição era também italiano, Antonio de Pigafetta?
É uma polémica um pouco como a que por vezes existe em torno de Cristóvão Colombo: era genovês? Era espanhol? Até chega a ser reivindicado por outras nacionalidades. No que diz respeito a Magalhães, li, antes desta minha vinda a Lisboa, um livro intitulado História Concisa de Portugal, de José Hermano Saraiva. E não é sequer referido Magalhães. Não aparece, não existe. Sei que se trata de uma história concisa, mas foi um grande português, um grande feito de um português. E agora que vou editar este livro em Portugal, na Presença, noto também interesse no Brasil, pela Autêntica, mas nenhum interesse por parte de uma editora espanhola. É curioso. Bem, eu escrevi sobre Magalhães, mas Magalhães continua um mistério, não a nível da nacionalidade, mas como pessoa. E depois de muito ter investigado para o meu livro a conclusão a que chego é a de que Magalhães é uma daquelas figuras que pertencem a todos, como acontece, por exemplo, com Leonardo Da Vinci, que acaba por ser muito mais do que um italiano. E não digo que seja também francês, mas que é sim património da humanidade. São pois personagens que transcendem a sua nacionalidade. Magalhães é património da humanidade. Um português património da humanidade.

Mas uma criança italiana, um jovem italiano que ouça o nome Magalhães, identifica-o imediatamente como português?
Isso é outra história. Se perguntarmos hoje a um jovem de 20 anos em Itália de que país era Magalhães irá responder que era italiano. Porque o nome foi latinizado, na época era costume, e depois italianizado, Magellano, o que faz que muitas personagens pareçam italianas para quem estudou menos os assuntos. Claro que uma pessoa mais culta sabe que foi português, mas também que a expedição foi financiada inteiramente pelo rei de Espanha e por armadores espanhóis e que não foi investido um tostão que fosse de Portugal.

Além da liderança de Magalhães, os principais cartógrafos são portugueses. Há quem diga que Espanha pagou a expedição, mas que a comissão científica era portuguesa.
É verdade. Na época, tanto Portugal como Espanha faziam grande segredo de tudo o que iam descobrindo sobre os mares. Os navegadores que regressavam com informações preciosas do resto do mundo eram levados a confiar ao arquivo régio esses documentos. Mas Magalhães, que além de muito ter navegado ao serviço de Portugal também teve acesso aos arquivos portugueses, consegue ser contratado pelo rei de Espanha por causa desse saber. Ele defende conhecer a existência de uma passagem através do novo continente que viremos a chamar de América, uma passagem que estaria entre os paralelos 40 e 50, mas na realidade estava ainda mais a sul. E reconhece que é em documentos portugueses que encontrou essa informação, o que o torna credível junto de Carlos V, que chegou a temer que se tratasse de um espião.

O seu livro, que é um romance histórico, retrata então Magalhães como um herói, alguém que tem não só o conhecimento científico e técnico como tem a coragem de liderar aquela tripulação multinacional e muitas vezes rebelde na travessia do estreito de Magalhães e depois da travessia do oceano Pacífico, que é por ele batizado?
O mérito da expedição é 100% de Magalhães. É claro que o financiamento vem de Espanha, mas não só todo o projeto é de Magalhães como, ainda por cima, os espanhóis a bordo fizeram tudo para lhe pôr obstáculos, para a fazer falhar. Os três capitães espanhóis, da Concepcion, da San Antonio e da Victoria, Gaspar de Quesada, Juan de Cartagena e Luiz de Mendonza, fazem-lhe guerra desde o início (outro navio com capitão espanhol, a Santiago, de Juan Serrano, naufraga na Patagónia). Estão lá para vigiá-lo, porque o rei confiou nele, mas na corte houve conselheiros que sugeriram que o português ficasse sob vigilância porque havia muito dinheiro espanhol envolvido. É sobretudo Cartagena que tem esse papel de vigilante, como inspetor real, e tanto que em certo momento os dois homens disputam quem manda mais. E se é evidente que quem manda é o almirante, o comandante da armada, na Trinidad, Cartagena exige um poder quase igual e o confronto tornou-se inevitável, com Magalhães a ter uma vitória absoluta. Mostra-se mais inteligente do que o outro, mas não só. Mostra também que tem um objetivo, sabe o que quer, enquanto os outros estão ali por estar, em convicção. O mérito é pois todo da enorme força de vontade de Magalhães e eu, no meu livro, insisto em dizer que Magalhães é um homem preso a um sonho, uma obsessão, que ao longo da viagem não escuta ninguém, não discute com ninguém, e por isso também há tripulantes que temem que o almirante não saiba para onde vai e se revoltam ou desertam.

Este homem tão inteligente, como diz, morre nas Filipinas, numa guerra que lhe é alheia mas em que faz questão de intervir, em apoio de aliados que mal conhece. É vítima de um excesso de confiança, agora que já cruzou o Pacífico e está a chegar próximo das ilhas das especiarias, as Molucas?
Morre por exclusiva culpa sua. É o único momento em que Magalhães põe de lado a prudência. Até então tinha-se revelado um calculista, um homem prudentíssimo, ousado mas prudente. Antes de fazer qualquer coisa, estuda-a a fundo, calcula as possíveis consequências dessas ações. É um homem corajoso, não um temerário. O que é que acontece nas Filipinas? Pela primeira vez, naquele arquipélago que batiza como ilhas de São Lázaro e só mais tarde serão rebatizadas em honra do futuro Filipe II, este navegador profundamente católico convence-se de que Deus está ao seu lado na viagem, de que está a ajudá-lo. Também a experiência anterior de disparar armas de fogo e pôr grandes massas de indígenas em fuga lhe dá excesso de confiança. A isso soma-se a ideia generalizada de que os outros povos tinham uma espécie de temor reverencial aos europeus, vistos como divindades ou semideuses. Mas os habitantes das Filipinas eram diferentes, já conheciam, por exemplo, os árabes. Não podiam ser confundidos com os indígenas da Patagónia. Foi o primeiro erro de Magalhães, desvalorizar o inimigo. O segundo foi não calcular bem a distância a que os navios tiveram de fundear, por causa da maré baixa. Ficaram muito longe da costa, sem capacidade de bombardear a praia para proteger a fuga dos europeus. O rei da ilha de Cebu segue-o com 1500 guerreiros, e deveria intervir em seu auxílio mas não o faz. É Magalhães que recusa a ajuda, para poder exibir o poder de fogo europeu. E chega a Mactan, pequena ilha junto a Cebu, sem ter também grandes informações. É a única vez em que passa de corajoso a temerário, até fanático. Deixou-se convencer de que era invencível.

Acaba por ser o espanhol Juan Sebastián de Elcano que assume a liderança e traz o que resta da tripulação para a Europa a bordo da Victoria em 1522. Qual o mérito deste homem? O ter controlado os marinheiros num momento de desespero? O ter achado a rota de regresso, mesmo que por mares controlados por Portugal e contra as ordens de Carlos V, que não queria provocar D. Manuel I?
No meu romance, violo um pouco a história, pois imagino um velho Elcano a contar a história. Dele sabe-se pouco. Mas quando chega apropria-se um pouco do mérito de Magalhães. Para justificar as suas opções tinha de desacreditar o português. Ele chegou a ser um dos amotinados, poupado por Magalhães porque era preciso gente para continuar a navegar. Os fugitivos da San Antonio, que desertaram no estreito de Magalhães, quando sabem que o português morreu, ficam aliviados, porque Elcano é um dos seus, um cúmplice. Elcano trai Magalhães. No meu romance ponho-o a trair três vezes: a primeira vez no motim, a segunda quando Magalhães cai ferido e Elcano só pensa em salvar a pele e a terceira vez quando chega a Espanha e tenta ficar com todos os méritos. Recebe títulos e recompensas. Passa a ser o descobridor e circum-navegador do globo. E lança acusações de traição e de violência gratuita sobre Magalhães. Mas o seu destino fora da ficção estava traçado, não chegou a velho. Quando volta a seguir o rumo do Pacífico, poucos anos depois, morre. Morre no Pacífico. É a sua némesis. A vingança que acaba por chegar, a punição pela mentira.

E para ajudar a esclarecer a verdade da expedição o relato de Pigafetta é vital?
Sim, sim. Pigafetta, que está por sua conta, dá a volta ao mundo e escreve tudo o que se passa. É o grande defensor da verdade histórica. Para Pigafetta, Elcano não existe. No que escreve dá pouca atenção aos aspetos políticos, mas mesmo assim afirma que os capitães espanhóis faziam guerra em permanência a Magalhães só por este ser português. A personagem central de toda a relação de Pigafetta é Magalhães. E, quando este morre, escreve que morreu quem os guiava. O relato de Pigafetta é entregue a Carlos V e desaparece. Regressado a Itália, Pigafetta conta a história e é desafiado a reescrevê-la. Assim, o relato que conhecemos hoje é a versão a partir da memória. A corte espanhola na época fez desaparecer o original porque não tinha interesse em que se soubesse o que se passou. Em vez de promover a imagem de um português, quiseram fazer crer que foi Elcano a figura-chave.

Um italiano a escrever sobre Magalhães. Porque não escreveu sobre Colombo ou Américo Vespúcio, grandes marinheiros italianos, ainda que ao serviço de outros países?
Já arranjei maneira de me desculpar junto dos italianos, porque o meu próximo livro é sobre Marco Polo [risos]. Quando quis escrever um romance que contasse a grande epopeia das descobertas geográficas do século XVI pensei em construí-lo em redor de uma figura imaginária, que fosse um misto de Colombo, Vespúcio, Caboto, etc. Mas quando me envolvi na história de Magalhães disse que isto era puro Shakespeare, uma tragédia perfeita. Com a morte do herói. Magalhães é melhor do que qualquer herói imaginário.

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