Portugal dispensou apoio de dois aviões italianos na véspera do fogo

Proteção civil italiana tinha tudo preparado no dia 1 de agosto para enviar os meios, tendo em conta a vaga de calor e o risco elevado de incêndio. No dia 2, Portugal dispensou a oferta. Pediu ajuda a Espanha quatro dias depois

O Governo italiano disponibilizou no passado dia 1 de agosto dois aviões Canadair para apoiar Portugal na situação que, àquela data, era definida como "excecional e de alto risco de incêndio" devido às altas temperaturas. A oferta italiana enquadrava-se no mecanismo europeu de proteção civil e não foi concretizada porque no dia 2 de agosto, véspera do início do incêndio em Monchique, Portugal ter dado indicações para que a ajuda em meios aéreos ficasse em stand-by.

Contactado pelo DN o Ministério da Administração Interna (MAI) confirmou que foi acionado em Bruxelas, de forma preventiva, o mecanismo europeu. "Portugal acionou preventivamente o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, antecipando a possibilidade de ter de reforçar o dispositivo de meios aéreos devido ao risco de incêndio previsto para todo o território continental", explicou fonte do MAI. O incêndio de Monchique acabou por "motivar um pedido de auxílio a Espanha, através do mecanismo bilateral, estando integrados no dispositivo 3 meios aéreos espanhóis", concretizou a fonte.

A explicação para esta estratégia nos meios aéreos estrangeiros é explicada pelo MAI. "A opção foi por dar preferência a aviões Canadair a operar a partir de Espanha, imediatamente disponíveis e com menores exigências logísticas". A mesma fonte acrescenta que se trata de um procedimento normal, já que o acordo bilateral com Espanha é mais fácil de pôr em prática e a ajuda externa nem sempre é necessária, dando o exemplo da Grécia, em que Portugal disponibilizou uma equipa de bombeiros para combater os fogos que provocaram 93 mortos que veio a ser dispensada por Atenas. A rejeição do apoio pelo governo da Grécia ocorreu mesmo depois da tragédia, numa altura em que os incêndios estavam já controlados.

Italianos tinham equipa pronta

No comunicado que se encontra na página da Proteção Civil de Itália lê-se que "o presidente do Conselho de Ministros, de acordo com o Departamento de Proteção Civil e o Departamento de Bombeiros, ordenou a expedição de dois CL 415 Italianos Canadair para Portugal para enfrentar a situação excecional de alto risco de incêndio no país. As aeronaves foram ativadas por Bruxelas a pedido do governo português no âmbito do Mecanismo Europeu de Proteção Civil. Continua o compromisso da Itália no exterior, no contexto do que o mecanismo operou recentemente na Suécia e na Grécia".

Na mesma nota, as autoridades italianas frisavam que o "envio dos veículos aéreos foi oferecido tendo em consideração as necessidades no território nacional", garantindo que havia resposta eficaz na frota aérea para a gestão de incêndios em Itália. "Para apoiar os pilotos, a fim de garantir os contactos necessários com as autoridades locais de proteção civil, um representante do Departamento Italiano de Proteção Civil e do Corpo Nacional de Polícia participam na missão", refere a nota italiana. Mas não participaram.

No dia seguinte, 2 de agosto, havia uma atualização: "Por indicação das autoridades portuguesas, a missão está atualmente em stand-by." O envio dos dois aviões chegou a ser dado como certo em alguns meios informativos especializados em Itália, que no dia 2 de manhã escreviam que os Canadair estavam a caminho de Portugal.

Tudo isto aconteceu antes do grande incêndio em Monchique, que começou na sexta-feira, dia 3. Sábado foi um dia em que as temperaturas em Portugal subiram para lá dos 40 graus e no domingo o fogo na serra algarvia ganhou proporções inquietantes, com as chamas às portas de Monchique.

Ao quarto dia pediu-se apoio

Na segunda-feira, era anunciado o reforço dos meios no Algarve com dois aviões de Espanha. "Neste momento, o governo espanhol já disponibilizou dois Canadair. Caso haja condições de atuar, hoje mesmo à tarde, provavelmente, já cá teremos os dois", disse Artur Neves, secretário de Estado da Administração Interna, aos jornalistas, durante um balanço matinal da situação do incêndio. Acabaram por vir três Canadair de Espanha. Mesmo assim o fogo não parou nos dias seguintes, com mais de 300 pessoas retiradas das suas casas, 21 mil hectares ardidos, e a destruição de habitações e outros bens.

Ao sétimo dia, o fogo parece estar mais controlado embora não tenha sido ainda dado extinto. Patrícia Gaspar, 2º comandante operacional da ANPC, garantiu que já não havia frentes ativas e que se pode iniciar o realojamento das pessoas que foram obrigadas a sair de casa. Foi no concelho de Silves que mais evacuações ocorreram na quarta-feira, com um final de tarde angustiante em várias localidades. A autarca de Silves, Rosa Palma, criticou a falta de comunicação e de coordenação entre a Proteção Civil e as forças locais. A maioria das pessoas já regressou a casa.

Neste momento, ainda se combate o fogo, mas já é possível fazer balanços. Em Monchique, a Câmara estima que tenham ardido cerca de 50 habitações, enquanto os produtores de medronho apontam para a perda de dois terços da produção.

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