O medronho que o fogo levou

Incêndio de Monchique terá destruído dois terços da produção algarvia de medronho. Árvores vão recuperar - são das mais resistentes - mas vai levar quatro anos até produzirem outra vez.

A zona onde se produz o medronho de melhor qualidade foi precisamente onde começou o incêndio na serra de Monchique. E, ao fim de sete dias de fogo, estima-se que tenham sido destruídos pelo menos "dois terços" da área de medronhal.

Paulo Rosa, presidente da Associação de Produtores de Aguardente de Medronho do Barlavento Algarvio, está pessimista. "Não tenho dados concretos ainda, porque o incêndio ainda não terminou e não há levantamento, mas pelo que conheço o terreno, as propriedades dos produtores e as zonas mais afetadas pelo menos dois terços da zona de medronhal devem ter sido completamente destruídos." A zona que o incêndio percorreu, nos primeiros dias, era praticamente só medronhal e, segundo a Apagarbe, "é a zona que tem mais produtores", para cima de 50.

Além da produção da tradicional aguardente, o fruto também já começa a ser consumido, e reconhecido pelas suas propriedades antioxidantes.

Completamente destruído é, no caso do medronho, uma força de expressão, porque esta árvore é, a par com a oliveira, "a que tem maior poder de recuperação". Porque a "vida está na raiz e o fogo não a destrói". Agora, o que é necessário é "cortar", mas, mesmo assim, "só daqui a três, quatro anos começará a dar medronho, e em quantidades muito reduzidas". A este período de regeneração da espécie, vai juntar-se "o problema do investimento que vai ser necessário para recuperar o medronhal", diz Paulo Rosa.

O medronheiro é uma das espécies mediterrânicas mais bem adaptadas ao clima e solo português, porque tanto tolera a falta de água como o frio. Segundo o biólogo Carlos Fonseca, da Universidade de Aveiro, ouvido pela Lusa, nas áreas ardidas, o medronheiro (Arbutus unedo) "é das primeiras espécies nativas que se regenera, protegendo também desta forma o solo".

Há medronheiros em solo do que hoje é Portugal há milhares de anos, e adaptaram-se aos fogos naturais que sempre houve. "Rebenta desde a base do tronco ou da raiz e contribuindo para a proteção e reabilitação do solo", disse à Lusa Carlos Fonseca, professor da Universidade de Aveiro e da Cooperativa Portuguesa de Medronho.

As plantações de medronheiro, com diferentes áreas, "funcionam como autênticos mosaicos de fragmentação de manchas florestais contínuas, contribuindo por si só para a descontinuidade florestal" e para a prevenção dos fogos, disse o especialista. "O medronheiro é uma das espécies arbustivas que atualmente apresenta um maior potencial económico, principalmente devido às múltiplas utilizações do seu fruto." A saber, a produção de bebidas e derivados, o consumo como fruto fresco ou sumo, além da sua aplicação em iogurtes, compotas, pastelaria, cosmética, medicina e nutricionismo, entre outras utilizações.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?