"Nessa altura, quem é que saía de Campo Maior? Ninguém. As pessoas não tinham meios. Eu tinha um sonho, a ambição de ir de férias. Soube que havia uma colónia e não hesitei. Por intermédio da Casa do Povo, fui dos primeiros a ir. Primeiro, passei três verões seguidos na Foz do Arelho; e, depois, dois na zona de Lisboa. Íamos para a colónia balnear da Brigada Naval, entre Paço de Arcos e Santo Amaro de Oeiras. Eram muitas crianças mas algumas tinham dificuldade de adaptação. As pessoas viam em mim a capacidade de liderança, e, de facto, o meu espírito era esse. Recordo que gostava de observar os carros que passavam e as pessoas que entravam naquelas casas enormes." O relato e a memória são de Rui Nabeiro. Nascido em 1931, teria nesta altura em que saiu do Alentejo para ver o mar e as casas "enormes" da Linha de Cascais entre 10 e 13 anos..Como centenas de outras crianças filhas de pessoas de poucos recursos, o agora comendador foi um dos contemplados para ir passar férias às então famosas colónias balneares infantis criadas no Estado Novo. A primeira e mais conhecida de todas surgiu em 1927, criada pelo diretor do jornal lisboeta O Século. Era o jornal e as doações dos leitores que suportavam os custos das centenas de crianças que durante o verão passavam férias em São Pedro do Estoril..Nos anos que se seguiram, outras colónias suportadas pelo Estado abriram, em estreita ligação com as Casas do Povo, que tratavam de selecionar as crianças um pouco por todo o país. A colónia da Foz do Arelho, a que se refere Rui Nabeiro, era com certeza a Colónia Balnear Infantil Marechal Carmona, que abriu em 1940, exatamente destinada a crianças do sul de Portugal. Para aqueles que viviam a norte do rio Mondego foi criada a Colónia Infantil Doutor Oliveira Salazar, na praia da Gala, Figueira da Foz. As crianças brincavam, estudavam, iam à praia e comiam. Muitas delas comiam como nunca haviam comido - e bebido! -, pelo menos a fazer fé num relatório escrito pelo médico Bissaya Barreto acerca da alimentação na colónia Oliveira Salazar, em 1958, e que consta do Arquivo Histórico Fábrica Maceira-Liz. Dizia assim: "PEQUENO-ALMOÇO: Café 'lotado' e nunca cevada, com leite e um pão 'especial'; quantidade à discrição de café com leite e de pão 'corrente'. Era rara a criança que não bebia meio litro de café com leite; algumas bebiam 4 a 5 canecas (cada caneca = 2 dl).".Continuava o médico a falar da ementa das crianças. O almoço tinha sempre sopa e um prato de peixe ou carne com arroz ou feijão - "as quantidades suficientes para as crianças repetirem mais do que uma vez"; à merenda havia pão com marmelada; ao jantar voltava a sopa, que tinha massa e, "sempre que se conseguisse em quantidade bastante, ossos de vaca" e depois carne guisada com "massa meada de 1ª". "Comiam quanto queriam e às vezes até estragavam", relata o médico..A outra colónia a que se refere Rui Nabeiro no seu livro de memórias é a Colónia Balnear da Brigada Naval da Legião Portuguesa, inaugurada em 1939, e que teve honras de capa no DN no dia seguinte, a 15 de agosto. Funcionava no Forte de São João das Maias, em Oeiras, e no ano em que abriu recebeu cem crianças: 60 rapazes e 40 raparigas. "A pequenada esfuziante de alegria ante a perspectiva da salutar vida à beira de água compareceu de manhã cedo na sede da Brigada Naval donde a caravana infantil seguiu para o Forte das Maias.".Só não houve mais pompa e circunstância porque estavam ausentes de Lisboa o ministro da Marinha e o comandante da Brigada Naval, que no entanto prometiam uma visita em breve à colónia. Recebidas então pelos funcionários, continuava a notícia, as crianças que tinham entre 7 e 12 anos "mudaram de roupa envergando fatinhos de várias cores oferecidos pela Brigada Naval"..As fotografias de crianças sorridentes, com bibes iguais e chapéus de palha são os retratos da felicidade possível no Portugal da ditadura. Crianças que pelo menos durante 15 dias por ano comiam quatro refeições por dia e eram observadas por médicos. "As crianças são sujeitas a uma atenta observação que poderá ter efeitos decisivos no seu futuro e no valor da sua compleição física", relatava o DN. No ano seguinte, um grupo de rapazes de ar bronzeado regressa à primeira página do jornal: "No segundo ano do seu funcionamento, a Colónia Balnear Infantil da Brigada Naval está a dar os mais benéficos resultados. O primeiro turno deste verão já deixou a colónia, onde deu entrada o segundo. As crianças alimentaram-se bem, recebem o ar do mar e vivem a vida sadia da praia."