Costa tenta nova geringonça. Abstenções à esquerda bastam para viabilizar propostas do PS

Socialistas conseguiram ter mais deputados do que a direita toda junta. Mas à esquerda tudo se complicou: o PCP não quer acordos escritos. Com o Livre e o PAN, o PS não faz maioria absoluta.

Vencidas as legislativas - mas sem maioria absoluta -, António Costa vai agora iniciar contactos com os partidos à esquerda do PS tendo em vista acordos para o "horizonte da legislatura".

Foi o próprio líder do PS quem o disse esta noite quando, pouco depois da meia-noite, comentou os resultados eleitorais. "Os portugueses gostaram da geringonça e desejam a continuidade da atual solução política, agora com um PS mais forte", disse. E "se houver um acordo formal, melhor", acrescentaria depois Carlos César, o presidente do partido.

O PS elegeu 86 deputados em 2015 e agora ficou com 106 (mas faltam distribuir os quatro da emigração). Passou de 32,38% (1,74 milhões de votos) para 36,65% (1,86 milhões). Sozinhos, os socialistas conseguem ter mais eleitos do que a direita toda junta: PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega somam 84 deputados. Os quatro deputados da emigração que falta eleger não farão diferença alguma.

António Costa disse, no entanto, ter percebido que agora a CDU não está disponível para acordos escritos ("não haverá a cena do papel", disse Jerónimo) e que o BE tanto o admite como possível como admite ir votando caso a caso (e para um acordo escrito exige, por exemplo, a renacionalização dos CTT).

O líder socialista chegará às negociações com a vantagem de ter a CDU mais fraca do que em 2015 (12 deputados eleitos contra 17 há quatro anos). E o próprio BE, ao contrário das expectativas, não cresceu: manteve exatamente o mesmo número de deputados (19) e até perdeu votos (passou de 549 mil para 492 mil).

O líder socialista também sublinhou, ao mesmo tempo, que também vai conversar com o PAN e com o Livre. O PAN passou de um eleito para quatro (dois em Lisboa, um no Porto e outro em Setúbal). E o Livre chega pela primeira vez ao Parlamento, elegendo a cabeça-de-lista em Lisboa, Joacine Moreira.

A geometria eleitoral da esquerda revela assim que o PS só faz maioria absoluta (116 deputados ou mais) ou com o BE ou com a CDU. Nem com o Livre nem com o PAN isso chega.

Oposição interna no PSD mexe-se

O que António Costa não excluiu foi, no caso da inviabilidade de pontes à esquerda, procurar entendimentos com Rui Rio. O líder socialista voltou a lembrar que houve "uma derrota clara" do PSD, insistindo na maioria de esquerda que os portugueses decidiram. Ressalvou, porém, que cada partido é livre de fazer o que entender, notando que se não conseguir pontes à esquerda, terá "de prosseguir" e trabalhar "dia a dia" para manter o "horizonte da legislatura". Costa classificou a derrota da direita no seu conjunto, mesmo tendo o Chega e a Iniciativa Liberal eleito um deputado cada, como "histórica".

À direita, aproximam-se momentos conturbados. Rui Rio não esclareceu se quer manter-se líder, mas tudo aponta nesse sentido. O partido acabou com 27,9% (77 deputados eleitos, menos 12 do que há quatro anos) - um resultado parecido com o de Santana Lopes em 2005. Uma coisa é certa: no próximo congresso do partido, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz avançarão.

No CDS foi o desastre total.Os centristas passaram de 18 deputados eleitos para cinco. Pouco passava das 20.00 quando Assunção Cristas anunciou que se demitia, convocando um congresso extraordinário. Abel Matos Santos, da tendência interna TEM (Esperança em Movimento), anunciou que é candidato à sucessão. Foi este grupo que promoveu o regresso de Manuel Monteiro ao partido.

Parlamento mais fragmentado

O Parlamento que resultou destas eleição será mais fragmentado do que nunca: nove formações partidárias: PS, PSD, BE, CDU, CDS, PAN, Chega, Iniciativa Liberal e Livre. A Aliança, de Pedro Santana Lopes, continua de fora - e, aliás, passou grande parte da noite eleitoral num despique acesso com o RIR, de Tino de Rans.

Quem também levou um arraso foi o PDR, de Marinho Pinto. Em 2015, tinha sido o primeiro partido dos não eleitos, com 60,9 mil votos (1,13%); neste domingo passou para 9,2 mil votos (0,18%). O MRPP, pelo seu lado, voltou aos tempos em que não recebia financiamento público, baixando da fasquia dos 50 mil votos (teve agora 34,5 mil, contra 59,8 mil em 2015)

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