Paços de Ferreira. Guardas prisionais ganhavam milhares com tráfico de droga

Dois chefes e três guardas foram detidos por tráfico de droga e corrupção. Tinham um esquema, com reclusos, que durava há pelo menos seis anos, para introduzir estupefacientes na cadeia de Paços de Ferreira. Polícia Judiciária fala em "negócio da China ou próximo disso".

O esquema funcionava no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, uma prisão de alta segurança, há pelo menos quatro anos. Dois chefes e três guardas prisionais eram elementos essenciais da rede de tráfico de droga que foi agora desmantelada pela Diretoria do Norte da PJ. Chegavam a ser eles a levar a droga para a cadeia. Foram os cinco detidos, tal como um ex-recluso e três familiares de reclusos. Há mais uma dezenas de reclusos que são arguidos. Nas 54 buscas efetuadas, a polícia apreendeu cocaína, haxixe, telemóveis, 20 mil euros em dinheiro e diversas armas.

Alguns dos guarda prisionais estavam na mira da investigação há anos. Havia já denúncias sobre a sua atuação e, segundo o diretor da PJ do Porto, os guardas "facilitavam a introdução de estupefacientes " e, em alguns casos, "eles próprios introduziam a droga na prisão e disseminavam a venda pelos reclusos".

Norberto Martins explicou que guardas e reclusos participavam no tráfico de droga, com os guardas a receber dinheiro para facilitar ou até promover o negócio ilícito. Em causa estão crimes de tráfico de estupefacientes, corrupção ativa e passiva e recebimento indevido de vantagem. Há ainda suspeitas de que os reclusos faziam extorsão sobre familiares para obter droga ou dinheiro para a adquirir.

Os dois chefes já não trabalham atualmente em Paços de Ferreira. Um estava agora colocado em Guimarães e outro já se tinha aposentado. Os três guardas detidos estavam todos colocados no estabelecimento prisional visado. O ex-recluso foi detido por ser um elemento ativo do tráfico quando estava ali preso, enquanto outro recluso está em prisão preventiva desde junho, já que iria ser libertado após cumprir pena e a PJ atuou por antecipação. Há mais uma dezenas de reclusos que são arguidos, além de familiares. Na maioria dos casos, estão a cumprir penas por crimes de tráfico de droga.

"Um negócio da China"

O esquema "bem urdido" gerava milhares de euros, com o coordenador da Secção Regional de Investigação do Tráfico de Estupefacientes, Avelino Lima, a falar num "negócio da China, ou próximo disso", dado que o preço da droga no interior da cadeias é muito inflacionado.

"Proporcionava mais-valias muito interessantes", reconheceu o responsável pela investigação, para quem, neste momento, "é difícil fazer estimativas dos valores, pois há muita gente envolvida", incluindo familiares dos detidos. Certo é que o Grupo de Recuperação de Ativos foi chamado e está a passar a pente fino todo o património dos guardas. "Um ou outro tinham sinais exteriores de riqueza", admite a PJ.

Avelino Lima disse que esta investigação resulta da junção de vários inquéritos, com o principal a ter início em 2017. Mas a PJ acabou por recuperar outros inquéritos com "meia dúzia de anos", pelo que a rede atuaria há cerca de seis anos na prisão de Paços de Ferreira. Já davam nas vistas e havia vários inquéritos a correr, como o diretor da PJ a realçar a colaboração total com a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) ao longo de toda a investigação.

Como os guardas conseguiam introduzir droga na prisão quando também são alvo de revistas à entrada? "Dominam aquele território e conhecem bem as regras de segurança", pelo que tinham mais facilidade em contornar o sistema. Além disso, dois eram chefes. Com esta operação, "parte substancial do tráfico de droga terá terminado em Paços de Ferreira", frisou Norberto Martins.

A operação Entre-Grade teve a participação de 160 operacionais da PJ e 50 do Grupo de Intervenção e Segurança Prisional, para realizar as 54 buscas. Destas, 20 foram realizadas em celas de estabelecimentos prisionais. Além de Paços de Ferreira, houve buscas em Custoias, Santa Cruz do Bispo, Guimarães, Monsanto e Vale de Judeus, já que existem reclusos e guardas que entretanto foram transferidos. A investigação visa apenas o tráfico em Paços de Ferreira. As outras buscas foram em 31 habitações e três estabelecimentos comerciais.

Nas buscas participaram três magistrados do Ministério Público, sendo o inquérito tutelado pelo DIAP de Porto Este-Penafiel. Os detidos serão na quarta-feira presentes a um juiz de instrução no Tribunal de Marco de Canaveses.

Vídeo causou troca de direção

O tráfico de droga, aliado a indisciplina e a utilização de telemóveis, já tinham colocado o Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira (EPPF) em foco. Desde fevereiro que o EPPF tem uma nova diretora.Isabel Maria Paulo assumiu o cargo após a antecessora se demitir na sequência da divulgação de um vídeo de reclusos em festa, a consumir drogas e a desafiar a autoridade no interior da cadeia. As imagens foram transmitidas em direto pelo Facebook, o que originou um inquérito. Fernanda Barbosa foi dar explicações ao Parlamento mas não convenceu e acabou por se demitir.

Na altura de mudança de direção houve logo um sinal de autoridade, através de duas operações internas, com buscas aos reclusos, em que foram apreendidos diversos bens, como telemóveis, droga, seringas e equipamento eletrónicos. "Os reclusos em cuja posse foram apanhados os objetos e bens ilícitos serão objeto do procedimento", referia em fevereiro a nota emitida pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais. Esta operação da PJ "nada tem que ver com o vídeo", assegurou o diretor da PJ do Porto, lembrando que esta investigação foi iniciada em 2017.

O EPPF tem uma lotação de 548 reclusos, mas, segundo dados da DGRSP, no início do ano tinham nas celas um total de 707 pessoas em cumprimento de pena. É um dos maiores do país.

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