Mourão. O concelho com maior risco de contágio quer fechar já as escolas

O surto que começou num lar alastrou à comunidade, que apresenta agora uma taxa de incidência de 3388 casos por cem mil habitantes. "Isto mete-nos medo, rouba-nos o sono", dizem os habitantes.

Em Mourão todos os cuidados passaram a ser poucos depois de ser confirmado que o concelho alentejano, que faz fronteira com Villanueva del Fresno, está no topo dos municípios portugueses com maior risco de contágio de covid-19 (atingiu os 3388 casos por cem mil habitantes). A Comissão Municipal de Proteção Civil quer fechar já as escolas para tentar conter a propagação que começou no lar da Santa Casa, onde ontem 48 residentes e nove funcionários estavam infetados. Já morreram três pessoas e o vírus alastrou à comunidade. A caminho da Direção-Geral de Estabelecimentos Escolares (DGest) está o pedido formal para que os cerca de 300 alunos do Agrupamento de Escolas de Mourão passem a ter aulas por videoconferência, mantendo-se os recintos escolares encerrados "até a situação epidemiológica do concelho estar resolvida", como revelou o vereador Manuel Carrilho.

Este autarca substitui por estes dias a presidente, dado que também Maria Safara se encontra em isolamento para ser sujeita a teste, após contacto com um caso positivo de covid. "Têm sido reuniões atrás de reuniões e numa delas aconteceu isto", justifica Manuel Carrilho, revelando que também por esse motivo o início da vacinação que estava agendado para esta quarta-feira no lar da aldeia da Luz foi adiado. Uma funcionária foi diagnosticada com covid, inviabilizando o avanço da vacinação, que só poderá ter agora lugar após novos testes aos residentes darem negativo. Ou seja, no concelho de Mourão, apenas os utentes do lar da Granja vão hoje receber a vacina.

Isto numa altura em que na Rua João Vasconcelos Rosado se somam dias de ansiedade à medida que se foi assistindo ao aumento do número de infetados com o novo coronavírus entre os residentes e funcionários do Lar de Nossa Senhora das Candeias. "Não conseguimos ser otimistas. Temos bem presente o que aconteceu aqui ao lado, em Reguengos de Monsaraz", sublinha Maria Joana, numa alusão às 18 mortes ocorridas na Estrutura Residencial para Idosos do concelho vizinho há seis meses. "Isso mete-nos medo, rouba-nos o sono", desabafa esta vizinha do lar, traduzindo o sentimento transversal à população. "Imagine o que é ter familiares e amigos lá dentro", diz, admitindo ser o seu caso, para justificar o "coração apertado" cada vez que ali vai alguma ambulância: "Sabe-se lá o que pode acontecer de repente."

Ruas desertas

No interior de um café da praça central quase deserta - também devido aos zero graus que ontem se faziam sentir perto da hora de almoço -, João Matos e o amigo Manuel estão de olhos postos na televisão a tentarem perceber como é que Mourão chegou até aqui.

"Nós temos sido sempre tão discretos e até discriminados ao longo décadas, mas hoje acordámos com o país a falar de nós pelos piores motivos", lamenta, enquanto desinfeta as mãos com álcool-gel após ter tocado no ecrã do televisor para apontar Mourão no topo mapa da Direção-Geral da Saúde. "Aqui nem máscara precisávamos de usar, agora é isto. Uma tristeza." O concelho tinha ontem um total de 78 pessoas contagiadas, representando 3388 casos por cem mil habitantes. O lar concentra a maior preocupação, tendo já morrido três pessoas, enquanto quatro estão internadas em Évora. Há ainda 48 residentes e nove funcionários infetados, sete dos quais já voltaram a testar, aguardando o provedor Vítor Bragança que a maioria esteja negativa, podendo regressar ao trabalho.

"Temos feito das tripas coração para chegarmos a todos os utentes. Há funcionárias que trabalham há 20 dias seguidos e que precisam, urgentemente, de descansar", reconhece, guardando para a vida as más recordações do último Natal. Foi nos dias 24 e 25 de dezembro que tudo se precipitou no lar. "Pessoas infetadas, falta de profissionais. Andámos perdidos sem saber o que fazer às pessoas que precisavam tanto de apoio", recorda, revelando, por exemplo, que a lavandaria ficou sem funcionárias para lavar e passar a roupa. Mas ontem foi a própria cozinheira Antónia Marcão que veio ao portão do pátio do lar assumir que "o pior já passou" e que todos os residentes estão a ter "os tratamentos de que precisam". "Dá muito trabalho, mas ninguém fica para trás", garantia, numa altura em que há cinco utentes do lar que escaparam ao surto, permanecendo numa unidade de alojamento local, afastados dos colegas que testaram positivo.

Os primeiros casos de covid começaram entre as funcionárias, logo no início de dezembro, enquanto no dia 20 surgiram os primeiros sintomas entre dois idosos que viriam a testar positivo. Dois dias volvidos avançavam os testes em massa. A autarquia criou dois espaços alternativos (piscinas e alojamento local) para separar positivos e negativos. O vereador Manuel Carrilho atribui a elevada propagação da doença ao facto de Mourão ser uma terra pequena, com cerca de 2450 habitantes, onde todos se conhecem. "Todas as pessoas estão com todas as pessoas, em relação familiar, de amizade ou no trabalho e depois o contágio atingiu esta dimensão", diz ao DN.

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