Só um dos jihadistas portugueses estará ainda vivo

As autoridades portuguesas estão convencidas de que dos seis jihadistas que saíram de Portugal para combater pelo Estado Islâmico - alvo de mandados de captura do Ministério Público - apenas Nero Saraiva terá sobrevivido, embora tenha ficado gravemente ferido em Baghouz o último reduto do Daesh.

Fábio Poças, 24 anos, é o último dos jihadistas portugueses a ser dado como morto pelas autoridades de contraterrorismo nacionais. Poças fazia parte do grupo que saiu da zona de Sintra para Leyton, em Londres, onde se radicalizou e seguiu para a Síria.

Deste grupo - um total de seis que são alvo de mandados de captura e inquéritos criminais do Ministério Público - apenas estará vivo Nero Saraiva, nascido em Angola, por sinal um dos mais destacados elementos portugueses na estrutura de comando dos terroristas do Daesh. Saraiva foi o primeiro a chegar à Síria, em 2012, será formado em Engenharia Civil e o seu nome surgiu ligado ao rapto do inglês John Cantlie, sendo também procurado pelas autoridades deste país. Neste momento as informações disponíveis indicam que terá ficado gravemente ferido nos bombardeamentos em Baghouz, o último reduto do Daesh em território sírio.

Os responsáveis de segurança nacionais que acompanham este fenómeno, como o Serviço de Informações de Segurança (SIS) e a Polícia Judiciária não dão, contudo, a garantia absoluta sobre estas mortes. "Essa conclusão tem por base as informações partilhadas pelas agências congéneres, depois dos bombardeamentos, cruzando com o facto de não serem conhecidos há longo período de tempo quaisquer contactos com o exterior. Só com cadáveres identificados essa certeza pode ser total", explica uma destas fontes.

Numa entrevista à Sábado, publicada em outubro de 2014, Poças prometia voltar à Europa com a bandeira negra do Estado Islâmico "numa mão e a arma na outra" e "devolver a honra" ao solo do Al Andaluz (nome que os conquistadores muçulmanos deram à Península Ibérica quando a conquistaram no século VIII), "que está a ser destruído por Cavaco Silva".

Fábio tinha três mulheres, uma delas portuguesa (Ângela) que conheceu através da internet, e três filhos. Chegou à Síria em outubro de 2013 e mudou o nome para Abdu Rahman Al Andalus. Na altura da entrevista estava em Minbij, no norte sírio. Meses antes, em junho, teria estado entre os soldados do Daesh na tomada de Mossul, Iraque, mas assumia que tinha tido treino militar. "Um pouco de tudo: Corão, armamento, táticas. Durante um mês. O resto aprende-se no campo de batalha, com a experiência", declarou.

Outros quatro deste grupo de portugueses da "célula de Leyton" já tinham sido dados há mais tempo como mortos: Sandro "Funa" Monteiro, 36 anos, em outubro de 2014, Sadjo Turé, 35 anos, em novembro de 2015, e os irmãos Celso e Edgar Costa, em 2018.

Secretas avaliam risco

Neste momento um dos grandes desafios que estão a enfrentar as autoridades portuguesas - tal como as de toda a Europa que tiveram nacionais com o Daesh - é definir uma estratégia para o regresso dos familiares.

"Estão neste momento identificadas, em campos de refugiados na Síria, três mulheres de jihadistas portugueses e cerca de 20 menores. Segundo o Expresso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros está em contacto com as famílias que estão em Portugal", mas não quis adiantar mais pormenores sobre o possível retorno, "sob pena de pôr em questão as ações em curso".

O DN sabe que é o SIS quem está a comandar as avaliações de risco sobre estas pessoas, que vão determinar quais as medidas que devem ser tomadas em Portugal para as receber, quer a nível de segurança quer quanto a proteção, reintegração e apoios sociais.

Esta avaliação está a ser feita apenas com base na participação de cada pessoa no conflito, através das informações de outras agências - não houve ainda contacto direto das secretas nacionais com estas mulheres e crianças.

Enquanto aguardam uma decisão política sobre as medidas a tomar e as entidades que devem ser envolvidas no processo, as secretas já defenderam publicamente qual deve ser o caminho, principalmente quanto aos menores: "Estas crianças merecem ser objeto de um apoio especial em termos de reintegração ou de enquadramento na sociedade", sublinhou num seminário em março, a secretária-geral do Sistema de Informações, Graça Mira Gomes.

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