Premium Costa só remodela empurrado pelos acontecimentos

Foram raras as vezes em que o primeiro-ministro controlou a agenda quando teve de fazer mexidas no governo. Remodelação "ordenada" só mesmo a de fevereiro passado, por causa da lista das europeias.

Abril de 2016. Fevereiro de 2017. Julho de 2017. Outubro de 2017. Dezembro de 2017. Outubro de 2018. Fevereiro de 2019. Abril de 2019. Com a demissão, na quinta-feira, do secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins - para o qual ontem à hora do fecho desta edição ainda não havia substituto -, António Costa procede à oitava remodelação desde que assumiu o cargo de primeiro-ministro (novembro de 2015). Umas foram de uma só pessoa - a atual mas também, por exemplo, a de dezembro de 2017, quando o secretário de Estado da Saúde Manuel Delgado deu lugar a Rosa Valente de Matos -, mas outras foram de longo alcance, com vários ministros envolvidos e incontáveis secretários de Estado.

Do historial das remodelações de Costa fica uma regra (que, como é normal nas regras, tem as exceções que a confirmam): foram sempre a reboque dos acontecimentos. Dito de outra forma: o chefe do governo raramente agiu com controlo total da conjuntura, no que toca a mexidas no seu governo. Na maior parte dos casos, a realidade impôs-se-lhe e houve mesmo uma situação em que, na prática, um ministro (no caso, uma ministra, Constança Urbano de Sousa, titular da Administração Interna) saiu não por decisão da própria (apesar de ter pedido insistentemente) ou do chefe do governo, mas sim porque o Presidente da República decidiu que isso não podia deixar de acontecer (outubro de 2017, na sequência do segunda grande mortandade nos incêndios desse ano, que fizeram ao todo 122 vítimas mortais).

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