"Um homem custa muito caro, nem toda a gente os pode pagar"

Rita Ferro não costuma dar respostas sem nó e nesta entrevista sobre o seu terceiro diário ainda mais o faz. Um relato de como se abandona a cidade por uma casa no campo e de como a vida recomeça aos 60 anos se essa for a intenção de alguém pouco conformista.

Rita Ferro lançou o terceiro volume dos seus diários e desta vez o tema é inesperado, pois conta uma mudança radical na vida: trocar o Estoril pelo campo. Não é uma mudança que sugira porque nem todos seriam capazes de sobreviver: "Acho que pouca gente seria capaz de viver sozinha, de modo que, na dúvida, não aconselharia ninguém." Um Diário em que, como já é habitual, não foge aos temas importantes, principalmente aos das mulheres.

A Rita ainda é apenas ferro ou já está mais maleável?
Nunca fui "apenas" nada [risos]. Mas já que faz a pergunta: vou estando cada vez menos maleável. Finjo bem para não me incomodar.

Dá início a um terceiro Diário, um género pouco utilizado entre nós. Gosta de conversar com quem desconhece?
Nos diários, as conversas podem parecer monólogos, mas não são. O leitor responde a cada palavra e a cada frase, de alguma maneira. Só que não os vemos nem ouvimos.

Deixar a cidade para ir para o campo. A melhor resolução para os 60?
Assim me pareceu. Mas posso mudar a qualquer momento. Adoro mudanças! De vida, de casa, de namorados, de opiniões, de cenários. Sobretudo de cenários. O meu avô Ferro dizia que há pessoas que só são felizes na ilusão dos cenários e identifico-me. Por muito que mudem de lugar, as pessoas levam-se sempre consigo. Mas os novos cenários dão-nos a ilusão de evolução e de esperança. Gosto disso.

Repito a pergunta de um dos seus amigos referida no livro: "Como foi possível um 'animal social' mudar-se para uma 'terra de ninguém'?"
Também respondo o que escrevi no Diário 3: isto aqui não é uma terra de ninguém. Em cada casa, pulsam corações. Tenho família aqui, amigos, conhecimentos. Se não tiver cuidado, posso até voltar a ter stress social.

Escolhe como pouso uma rua com nome familiar. Uma cedência ou o manter de pergaminhos?
Atrás da minha casa fica uma rua cujo nome contém o meu apelido materno. Não escolhi, calhou. Tudo aqui à volta eram terras de antepassados meus, não é de espantar. Sinto algum sentimento de pertença, mas não é por isso que me sinto aqui bem. Digamos que a paz que encontrei aqui é um presente da idade e da experiência.

Fez uma casa de campo ao estilo da Linha para manter, escreve, a "aristocracia que me resta no sangue". Quais são as raízes mais profundas?
Não fiz, isso foi uma graça do meu filho. Comprei uma casa já construída de estilo clássico. Decorei-a, isso sim, de forma tradicional. Sou tradicional na decoração. Não gosto do rústico nem do minimal nem do industrial nem do indy. Mas também não gosto do convencional, a minha tem elementos modernos.

Conta que desde a infância que não resiste a saltar vedações para roubar fruta. É apenas porque "têm outro sabor" ou uma prevaricação maior?
Sim, sou legalista, de modo que me vingo com algumas pequenas transgressões. Roubar de vez em quando um fruto não dá direito a prisão, e dá-me gozo. Mas teria a maior vergonha se me apanhassem em flagrante.

"Chove a cântaros." A natureza tem outro peso na sua perceção do dia-a-dia?
Claro que sim. Nunca segui ou apreciei tanto os elementos como aqui. A chuva, o vento, a floração, o frio, o calor, as estações, as alterações climáticas. Aqui no campo o tempo comanda a vida. Fala-se dele. "Isto hoje está de fritar", quando faz calor, ou "está um frio de matar um homem", se arrefece demasiado. É como se o ser humano vivesse apenas o que o tempo lhe permite. Se o tempo concede, a gente vai ou faz. Se o tempo impede, não vamos nem fazemos. Os ciclos são muito evidentes e eu gosto disso.

Só o amor do seu cão Beef é fiel ou bastante?
Nem me digam. Descobri o prazer de viver com animais tarde, mas muito a tempo. São companheiros fabulosos. Estão felizes se estamos felizes, silenciosos se estamos nervosos, tristes se estamos mais inativos. Não se ofendem, não se intrometem, não julgam. É por eles que ando hoje em dia cerca de uma hora e meia por dia. Estou com mais saúde e desenvoltura graças a eles. Se fosse rica, teria quatro ou cinco cães.

Os cães evitam que pense demasiado no ato radical e romântico da atitude de se refugiar no campo?
Os cães e a sua alegria simples de viver são uma das razões que confirmam a minha decisão. Mas não há cão nem homem capaz de me parar o pensamento. Sou uma pensamenteira obsessiva, de modo que a natureza e a beleza, que aqui se apreciam melhor, só atenuam as minhas neurastenias.

São várias as histórias de cães que pululam por esta narrativa. Um psicólogo diria que se trata de uma substituição. Será?
O quê? Uma transferência? Não creio que seja isso, não transfiro o amor dos homens para o amor dos cães. Mas um estuário do meu afeto, sim, seguramente. As pessoas, se vivem sozinhas, têm de arranjar formas de debelar os sentimentos de amor que se vão acumulando dentro de si. Os cães não substituem os amores, mas aproveitam as sobras.

"Os encontros são todos anunciados." Gosta desta programação da vida?
Nunca gostei muito de surpresas nem daquela coisa de me apitarem à porta de casa para me visitarem ou me desafiarem para um programa. Gosto de me preparar para os encontros humanos que, por muito agradáveis ou afetuosos que sejam, cansam sempre.

"Nesta altura eu gritava imenso"... e agora grita para quem?
Grito muito menos, mas há uma situação que me faz sempre gritar: pressas. Pressão sobre mim para me despachar para alguma coisa. Foram muitos anos a ter de fazer várias coisas ao mesmo tempo e vertiginosamente. Agora, é o próprio corpo que se recusa. Gosto de calendarizar. Para ter prazer e não incómodo.

"Estas coisas ofendiam a minha condição de artista." É como se olha e não admite outra hipótese?
Se me olho como artista? Claro que sim, acerto em todas as definições, sobretudo as de cariz espiritual e psicológico. Ainda que fosse incapaz de produzir arte, o meu temperamento é totalmente artístico.

"Não há homens para nós?" O que quer dizer isto?
No livro? Refiro-me à enorme legião de mulheres sozinhas e emancipadas que estão hoje sós, por terem tido a coragem de fugir a situações injustas ou prepotentes. Quando olham à sua volta, ninguém as quer com os seus filhos, os seus problemas, os seus orçamentos apertados, a sua idade.

De quem é a culpa de o Rui e o João não terem "funcionado"?
Admito que minha. Primeiro, sou uma pessoa muito exigente. Segundo, continuo a ver a conjugalidade como uma oportunidade de felicidade. Se a relação deixa de ser feliz para passar a mortificar-me, deixam de fazer sentido. Chame-me sonhadora.

Mais sobre eles: "Os homens são um prazer solitário." É a idade que a faz dizer isto?
Não, é a experiência. Um homem custa muito caro, nem toda a gente os pode pagar. E o custo não é em euros, é em tristeza.

Declara-se a favor da eutanásia e do suicídio medicamente assistido. O que dirão certos leitores da sua área ideológica?
O que dirão as pessoas, de qualquer área ideológica, às portas da morte e dos seus infernos privativos? Não concebo que se partidarize esta questão. Tem que ver com coragem e não com ideologia.

"Amo infinitamente Portugal (...) e os portugueses." Ou seja, mudar para o campo mas nunca para o estrangeiro?
Nunca, entendeu bem.

Apesar do que se sabe da política à portuguesa afirma que existem "políticos que merecem ressalva pela honestidade". Meses depois de o ter escrito mantém essa opinião face a tudo o que se sabe à direita e à esquerda?
A pandemia calou em muito os políticos.

Foi boa nesse aspeto?
Com certeza. Continua a haver excelentes exceções. Quanto à pandemia, representa um rombo na economia do país e da nossa, por arrasto. Confesso que quando vejo os prós e os contras nunca me lembro dos políticos, nem como individualidades nem como discurso. Penso muitas vezes que a pandemia serviu para percebermos que podemos viver com muito menos e para repriorizar sentimentos e desejos.

"O ano está a acabar. No futuro, não me esquecerei deste ano de 2019." Não esperava pelo que ia acontecer em 2020, a covid. Será o tema do Diário 4?
Estou a começar um novo livro e não será um diário. Só espero é que, quando voltar ao diário, a pandemia já tenha terminado.

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