A barragem de fogo sobre o ministro Azeredo Lopes aumentou de cadência, apesar do desmentido categórico que este fez quinta-feira sobre ter sido informado da operação simulada da PJ Militar (PJM) para recuperar o material de Tancos..Com o CDS a manter a exigência da demissão de Azeredo Lopes, o presidente do PSD declarou que o ministro não tem quaisquer condições para se manter no cargo caso seja verdade que soube da operação da PJM e nada fez..Frisando ter por princípio "não pedir demissões de membros do governo", Rui Rio afirmou à Lusa: "A não ser que seja tudo redondamente mentira e provado que é redondamente mentira, não vejo como é que, nestas condições, um primeiro-ministro pode manter o ministro em funções.".Marcelo Rebelo de Sousa, que nesta sexta-feira vai estar presente num festival militar em Cascais, reafirmou a necessidade de "esperar para ver quais são as conclusões" da investigação criminal em curso. "Há que esperar que decorra e apure toda a verdade" antes de o Presidente da República poder fazer "um juízo preciso" sobre o caso, adiantou em Loures, citado pela Lusa..Questionado sobre a confiança no ministro da Defesa, Marcelo insistiu: "Vamos aguardar a conclusão deste processo, desta instrução criminal em curso, e, em função dos factos apurados e das responsabilidades eventualmente suscitadas, depois será possível formular um juízo preciso, concreto e específico acerca da matéria.".Segundo a informação dada pelo Expresso, o major Vasco Brazão (Exército) - ex-porta-voz e responsável pela investigação da PJM a Tancos - terá dito ao tribunal que informara o ministro da Defesa sobre a operação simulada, colocando uma alta patente do Exército no centro do furacão: o tenente-general Martins Pereira, então chefe de gabinete de Azeredo Lopes..Porquê e para quê?.Segundo o jornal, o major Vasco Brazão terá entregado a Martins Pereira, cerca de um mês após a recuperação do material (outubro de 2017), um memorando sobre a operação simulada. A seguir, o general terá informado o próprio Azeredo Lopes por telefone - tendo como testemunha presencial, além de Vasco Brazão, o então diretor da PJM, coronel Luís Vieira..Martins Pereira confirmou na quinta-feira à noite - "em abono da minha honra e da verdade dos factos" - que recebeu Luís Vieira e Vasco Brazão em novembro passado no seu gabinete. Contudo, na nota escrita enviada à Lusa, o tenente-general assegurou que nem "nessa ocasião ou em qualquer outra [lhe] foi possível descortinar qualquer facto que indiciasse qualquer irregularidade ou indicação de encobrimento de eventuais culpados do furto de Tancos"..Sem fazer qualquer referência ao memorando que Vasco Brazão disse ter-lhe entregado, nem confirmar ou desmentir se informou o ministro da Defesa do encontro e do seu teor, Martins Pereira adiantou estar "disponível para ser ouvido" pelo Ministério Público sobre o caso..Aqueles dois responsáveis da PJM, Luís Vieira e Vasco Brazão, é que parecem ficar ainda pior neste caso: terão dado informação sobre o processo a quem não tinha qualquer tutela funcional sobre eles - o que vai contra as regras da investigação, pois enquanto autoridades de polícia criminal estavam naquele caso exclusivamente dependentes do Ministério Público..Outro fator a apurar será a motivação para terem informado o gabinete do ministro da Defesa. Porquê e para quê?."Eles não teriam de informar o ministro porque a relação da PJM com [Azeredo Lopes] não tem que ver com a área funcional", afirmou ao DN o vice-almirante Cunha Lopes (Marinha), antigo comandante-geral da Polícia Marítima..Mas "a ser verdade, há dois crimes aqui identificados: encobrimento e denegação de justiça", alertou Cunha Lopes, porque se informado, Azeredo Lopes - jurista de formação, como o coronel Luís Vieira - "tinha obrigação de denunciar a situação ao Ministério Público" ao saber que um órgão na sua dependência teria cometido um crime..Quanto a Martins Pereira, enquanto chefe de gabinete "teria obrigação de avisar o ministro e o ministro teria obrigação de atuar". Mas "se tomasse conhecimento da prática de um crime e não informasse o ministro, estaria a encobrir", pelo que poderia ser indiciado da prática de crimes..Certo é que Azeredo Lopes já negou - e o próprio primeiro-ministro reafirmou-lhe a sua confiança. Até agora, aliás, não se conhece o teor do memorando nem o do telefonema que foi feito..O atual chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), general Rovisco Duarte, cujo nome surgirá numa escuta telefónica a elementos da PJM como tendo opinado sobre a recuperação do material, também se escusou a fazer quaisquer comentários ao caso de Tancos..Rovisco Duarte, que participou numa cerimónia de entrega de espadas a novos oficiais do Exército, fez, no entanto, um discurso que não pode ser desligado dos acontecimentos em que tem estado envolvido: "Comandar implica tomar decisões, escolher caminhos, possuir capacidade de reflexão e ponderação. Exige firmeza de carácter e coragem moral para assumir consequências e responsabilidades que não podem ser delegadas.".Começa também a ser complicado obter reações no universo militar. Dois generais do Exército e antigos governadores de Macau recusaram-se a comentar. O general Rocha Vieira (ex-CEME) não quis mesmo falar e o tenente-general Garcia Leandro (ex-vice-CEME) explicou porquê, num tom de profundo desalento: "É uma coisa que me incomoda muito. Estou triste e muito envergonhado. É demasiadamente mau.".Fazer bem com "métodos pouco ortodoxos".Para o tenente-general Martins Rodrigues (Força Aérea), antigo comandante da base aérea de Tancos, o que se tem passado "é uma fantochada". O importante é que "tem de se descobrir qual o fim" a que se destinava o material furtado, argumentou..Quem não poupou nas palavras foi o major-general Carlos Chaves (Exército), um dos responsáveis pela reforma em curso das Forças Armadas aprovada pelo anterior governo: "Perdemos a confiança no ministro. Demitam-no!".Nenhum dos outros antigos chefes militares que o DN conseguiu ouvir quis pronunciar-se sobre o impacto que as últimas informações podem ter na relação do ministro com a instituição militar, desde logo por haver ainda muito por confirmar.."A ser verdade, acho que é gravíssimo. Não discuto se há reservas das chefias militares, mas tenho dificuldade em aceitar que seja verdade", referiu o almirante Melo Gomes, antigo chefe da Marinha. Um seu antecessor, almirante Vieira Matias, argumentou, por sua ve,z que "a estrutura hierárquica política e militar deveria ter atuado de forma mais incisiva" há muitos meses..O caso rebentou no final de junho de 2017, quando o próprio Exército revelou a ocorrência do furto nos paióis de Tancos, "e continua sem haver decisões de coisa nenhuma", observou Vieira Matias..Para este almirante, contudo, a PJM atuou bem ao recuperar o material "mesmo usando métodos pouco ortodoxos". Falando como especialista em explosivos, Vieira Matias lembrou que tinha desaparecido material "de uma gravidade e perigosidade extraordinária" por ser "o mais difícil de obter" por quem queira usar explosivos: componentes para os fazer deflagrar.."A finalidade justificou os meios por causa do material que estava em causa" e apesar de os elementos da PJM serem polícias. "Tentaram atingir o objetivo" de o recuperar, insistiu o almirante Vieira Matias - chefe da Marinha quando o Corpo de Fuzileiros era comandado pelo pai do major Vasco Brazão, capitão-de-mar-e-guerra Vasco Cunha Brazão, lembraram fontes militares..A investigação do furto aos paióis de Tancos foi iniciada por uma equipa de dois militares da PJM que, semanas depois, seria retirada do caso e substituída por outra liderada pelo major Vasco Brazão. Este oficial de Cavalaria foi para a República Centro-Africana (RCA) no primeiro trimestre deste ano, integrando a missão da União Europeia comandada pelo brigadeiro-general português Hermínio Maio..Vasco Brazão, que fontes do Exército disseram ao DN ter-se oferecido para a missão na RCA, foi autorizado há poucas semanas a fazer uma nova comissão.