De Adriana Calcanhotto a Manuel Alegre: as celebrações do Dia Mundial da Língua Portuguesa

Nesta terça-feira assinala-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Com a festa impedida pela covid-19, as celebrações acontecem online e juntam escritores, músicos, políticos e outras personalidades dos vários países que falam português.

O músico cabo-verdiano Teófilo Chantre mostrou há poucos dias uma nova canção, intitulada Nada-Tudo, em que, em crioulo, canta sobre a possibilidade de termos um mundo mais igual e mais fraterno, uma "temática que faz sentido no contexto atual", escreveu na sua página de Facebook. Esta será, muito provavelmente, uma das canções que ele vai interpretar nesta terça-feira no evento promovido pelo Instituto Camões para celebrar o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa.

"Pela primeira vez vamos comemorar o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Tínhamos planeado um evento com grande visibilidade, mas as circunstâncias ditaram que tivéssemos de adaptar o que estávamos a pensar para um formato virtual", disse à agência Lusa o presidente do instituto, Luís Faro Ramos.

Não sendo possível ter uma festa verdadeira, o Camões -​ Instituto da Cooperação e da Língua, Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), em parceria com a representação portuguesa na UNESCO, a ONUNews e a RTP, preparou uma festa virtual de uma hora e meia que junta mais de duas dezenas de personalidades lusófonas da política, das letras, da música ou do desporto, e que será disponibilizado às 12.00 desta terça-feira, no canal de YouTube do instituto:

A celebração da data inclui uma parte "mais institucional", com os testemunhos do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, do primeiro-ministro português, António Costa, do chefe de Estado de Cabo Verde e presidente em exercício da CPLP, Jorge Carlos Fonseca, do secretário executivo da CPLP, Francisco Ribeiro Telles, e do embaixador Sampaio da Nóvoa, representante de Portugal na UNESCO.

A estes juntam-se os testemunhos de várias personalidades lusófonas, com "perspetivas muito diferentes, muito ricas, daquilo que representa para essas pessoas a língua portuguesa e a comemoração do Dia Mundial", explica Faro Ramos. Teremos as palavras dos escritores Mia Couto (Moçambique), Germano Almeida (Cabo Verde) ou Manuel Alegre (Portugal) e os cantores Adriana Calcanhotto (Brasil), Dino d'Santiago (Portugal-Cabo Verde) ou Carminho (Portugal). Participam também o futebolista Pedro Pauleta, o canoísta Fernando Pimenta (Portugal), o cineasta Flora Gomes (Guiné-Bissau), a cientista Maria Manuel Mota, o teólogo e cardeal José Tolentino de Mendonça (Portugal) ou o político timorense José Ramos-Horta, entre outros.

Finalmente, haverá um concerto com os músicos Aline Frazão (Angola), Ivan Lins (Brasil), Teófilo Chantre (Cabo Verde), Manecas Costa (Guiné-Bissau), Stewart Sukuma (Moçambique), João Gil (Portugal), Tonecas Prazeres (São Tomé e Príncipe) e Zé Camarada (Timor-Leste).

"Teremos oportunidade de, em 2021, comemorar de outra maneira. Em 2020, é a comemoração possível. Dentro dos condicionalismos que estamos a viver, é multifacetada, digna e com a visibilidade possível", garantiu o presidente do Instituto Camões.

Lisboa 5L: um festival online

A primeira edição do novo Festival Internacional de Lisboa 5L (o L de "Língua, Livros, Literatura, Leituras e Livrarias"), promovido pela Câmara Municipal, estava programada para este ano mas acabou por ser cancelado devido à pandemia de covid-19. Mas "a vontade de criar até lá um espaço lisboeta dedicado às letras não foi cancelado" e, por isso, haverá esta terça-feira um evento online para celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa (transmitido no site do festival, nas páginas de Facebook da autarquia e da Rede de Bibliotecas de Lisboa).

A abertura é às 15.30, com a intervenção do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, do representante permanente de Portugal junto da UNESCO, António Sampaio da Nóvoa, e do diretor artístico do festival, José Pinho.

A curta de Tiago Pereira, A Língua Portuguesa a Gostar Dela Própria, é transmitida às 15.55, "para nos deixarem escutar, em todo o seu contraste, os sons e a gramática de muitas variedades portuguesas, das litorais às interiores, das continentais às insulares".

Segue-se um primeiro debate sobre "Viagens da Língua Portuguesa", com seis autores lusófonos: Ana Margarida Carvalho (Portugal), António Prata (Brasil), Flaviano Mindela dos Santos (Guiné-Bissau), Germano de Almeida (Cabo Verde), José Eduardo Agualusa (Angola), e Olinda Beja (São Tomé e Príncipe).

Mais tarde, conversam sobre "Literatura de Reconstrução" os escritores Ondjaki (Angola), Dulce Maria Cardoso e Isabela Figueiredo (Portugal), Luís Cardoso Noronha (Timor-Leste) e Mbate Pedro (Moçambique).

No final, será mostrada outra curta-metragem de Tiago Pereira, Vozes do Português, que é "uma homenagem de seis vozes, masculinas e femininas, vindas de três diferentes continentes, à poética de Luandino Vieira".

Concurso literário para estudantes

Esta terça-feira será ainda lançado um concurso literário, promovido pela Porto Editora e pelo Instituto Camões e destinado a todos os estudantes de língua e literatura portuguesas espalhados pelo mundo.

Estão contempladas cinco categorias: em função da idade (dos oito aos 14 anos e a partir dos 15 anos) e de acordo com os níveis de proficiência da língua dos alunos. Os trabalhos, individuais, a entregar até 30 de janeiro do próximo ano, vão ser avaliados por um júri composto por cinco elementos e os vencedores serão conhecidos a 5 de maio de 2021, data em que se assinala pela segunda vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

"Este incentivo à criação em língua portuguesa junto dos jovens que estudam em português em 76 países, em cinco continentes, visa não só estimular competências linguísticas, mas apoiar o diálogo e o encontro entre culturas, reforçando, assim, duas dimensões fundamentais da celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa: a afirmação do Português como uma língua de comunicação internacional e como uma língua plural, de pontes e de encontros", salienta o presidente do Instituto Camões, Luís Faro Ramos.

E pelo mundo fora

O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, organizou um programa de celebrações online, que termina esta terça-feira, com uma série de eventos, entre os quais a performance Silêncio, na qual o bailarino Eduardo Fukushima percorre o museu vazio, atualmente fechado ao público. Haverá ainda uma conversa com o músico e escritor angolano Kalaf Epalanga e uma sessão de "Poesia na Língua do Slam" com participantes de diferentes latitudes e diferentes sotaques.

Pelo mundo fora, os vários centros da língua portuguesa ligado ao Instituto Camões também vão celebrar este dia, com diversas iniciativas, desde maratonas de leitura a concursos literários, passando por conversas online.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) declarou, em novembro do ano passado, o dia 5 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa, mediante proposta de todos os países lusófonos apoiada por mais 24 Estados, incluindo países como a Argentina, o Chile, a Geórgia, o Luxemburgo ou o Uruguai. A UNESCO escolheu para a efeméride a data em que há uma década se celebrava o dia da língua portuguesa e da cultura da CPLP.

O português é falado por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes, ou seja, por 3,7% da população mundial. É língua oficial dos nove países-membros da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e de Macau, bem como língua de trabalho ou oficial de um conjunto de organizações internacionais como a União Europeia, a União Africana ou o Mercosul.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG