Cerco a Pequim

A perceção sobre a China está a mudar para pior. É o que dizem as sondagens e várias demonstrações de resistência à influência global de Pequim, no comércio, nos investimentos, na tecnologia, na geopolítica. Também aqui, Portugal é parte interessada na evolução do debate.

A lei de segurança interna aprovada pela administração chinesa sobre Hong Kong é a resposta previsível de um regime sob intensa pressão externa, agravada pela pandemia. Ao contrário da perceção inicial, que dava conta de um galopante soft power chinês no auxílio a países ocidentais afetados pela covid, o que vemos hoje é o crescimento do ceticismo internacional em relação à passada de Pequim nas várias frentes em que se move. É neste contexto que devemos olhar para o choque com Hong Kong: a emissão de um sinal inequívoco sobre punições a interferências externas, a dissensões internas, a desvios ideológicos acentuados, num corte com o legado dos acordos de transição assinados em 1997 com o Reino Unido ou da declaração conjunta de 1984, garantes da autonomia elevada de Hong Kong, de tribunais independentes, liberdade de expressão e direito ao protesto. A lei agora aprovada termina oficialmente com a política "um país, dois sistemas", sendo na prática uma invasão jurídica sem recurso militar, o que não deixa de implicar o controlo absoluto da China sobre o até aqui território autónomo. Duvido que sem resistência à altura.

Xi Jinping, que já tinha protagonizado cortes com tradições estratégicas da China emergente - limite de mandatos por uma presidência eterna, consensualização de estratégias por exercício imperial do poder, acomodação de rivalidades e interesses por concentração implacável de todas as decisões -, diz ao resto do mundo duas coisas muito simples: o estatuto emergente deu lugar ao de grande potência consolidada e personalizada; qualquer cerco à capacidade global chinesa tem um custo, quer para a estabilidade dos tratados com países ocidentais quer para as influentes relações bilaterais estabelecidas com Pequim. Também aqui Portugal está na equação.

Vamos então a essa perceção de cerco. A primeira razão está diretamente relacionada com a origem do vírus. Mesmo que a narrativa europeia tenha sido diametralmente diferente da americana, no tom acusatório que esta usou, permanece a ideia de que a pandemia poderia ter sido atacada mais cedo se as autoridades chinesas tivessem colaborado mais com a Organização Mundial da Saúde ou pautado com outra transparência a partilha de informação. Apesar da tentativa de contenção dos danos através de uma diplomacia prestadora de auxílio à saúde, a verdade é que essa desconfiança crescente com a China está hoje expressa em estudos de opinião que fazem já o balanço deste primeiro semestre do ano, como as Transatlantic Trends, do GMF, ou o Europe"s Pandemic Politics, do ECFR.

Ainda antes da pandemia, a União Europeia tinha substituído a "parceira estratégica" pela "rivalidade estratégica" e iniciado uma série de dispositivos legais que, entre outros efeitos, aprofundavam a monitorização aos investimentos chineses ou limitavam a sua participação financeira em empresas estratégicas nos Estados membros. Dito de outra forma, não existindo uma homogeneidade euro-americana em relação à China, a tendência acentuada pela pandemia torna a posição europeia bastante menos entusiástica do que em anos anteriores e a americana cristalizada no choque frontal. Não sendo de todo uma frente unida na forma e no método, pode vir a ser com o tempo menos deslaçada pela China do que até aqui.

A segunda razão tem aproximado a vontade de Washington e de algumas capitais europeias, convencidas do alarme criado em redor das redes de 5G protagonizadas pela Huawei, e de uma perceção alargada de despotismo digital infiltrado nas sociedades ocidentais, à imagem do sistema de vigilância montado na China. A verdade é que o Canadá fechou há poucas semanas acordo com a Ericsson e a Nokia para fornecimento 5G, inviabilizando o negócio com a Huawei, o mesmo está para acontecer com Singapura, República Checa, Suécia, Estónia, Roménia, Dinamarca ou Grécia. Acresce a isto, embora por outros motivos, a decisão da Índia em banir 59 aplicações chinesas do mercado, entre elas a popular TikTok, causando-lhe um prejuízo acima dos cinco mil milhões de dólares. Ou seja, a corrida imparável que estava a levar a tecnologia chinesa ao topo da globalização está a sofrer um retrocesso mais ou menos concertado.

A terceira razão situa-se ainda no plano do diagnóstico e das intenções políticas, mas está diretamente relacionado com a pandemia. A dependência ocidental de material hospitalar e farmacêutico da China abriu um debate alargado nas capitais europeias sobre as vulnerabilidades das cadeias globais de abastecimento e logística. Alguns, como o Japão, anunciaram mesmo a repatriação de empresas. Desglobalizar, regionalizando a indústria, passou a constar de intervenções políticas em Paris, Berlim, Copenhaga, Londres ou Lisboa, conscientes da necessidade de inverterem a excessiva dependência europeia em relação à China e da oportunidade económica que dali pode resultar. Quando ouvirmos falar de reindustrialização na Europa, é para a China que o sinal está a ser emitido. Se isto significa reverter o entusiasmo de alguns com projetos integrados na Belt and Road Initiative, é uma questão ainda sem resposta, tal como é a capacidade chinesa, afetada financeiramente pela covid, em manter o nível astronómico de investimentos nessa sua grande estratégia comercial global.

A quarta razão está na melhoria do conhecimento internacional sobre o que se passa com as violações de direitos humanos à minoria uigur em Xinjiang, o que arrasta a perversidade do ângulo para outras práticas da administração chinesa sobre dissidentes ou opositores ao regime. Se Tiananmen expôs a natureza de um regime em progressiva integração na globalização económica e política, as décadas seguintes foram paulatinamente aguçando silêncios externos condescendentes com os abusos do regime em nome das proveitosas relações comerciais. Como temos visto em relação à prepotência sobre Hong Kong, são vários os países disponíveis a acolher exilados, antecipando perseguições e prisões maciças de jornalistas, estudantes e políticos não alinhados com Pequim. O choque e o pavor com o comportamento da administração chinesa tem tudo para abrir um novo ciclo de relacionamento da China com a parte do mundo que se diz importar com a liberdade e os direitos humanos, dificultando o diálogo político numa série de assuntos de interesse comum. O cancelamento da cimeira União Europeia-China, prevista para setembro, é mais um sintoma deste novo ciclo.

Talvez seja excessivo falar em sinofobia crescente, como efeito colateral da pandemia. Essa bandeira não pode ser içada por quem acredita na centralidade da diplomacia nas relações internacionais. Mas parece correto dizer que entrámos numa fase bem mais áspera do que a que antecedeu a eclosão da pandemia. Para desanuviar o ambiente serão precisas pelos menos três coisas: que a China altere radicalmente o seu comportamento autoritário, que haja uma mudança na Casa Branca e que europeus e asiáticos descontentes com o exercício de poder de Xi Jinping aliem firmeza com pontes diplomáticas. Sendo a primeira altamente improvável, a segunda ainda um ato de fé e a terceira de sensível exequibilidade, vamos viver muitos e bons anos com mais uma turbulência sistémica em cima de tantas outras. Mais uma prova de que a covid é bem mais do que um vírus mortal.

Investigador universitário

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