De Luanda ao Paraíso com passagem por Lisboa: a miséria ao virar da esquina

Depois de Esse Cabelo, Djaimilia Pereira de Almeida publica Luanda, Lisboa, Paraíso, a história de um pai e de um filho que vêm para Lisboa à procura de uma cura mas acabam desapossados de tudo, até de si mesmos, num bairro de lata.

"Se uma história se parece com o corpo de um animal, então pode começar pelo calcanhar." O calcanhar esquerdo do filho mais novo de Cartola de Sousa nasceu malformado e, por esse motivo, o pai chamou-lhe Aquiles. Como se não bastasse esse azar na vida deste parteiro angolano, aconteceu também que a mulher, Glória, caiu na cama e nunca mais se levantou. "Os primeiros cinco meses de vida da criança apanharam a família no cruzamento entre a crescente paralisia da mãe Glória e a iminência da Independência." À beira de completar 14 anos, tal como indicado pelo médico, Aquiles viajou para Lisboa, com o pai, para ser operado. Chegaram à capital portuguesa sem saber que a viagem não teria regresso.

E ainda é só o começo da aventura. Luanda, Lisboa, Paraíso é o novo livro de Djaimilia Pereira de Almeida, 36 anos, autora de Esse Cabelo (2015) e Ajudar a Cair (2017). Tal como no primeiro, a escritora vai buscar às suas origens o impulso para a escrita. Tal como o primeiro, a ação passa-se em meados da década de 1980. Tal como o primeiro, este é um livro com um pé em Angola e outro em Portugal. E, tal como no primeiro, as personagens vivem a experiência do desenraizamento e da (tentativa de) integração. "É o mesmo território, mas o livro não tem grandes preocupações em reconstruir o passado, há algumas coordenadas mas são sobretudo emotivas, não há grande investimento na recriação", explica Djaimilia. As semelhanças entre os dois livros terminam aqui.

Esse Cabelo, era uma junção de elementos biográficos com romance e ensaio, partindo da experiência de uma rapariga de pele negra e cabelo crespo, vinda de Angola, na sociedade portuguesa de meados dos anos 1980. A autora não se preocupa muito com as categorias: "Sinto-me confortável com qualquer coisa que lhe chamem. Eu chamo-lhe Esse Cabelo, para mim é um livro." E explica: "É um livro em que eu uso material não especialmente da minha biografia mas que diz respeito à vida dos meus antepassados, em que os meus mortos são todos convocados. Nesse sentido o livro foi escrito sempre numa situação mais ou menos ambivalente, tentei respeitar a memória de todos os envolvidos mesmo aqueles que já não estão cá para o ler. Isso acabou por determinar a forma do livro e a própria escrita, que se caracteriza por uma contenção."

Depois de Esse Cabelo, Djamilia escreveu, num estilo mais ensaístico, Ajudar a Cair, para a coleção da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que era um retrato da vida dos residentes no centro Nuno Belmar da Costa, pertencente à Associação de Paralisia Cerebral. Este livro acabou por ser decisivo para a escritora, admite. "Eu pensava que era apenas uma encomenda mas acabou por ser muito importante o contacto que tive com este lugar e estas pessoas, e isso foi transformando a minha maneira de escrever", explica. "Deixei de ter um grande interesse na minha pessoa, acho que não tem muito interesse. Interessam-me outras vidas. Precisei deste tempo para perceber isso. E agora acho que cheguei a um ponto de não retorno. Interessa-me a realidade mas não necessariamente a realidade que eu conheço."

Em Luanda, Lisboa, Paraíso, Djaimilia Pereira de Almeida dá, por isso, "um passo atrás": "No primeiro livro fui buscar aspetos à minha vida, neste quis fazer o exercício contrário, apagar-me, dar espaço a uma história em que a minha pessoa não estivesse no centro."

Pai e filho: quem cuida de quem?

A história de Cartola e Aquiles começou a nascer na cabeça de Djaimilia fruto do "curto-circuito" provocado por uma série de reflexões e influências. Ela fala do livro How the Other Half Lives, do dinamarquês Jacob Riis (1849-1914), sobre as condições de vida dos pobres miseráveis na Nova Iorque do final do século XIX, mas também dos contos de Flaubert (1821-1880) e de alguns contos do final da vida de Tolstoi (1828-1910). Fala das fotografias dos americanos William Eggleston (1964-2015) e Thomas Roma (nascido em 1950). Fala dos blues que ouviu enquanto escrevia, mas também da tristeza do Cartola original (músico brasileiro, 1908-1980) ou do congolês Makiadi Luambo, conhecido como Franco (1938-1989).

"Interessou-me contar uma história tradicional da diáspora, tentando explorar literariamente uma certa interioridade negra", diz. Embora, no final, essa negritude acabe por não ser central na história mas sirva como "um caudal subterrâneo, é mais um ambiente, uma atmosfera". Mais importante do que o sítio de onde vêm ou a cor da sua pele é esta história tão comum de uma família que se divide e de a viagem estar relacionada com a doença. "É algo muito comum entre as pessoas que vêm das ex-colónias para Portugal, vêm por razões de saúde. E muitas vezes essas pessoas não sabem que cá vão ficar. Interessava-me explorar esta ideia da doença como algo que condiciona a nossa vida e que determina aquilo que fazemos."

E depois, também as assimetrias e as relações de poder definidas pela doença. "A relação entre o cuidador e o doente, o cuidador que também adoece, o cuidador tiranizado pelo doente e vice-versa. São relações ambivalentes em que é difícil perceber quem está no poder e quem não está", diz Djaimilia Pereira de Almeida. No livro, isso é muito visível entre pai e filho - Cartola toma conta de Aquiles, mas à medida que o tempo passa, o pai envelhece, o filho cresce e a relação altera-se - mas também na relação com Glória, "que não viaja com o resto da família e, no entanto da cama onde ela se encontra, exerce todo um poder e influência profunda sobre o pai e o filho".

A vida como "um jogo de cabra-cega"

A vida de Cartola e Aquiles em Lisboa é uma permanente perda. "Cartola é um angolano assimilado que sempre imaginou que ao vir para Portugal seria reconhecido como português, mas ao chegar cá apercebe-se de que ninguém estava à espera dele e vai sendo desapossado do poder sobre o seu destino, da capacidade de alimentar a família, de tudo aquilo que faz dele a pessoa que ele é", explica a autora. "Portanto, no fim de tudo, ele tem de reconhecer que quem ele era ficou para trás. O livro fustiga-o bastante." Entre os telefonemas para casa e as cartas que troca com Glória, Cartola vai ficando cada vez mais distante dos seus sonhos. "É como se a vida estivesse a jogar à cabra-cega com eles e eles estivessem de olhos vendados, a rodar, a rodar. É tremendo. Cartola e do Aquiles vão perdendo a mão em relação ao seu destino, mas no fundo isso acontece muitas pessoas. A mim interessa-me o ponto em que a experiência comum é a experiência humana, estamos todos ao mesmo nível, não interessa as nossas origens. A experiência deles é comum a muitas pessoas, a todo o género de pessoas, a vida às vezes é muito injusta."

A certa altura, Cartola e Aquiles têm de se mudar para um bairro de lata nas margens de Lisboa que se chama Paraíso, um lugar que não existe na realidade mas poderia existir. O trabalho nas obras, as viagens de autocarro de madrugada, os serões à porta de casa com um copo de vinho, os jantares enlatados, a chuva que cai, a desesperança, a miséria, os dias que se arrastam uns a seguir aos outros. "Eles são pessoas comuns, semelhantes a todas as outras", diz a autora. É aí, nesse Paraíso, que pai e filho fazem amigos e que, por momentos, têm a ilusão de poder recomeçar do zero.

"É um livro bastante sombrio em relação à vida e à justiça até, no entanto aquilo que redime a jornada do pai e do filho acaba por ser a possibilidade de amizade com Pepe, que lhe estende a mão. Perpassa pelo livro um raio de esperança em relação às relações humanas e ao contacto humano", defende Djaimilia, que apesar de todas as desgraças que acontecem a estas personagens acredita que há um lado solar nesta história: "Às vezes penso que o livro é sombrio, pessimista. Mas acho que é bastante otimista em relação às pessoas, à amizade, à generosidade e à solidariedade."

Djaimilia Pereira de Almeida diz que uma das coisas mais fascinantes na escrita é que quando acaba um livro não faz ideia do que as outras pessoas pensam daquilo. "Acho que é milagroso que uma outra pessoa possa deixar-se mover por aquilo que fizemos", diz. Nos últimos anos tem-se dedicado sobretudo à escrita. Trabalha em casa, solitariamente e sempre a ouvir música, faz revisões e traduções e trabalha nos seus próprios projetos. Escreve e recentemente voltou a desenhar, algo que fazia muito em criança. Por exemplo, enquanto escrevia Luanda, Lisboa, Paraíso foi desenhando Cartola e Aquiles nas várias fases da sua vida e foi desenhando os lugares por onde eles iam passando. "Fui a vários sítios, sobretudo à volta de Lisboa, vi fotografias antigas e vi muita pintura, mas no final isso acabou por não ter importância nenhuma. Mais do que ir aos lugares que existem à procura de como são as coisas, eu desenho-os. Eu não sei desenhar mas desenho aquilo que tenho na cabeça", conta. E, de alguma forma, esses desenhos e essas colagens acabaram por ser importantes para o que estava a escrever.

É isso que tenciona continuar a fazer: "As ideias criativas que tenho penso-as em forma de livro - o próprio livro me interessa, como funciona, como se faz. Mas não tenho ideias muito estanques sobre o que pode lá estar dentro, em relação a isso sou bastante selvagem. Este livro começa por dizer isso - um livro é parecido com o animal, não imagino que o consiga domar."

Luanda, Lisboa, Paraíso
Djaimilia Pereira de Almeida
Editora: Companhia das Letras
Preço: 16,50 euros

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.