Novas plataformas tentam alimentar-se nas entregas de refeições ao domicílio

Várias startups portuguesas desenvolveram soluções para encomendar comida aos restaurantes sem estes pagarem comissões.

Quando a covid-19 obrigou os restaurantes a virarem-se para o online por uma questão de sobrevivência, aplicações de entrega de refeições como Uber Eats, Glovo e Takeaway.com ganharam milhares de clientes famintos por manter os negócios abertos. As queixas sobre as comissões de até 35% por cada encomenda cobradas por estas plataformas foram o ingrediente necessário para várias startups portuguesas apostarem neste negócio.

Foram lançados nos últimos meses novos serviços, como a eStart4, a WeFood, a Pleez e a Kitch Tech. Trocaram as comissões por encomenda por uma mensalidade fixa ou só cobram mesmo aos restaurantes quando as vendas online são melhores do que nos espaços físicos. Apesar de as entregas continuarem a ser feitas por estafetas em veículos próprios (quase todas) as startups têm a particularidade de não terem uma aplicação móvel para as encomendas; este processo é feito através dos portais dos próprios restaurantes. Os consumidores, apesar de continuarem a pagar taxas de entrega, não têm de instalar mais aplicações no telemóvel.

A WeFood nasceu no Brasil em 2016 mas só chegou a Portugal em 2020, apesar de ter capitais 100% nacionais. Conta com cerca de 60 restaurantes em Lisboa, Almada, Leiria e Porto e não lhes cobra comissões. "O mercado português não está muito habituado a lidar com soluções digitais. Quando nós dizemos que não cobramos qualquer comissão, as pessoas acham muito estranho", refere Carlos Santos, presidente executivo. Os restaurantes da cadeia Rice Me estão entre os aderentes.

Nesta plataforma, é cobrada uma mensalidade de 45 euros por mês (mais IVA) aos donos dos restaurantes. Em troca, os comerciantes podem ficar com todo o valor cobrado aos consumidores - exceto a taxa dos cartões de crédito/débito - e podem ter uma aplicação própria no telemóvel ou então juntar-se à "montra" da WeFood.

As entregas podem ser feitas pelos estafetas do restaurante, que ficam registados na plataforma e podem beneficiar de um sistema de gestão de rotas, ou então podem recrutar pessoal junto de uma rede de estafetas da plataforma. Os consumidores pagam uma comissão conforme a distância a que estiverem do restaurante.

Solução semelhante foi desenvolvida pela eStart4. Fundada por Rob Kramer e Pedro Cabral, esta plataforma permite que os consumidores façam os pedidos diretamente através dos canais próprios do restaurante ou através da página DeliveryLx. A mensalidade é de 59 euros e os consumidores pagam uma comissão de 3,25 euros se estiverem a até três quilómetros do restaurante, valor mais elevado do que nas principais aplicações. O valor sobe conforme a distância.

"Somos uma plataforma de apoio ao comércio local. Se uma pessoa está disposta a ajudar estes restaurantes, não é por 30 cêntimos que vai deixar de encomendar", acredita Pedro Cabral. A eStart4 já fechou parcerias com a Junta de Freguesia da Misericórdia e conta com 30 restaurantes parceiros no centro de Lisboa, como El Bulo, Senhor Abel, A Coxinharia, Thai Garden e SukhoThai.

Em maio de 2020, a Kitch apresentou-se ao mercado como um agregador de cozinhas virtuais para entregas em casa. Só que o mercado começou a pedir outras opções e a startup liderada por Rui Bento e Nuno Rodrigues criou lojas próprias para os restaurantes físicos parceiros, incorporadas nas redes sociais ou na página da internet. Os restaurantes podem ainda ligar-se a frotas de estafetas.

"No mundo pré-pandemia, as entregas acrescentavam receita ao negócio diário. Nos últimos meses, as entregas passaram a ser o negócio principal para muitos restaurantes. Pagar uma comissão de 30% no negócio principal incentiva a procura de outras soluções", destaca Rui Bento, que liderou a Uber em Portugal durante cinco anos.

Os restaurantes, nesta plataforma, só pagam "se houver um incremento das vendas", em comparação com o período pré-pandemia. Boa-Bao, Nómada, Lupita, Las Gringas e Marlene Vieira são alguns dos restaurantes já inscritos.

A Pleez também nasceu em meados de 2016. Inicialmente, queria digitalizar os canais da hotelaria, restauração e cafetarias. Mas a segunda vaga e as novas restrições obrigaram esta plataforma a lançar uma ferramenta que permite aos restaurantes fazer as entregas mesmo sem terem frota própria.

"Todas estas opções têm a vantagem de funcionarem como um canal direto entre o restaurante e o seu cliente, uma vez que as encomendas são sempre feitas através de um QR Code ou de um link disponibilizado pelo restaurante no seu site, redes sociais ou flyers", explica Rita Araújo, uma das fundadoras desta startup.

A mensalidade cobrada aos aderentes é de 33 euros, a que acrescem os custos de transação pelas entidades gestoras de pagamentos. Os restaurantes têm ainda uma comissão "entre os 2% e os 7,5%" conforme o pacote que for subscrito. Mais de 20 restaurantes já aderiram a esta ferramenta da Pleez, que conta com um total de 150 lojas a nível nacional.

As novas plataformas procuram salvar restaurantes para poderem crescer no mercado português.

Quem são os gigantes em Portugal?

Nascida em setembro de 1998, a noMenu foi a principal empresa na entrega de refeições em casa durante quase duas décadas. Primeiro por telefone, mais tarde também pela internet, era possível encontrar centenas de restaurantes num só local, com os consumidores a pagarem uma taxa de 3,90 euros por pedido. Tudo mudou no final de 2017, com a chegada das aplicações móveis: a Uber estendeu a Portugal o serviço de entregas (Eats) e chegou ainda a espanhola Glovo, com refeições e outras encomendas ao domicílio.

A noMenu, ainda assim, conseguiu adaptar-se: criou a sua aplicação para as encomendas. Sobreviveu e conta com mais de 1200 restaurantes de norte a sul do país. A Uber Eats já é utilizada por mais de 6000 restaurantes em mais de 70 localizações.

A Glovo está presente em mais cidades (90), mas não há indicação sobre o número de parceiros. Em meados de 2018, chegaram os holandeses da Takeaway.com, que atraíram os portugueses com a isenção de comissões e as entregas feitas em bicicletas. Desconhecem-se quais são os restaurantes parceiros. Em outubro de 2020, a Bolt juntou as refeições aos carros, com mais de 260 opções só em Lisboa.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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