Dois circos aterram no heliporto de Monchique e...

O ano começou com circo em Monchique. E com lotações esgotadas. Como já é habitual nos espetáculos programados por Madalena Victorino e Giacomo Scalisi, entre a serra e a costa vicentina.

Nunca se tinha visto uma agitação assim. São cerca de 900 as pessoas que, todos os dias, chegam a Monchique para assistir aos dois espetáculos que Le P'tit Cirk e Le Collectif Malunés, duas companhias de circo contemporâneo de França e da Bélgica, apresentam até domingo em duas tendas montadas no heliporto. E este é, sem dúvida, o maior desafio logístico do programa Lavrar o Mar que, pelo quarto ano, traz o circo para a passagem de ano em plena serra de Monchique.

"Somos vítimas do nosso sucesso", conclui, sorridente, Giacomo Scalisi, o programador que, ao lado de Madalena Victorino, pensou esta programação. "No primeiro ano tivemos a ideia de fazer a passagem de ano com circo no heliporto. Monchique tem um heliporto que durante o inverno quase não funciona e, como nós não temos teatros e temos de inventar lugares para apresentar os espetáculos, achámos que seria bom ter uma tenda de circo. Começámos com 350 lugares por cinco noites. Esgotámos. Mas no primeiro ano ainda havia algumas dúvidas sobre o 31, as pessoas de Monchique não vieram, desconfiaram um pouco. No segundo ano, tivemos 500 lugares, sempre com filas à porta. No ano passado foram 700 lugares outra vez com filas. É muita gente mesmo. Neste ano fazemos uma programação dupla, temos duas tendas com uma lotação total de 900 pessoas por cada dia, em oito dias. É uma grande aposta. São 7200 pessoas que vêm a Monchique em dez dias, no meio da serra, mas este milagre está a acontecer."

O circo na passagem de ano tornou-se a "imagem de marca" do Lavrar o Mar - As Artes no Alto da Serra e na Costa Vicentina, que desde o início teve como objetivo trazer uma programação cultural para os concelhos de Monchique e Aljezur, durante a chamada época baixa do turismo, ou seja, entre outubro e maio. "Não acontecia aqui nada nesta altura", explica Giacomo Scalisi. Entretanto, começaram a acontecer várias coisas.

"Este é o quarto ano de Lavrar o Mar. Tínhamos imaginado um tema em cada ano, que servia como uma ligação entre os vários espetáculos mas sem ser muito rígida. E, como estamos neste território que é um parque natural, escolhemos os quatro elementos: o fogo, a água, o ar e, neste ano, a terra", explica Giacomo Scalisi. "Cada programação é diferente mas existe um denominador comum que é este território magnífico, que tem praia e serra, medronhos e piscinas, tem tudo o que uma cidade não tem. E não tem teatros. Então, para fazer uma programação temos de inventar, a partir dos projetos e dos artistas, como é que isto pode acontecer aqui."

Para além de não ter teatros, a região de Aljezur e Monchique também não costumava ter muita programação cultural e, por esse motivo, também não se podia dizer que houvesse um público. Esse tem sido o grande trabalho desenvolvido ao longo destes quatro anos. "A nossa ideia era implementar um projeto cultural que pudesse mesmo criar raízes profundas, criar hábitos culturais, criar um público", explica Giacomo Scalisi. "E agora já podemos dizer que penso que estamos mesmo a consegui-lo", conclui, satisfeito. "Temos quase sempre os espetáculos esgotados. E temos um público que nos acompanha, muito interessado, que está à espera das propostas, que nos pede, que pergunta, que no início da temporada quer comprar bilhetes para tudo o que acontece."

Madalena Victorino concorda mas sublinha que este é um trabalho que nunca está concluído: "É verdade que o público está cada vez mais presente, mas nós estamos sempre a ir chamá-lo. Trabalhamos muito para fazer chegar a nossa programação a toda a gente. Vamos ao encontro das pessoas que já gostam de ver espetáculos, assim como vamos ao encontro daqueles que nunca viram nenhum espetáculo, e ficamos muitos contentes quando querem voltar."

"O Lavrar o Mar tem muitos públicos", explica Madalena Victorino. "O público local autóctone, os que residem aqui mas são estrangeiros, os turistas e viajantes que estão de passagem, os portugueses das grandes cidades que vêm aqui de propósito para ver um espetáculo particular." São públicos muito diversos e, por isso, a programação também é muito diversa. Há sempre concertos e novo circo, espetáculos para os mais novos, criações que envolvem a população, espetáculos em espaços fechados e outros que passeiam pelo território.

No mês de dezembro, por exemplo, o Lavrar o Mar teve duas propostas muito diferentes: O Presente de César, com texto de Sandro William Junqueira, onde se contava a história de um português que andou na pesca do bacalhau, um espetáculo que incluía um jantar e era apresentado para 70 pessoas de cada vez; e no final do ano dois espetáculos de novo circo apresentados em tendas no heliporto de Monchique, para um total de 900 pessoas por noite.

"Desde o início, queríamos trabalhar as diversidades culturais que existem nestes territórios. Temos portugueses, mas também uma grande comunidade alemã, ingleses, franceses, holandeses. Temos pescadores, gente que trabalha no campo, artistas, pessoas com outras atividades. Como pôr esta gente toda em diálogo?", pergunta Giacomo Scalisi. Isso vai acontecer, por exemplo, nas "caminhadas com arte", que terão lugar em março e que são passeios no meio da serra em que cada grupo de 15 pessoas será guiado por uma personalidade (da dança, do teatro, da música, da filosofia, da ciência...) "para falar no meio da natureza". A caminhada termina com um almoço em que todos os grupos se juntam.

Na programação até maio, haverá ainda um novo episódio de Medronho, a "megassaga monchiquense de Romeu e Julieta", que Giacomo Scalisi encena com textos de Afonso Cruz e Sandro Wlliam Junqueira, e um concerto de música indiana. A programação termina com o espetáculo Quando for para a Terra, que Madalena Victorino vai criar com um coletivo de artistas e elementos da comunidade, explorando os vários significados da expressão "voltar à terra": seja o regresso a casa ou a morte. Seja a terra que nos alimenta, seja a terra em que temos raízes ou ainda este planeta onde vivemos e a que devíamos dar mais atenção.

Integrado no programa 365 Algarve (do Turismo de Portugal), com o apoio das duas câmaras municipais (Monchique e Aljezur) e com um apoio bianual da Direção-Geral das Artes, findo este primeiro ciclo de quatro anos, o Lavrar o Mar promete continuar. "Há coisas que nós já sabemos sobre este projeto e uma delas é que ele é necessário: às pessoas e a este território", afirma Madalena Victorino.

Para o futuro, uma das grandes apostas passa por criar cada vez mais laboratórios, "lagoas de experimentação", onde, a par dos espetáculos, os artistas portugueses e estrangeiros possam experimentar, criar, ensaiar, com as comunidades locais. "Já estamos a fazer isso, mas queremos fazê-lo de uma forma mais intensa", explica a programadora.

"Claro que queremos continuar a trazer espetáculos que estão prontos e que nós sabemos que são bonitos e que as pessoas vão gostar, mas queremos cada vez focar a nossa atenção em objetos que nascem desta viagem permanente entre artistas que chegam, intenções e matérias que estão aqui, e que nesse diálogo de contrastes se façam espetáculos que possam marcar a vida das pessoas de uma forma intensa", prevê Madalena Victorino. "Há cada vez mais companhias estrangeiras que estão interessadas nisto - em sair das grandes cidades e dos grandes teatros e encontrar um público mais verdadeiro, mais próximo, que os interpela naquilo que eles apresentam. Essa proximidade leva-os a rever a sua forma de criação e a sua qualidade de interpretação. Quando olham as pessoas a 50 centímetros de distância é diferente de olhá-las de cima de um palco. É uma questão de perspetiva. Não sei se isso é uma metáfora para falar da necessidade de as pessoas se aproximarem e em conjunto enfrentar o mundo - é uma hipótese."

PROGRAMA:

A Grande Viagem do Pequeno Mi
Criação de Madalena Victorino
Cocriação e interpretação de Beatriz Dias
A partir do livro de Sandro William Junqueira (texto) e Rachel Caiano (ilustrações)
Aljezur, 18 e 19 de janeiro
Monchique, 23, 24 e 25 de janeiro

A Cantora Deitada
Criação de Madalena Victorino
Cocriação e interpretação de Ana Root e Tiago Rouxinol
A partir do livro de Sandro William Junqueira (texto) e Maria João Lima (ilustrações)
Aljezur, 8 e 9 de fevereiro
Monchique, 13, 14 e 15 de fevereiro

Medronho: Fermentação e Destila
Direção artística de Giacomo Scalisi
Texto de Afonso Cruz
Monchique, 8, 9, 15 e 16 de fevereiro

Deux Pierres
Turak Théâtre (França)
Criação e interpretação de Michel Labou
Aljezur, 21, 22 e 23 de fevereiro
Monchique, 28 e 29 de fevereiro e 1 de março

Caminhadas com Arte
Convidados por anunciar
Aljezur, 21 de março
Monchique, 28 de março

Amrat Hussain Brothers Trio
Concerto de música da Índia e Paquistão
Aljezur, 12 de abril

Avó
Une Loup Pour L'Homme (França)
Novo circo
Aljezur ou Monchique (por anunciar), 21, 22, 23, 24, 26, 27, 28 e 29 de abril

Rare Birds
Une Loup Pour L'Homme (França)
Novo circo
Aljezur ou Monchique (por anunciar), 1, 2 e 3 de maio

Quando for para a terra...
Coletivo artístico: Madalena Victorino, João Tuna, Remi Gallet, Joana Guerra, Celine Tschachtli, Rita Rodrigues, Inês Faria, entre outros
Aljezur ou Monchique (por anunciar), 28, 29, 30 e 31 de maio

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