"Só mata idosos" ou "já há cura". Mitos e verdades sobre o covid-19

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"Só mata idosos" ou "já há cura". Mitos e verdades sobre o covid-19

É pior do que a gripe sazonal? Usar máscara é assim tão eficaz? E quem é que está mais sujeito a morrer com o novo coronavírus? Afinal, a vacina chega neste ano? O DN explica o que se sabe até agora sobre a nova epidemia mundial.

A doença covid-19 já corre mais de 60 países, infetou acima de 87 mil pessoas e matou perto de três mil. Numa altura de constantes balanços numéricos, as dúvidas podem ser várias, dando força a mitos. Desfazemos alguns deles.

Tese 1: "Só mata os idosos"

De acordo com os dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de mortalidade é tanto maior quanto mais elevada for a idade. Até aos 9 anos, a incidência é nula, entre os 10 e os 39 atinge os 0,2%, começando a aumentar a partir da faixa dos 40-49 anos, com uma taxa de 0,4%. Do total, 51% dos mortos estavam acima dos 60 anos e mais de 21% destes acima dos 80.

No entanto, pessoas já debilitadas clinicamente também estão entre o grupo de maior risco. Assim sendo, a grande maioria das pessoas não idosas e saudáveis não ficarão em estado grave, caso sejam contaminadas. Os profissionais de saúde, mais expostos ao vírus, poderão ser mais facilmente contagiados.

Tese 2: "É mais perigoso do que uma gripe de inverno"

Os sintomas são os mesmos: febre, tosse, dificuldades respiratórias. Tem tudo para nos levar a pensar que se tratará de uma gripe de sazonal. Mas, quando comparamos as consequências, o cenário torna-se mais sério para os infetados com covid-19.

Segundo informação recolhida entre a OMS, o comité de saúde da China, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças e a Universidade de Sevilha, ao nível da mortalidade, o covid-19 está bastante abaixo daquela registada pelo MERS e SARS, outros dois coronavírus, ainda que acima da gripe comum. Em Wuhan, cidade onde se originou o covid-19, a taxa de mortalidade situa-se entre os 2% e os 4%, já fora desta cidade não chega sequer a 1%. Ainda assim, como lembra o The Guardian, é dez vezes mais mortífero do que a gripe de inverno, que se estima que mate entre 290 mil e 650 mil pessoas por ano mundialmente.

Tese 3: "Deu positivo no coronavírus, está infetado com covid-19"

A dúvida levou à urgência de a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, esclarecer os cidadãos, na conferência de imprensa que convocou para este sábado de manhã. No dia anterior, quando dava conta do resultado de alguns suspeitos de estarem infetados em Portugal, referiu que havia casos que teriam dado positivo por contaminação de coronavírus, mas não de covid-19.

A 10 de fevereiro, a OMS decidiu dar um nome à doença que até então só se sabia ser um tipo de coronavírus. Se coronavírus é um grupo de vírus, covid-19 é a nomenclatura utilizada para se referir à doença, prevenindo assim a confusão clínica e adiantando-se à sociedade, prevenindo estigmas. Aliás, em 2015 a organização decidiu, em conjunto com a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), estabelecer um conjunto de práticas a ter em conta na hora de dar o nome a uma doença. Assim sendo, o nome deve ser pronunciável, não fazer referência a uma localização geográfica, a um animal, indivíduo ou grupo de pessoas.

Um mau exemplo é a conhecida gripe dos porcos, entretanto designada influenza A, depois de se ter detetado uma crise no comércio de carne de porco pelo mundo, quando se começou a falar da doença. O mesmo acontece com a gripe espanhola de 1918. Ao contrário do que o nome indica, não teve origem em Espanha, mas sim em França e nos EUA. No entanto, estes países lutavam na I Guerra Mundial e, por isso, decidiu-se assumir o nome de uma nação neutra. O próprio vírus ébola inclui-se na lista de maus exemplos, associado ao rio Ébola (na República Democrática do Congo), ainda que tenha sido desenvolvido na Guiné, Serra Leoa e Libéria entre 2014 e 2016.

Tese 4: "As máscaras faciais de pouco servem"

Lavar as mãos e usar máscara têm sido das principais medidas de prevenção citadas por especialistas de todo o mundo. No entanto, nos últimos dias, alguns jornalistas correspondentes em Milão - atualmente uma zona de alto risco e de onde partiram todos os suspeitos de infeção em Portugal - descreviam uma cidade onde poucos eram aqueles que passeavam pelas ruas de máscara no rosto.

Certo é que usar máscara não é garantia de que não ficará infetado, uma vez que o vírus pode transmitir-se a partir de pequenas partículas (conhecidas como aerossóis), capazes de penetrar as máscaras. Ainda assim, são um método eficaz na principal via de transmissão, reduzindo as possibilidades de ser contagiado, se tiver um contacto próximo com algum infetado. Por outro lado, num passeio pela rua, usar máscara não fará grande diferença.

Além de que não servirá qualquer máscara. A cirúrgica - o modelo mais básico, mais barato e mais fácil de encontrar à venda - não será o ideal, mas sim aquelas que dispõem de um tipo de proteção respiratória individual, com um dispositivo de filtragem de ar, sendo também mais duradouras.

O uso desta proteção é aconselhado pela OMS apenas a quem está doente ou tem suspeitas de estar, de forma a evitar a transmissão para outros. Considerando o estado atual em que se encontra a epidemia, a Direção-Geral da Saúde (DGS) não está a aconselhar o uso de máscaras em Portugal.

Segundo informação divulgada na revista científica Lancet, cada pessoa infetada com covid-19 contagia, em média, 2,68 pessoas. Uma taxa inferior à média do SARS (três), mas acima da registada pela gripe espanhola de 1918 (1,8), o MERS (0,30) e a gripe suína (1,46). De acordo com o The Guardian, citando diretrizes defendidas pelos hospitais, bastaria uma exposição de dez minutos com alguém que esteja a um 1,80 metros de distância, a espirrar ou a tossir durante toda a interação. Contudo, um contacto mais curto ou tocar em superfícies que tenham sido contaminadas pode contagiar.

Tese 5: "Já há médicos que conseguiram curar doentes"

A epidemia cresce um pouco mais todos os dias, surgindo em cada vez mais países também. Entretanto, em alguns locais do mundo, médicos garantem já ter conseguido curar doentes infetados, através de medicamentos utilizados no tratamento contra o VIH. É o caso da Tailândia e da Espanha.

No início de fevereiro, dois médicos tailandeses garantiam ter curado uma paciente de 71 anos que deu entrada num hospital de Banguecoque através de uma mistura entre medicamentos contra o VIH e um remédio antigripal, segundo noticiou o diário Bangkok Post. De acordo com os profissionais Kriangsak Atipornvanich e Suebsai Kongsangdao, a mulher terá conseguido recuperar após 48 horas a seguir ao tratamento.

Também na Espanha, o primeiro caso de infeção registado no país foi submetido a um tratamento experimental à base de medicamentos utilizados para o VIH, que terá tido sucesso, segundo o El País. O caso ocorreu no hospital Virgen del Rocío, em Sevilha.

Contudo, nenhuma entidade oficial garantiu ter encontrado um tratamento eficaz para o novo coronavírus.

Tese 6: "Vacina nunca antes de abril"

Multiplicam-se os esforços para conter a progressão da doença, que já atinge mais de 60 países e fez quase três mil mortes em todo o mundo. Até agora, têm sido feitos estudos e experiências de forma a encontrar a melhor solução para combater este vírus, cujos resultados deverão ser conhecidos nas próximas semanas, segundo a OMS.

Quanto à tão desejada vacina, apesar de a organização ter garantido que não demorará menos do que ano e meio (a contar desde que o vírus foi conhecido) a ser produzida, os testes em humanos deverão começar já em abril e nos EUA.

A empresa americana de biotecnologia Moderna Therapeutics já conseguiu criar um primeiro protótipo de vacina para o vírus, que foi entretanto encaminhado para o National Institute of Allergy and Infectious Dieseases. Os primeiros testes estarão para breve.

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