Trump não explica tudo

Mais uma vez, Donald Trump protagonizou um grande evento internacional. Entre tweets provocadores e afirmações desconcertantes, o presidente dos EUA chamou a si os holofotes da cimeira do G20 que decorreu na semana passada em Osaka. Acusou a Alemanha de não querer pagar os custos da NATO, o Japão de viver à sombra do poder militar dos EUA e a Índia de aumentar as tarifas alfandegárias sobre os produtos americanos. Elogiou a política agressiva contra a imigração seguida pela Austrália e brincou com Putin sobre a interferência russa nas próximas eleições em terras do Tio Sam. Trump faz tudo para que falemos dele. Mas Trump não chega para explicar o estado em que o mundo está.

O actual presidente americano marca muito pelo estilo. As mentiras descaradas, as frases infantis e o politicamente incorrecto lembram os anos de Berlusconi à frente do governo italiano. Já então se percebia que por detrás da forma havia uma estratégia de preservação do poder. O absurdo faz notícia e garante a visibilidade indispensável, num tempo em que a comunicação é a base da política. É muito eficaz em sociedades descrentes das instituições democráticas, principalmente junto das camadas de população que mais têm perdido com o curso da história.

Tal como Berlusconi, é para esses perdedores que Trump diz governar. No seu discurso, é em nome dos trabalhadores metalúrgicos que aumenta as tarifas sobre a importação de alumínio e aço. É em nome dos camponeses que exige o acesso ao mercado chinês de produtos agrícolas. É em nome do contribuinte comum que exige aos europeus que paguem pela sua defesa.

A insistência é tão grande, as mesmas frases tantas vezes repetidas com uma simplicidade tão desarmante, que muitos americanos acreditam na boa vontade do presidente eleito. Outros vêem em Trump um irresponsável, que arrisca pôr em causa a ordem mundial com as suas idiossincrasias narcísicas. Não é nem uma coisa nem outra.

A forma como os EUA geriram a globalização, em particular as relações comerciais com a China, contribuiu de facto para a destruição de milhões de postos de trabalho e para a estagnação dos salários dos trabalhadores americanos. Mas isto, por si só, não serve para justificar as medidas proteccionistas adoptadas no último ano.

Os EUA habituaram-se a governar o mundo de forma arbitrária, decidindo quem são os países bons e maus

Não é para os trabalhadores que Trump governa. As políticas que anuncia não são acompanhadas de nenhum plano de revitalização ou desenvolvimento industrial das regiões em crise. Ao proteccionismo comercial selectivo, a administração Trump junta a redução de impostos para os ricos e para as grandes empresas, e a desregulação das condições de trabalho, da defesa do consumidor e da protecção ambiental. Há muitos que ganham com isto, mas não o cidadão comum americano.

Na verdade, nenhuma política proteccionista poderia trazer de volta os empregos perdidos há 20 ou 30 anos nos sectores tradicionais. Hoje há no mundo quem produza os mesmos bens a custos muitos inferiores, de que muitos consumidores e empresas americanas beneficiam. Se o objectivo fosse diminuir o desequilíbrio comercial entre os EUA e outros países, não faltariam instrumentos para lidar com esse problema, a começar por uma desvalorização do dólar ou um programa de investimento em novas tecnologias. Essa não é a preocupação de Trump.

O problema dos EUA não é com o mundo - é com a China. E não é comercial - as empresas americanas são das que mais beneficiaram com a abertura da China ao investimento estrangeiro e que mais têm aproveitado o crescimento do seu mercado interno. As tensões entre os EUA e a China são uma questão de poder. Não foram inventadas por Trump. Não começaram com a actual administração, nem terminarão com ela.

Desde a Segunda Guerra Mundial que os EUA são uma potência global hegemónica. Com o fim da URSS e a crise crónica do Japão, essa hegemonia deixou de ter rival. Os EUA habituaram-se a governar o mundo de forma arbitrária, decidindo quem são os países bons e maus, quem são os governos que merecem permanecer no poder e aqueles que têm de ser destruídos.

Até que a China deixou de ser apenas a fábrica do mundo, onde as multinacionais americanas iam produzir a custos irrisórios. Hoje a China é cada vez mais uma potência tecnológica. O seu poder financeiro e militar permite-lhe questionar a capacidade dos EUA para moldar o mundo à luz dos seus interesses. Aquilo que nos é apresentado como uma guerra comercial é na verdade um dos palcos em que se joga a emergência de uma nova ordem mundial.

É por isto que a suspensão das retaliações comerciais que foi decida entre Trump e Xi em Osaka não é o fim das tensões internacionais. É também por isto que o resultado das próximas eleições americanas não vai decidir por si o futuro do mundo. Com Trump ou sem ele, o mundo continuará a ser um lugar perigoso.

Economista e professor no ISCTE-IUL